Médica da USP é condenada a 3 anos de prisão por golpe de R$ 192 mil em lotérica de SP

Lotérica I 26.02.26

Por: Magno José

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Aluna de Medicina da USP ganhou 5 vezes na loteria com jogos feitos após sacar dinheiro da formatura
Alicia Dudy Muller Veiga recebeu sentença em regime semiaberto da juíza Adriana Costa nesta 4ª-feira; ela tentou pagar valor mil vezes menor em apostas na Zona Sul da capital paulista

A 32ª Vara Criminal do Foro Central Criminal da Barra Funda condenou Alicia Dudy Muller Veiga a três anos de reclusão em regime semiaberto. A decisão foi proferida nesta quarta-feira (26) pela juíza Adriana Costa. A médica formada pela Universidade de São Paulo aplicou um golpe de R$ 192,9 mil em uma lotérica da Zona Sul da capital paulista. Ela também responde por desvio de quase R$ 1 milhão dos fundos da festa de formatura de sua turma de Medicina.

A condenação inclui o pagamento de um salário mínimo como multa. O crime ocorreu quando a médica tentou fazer apostas no valor de R$ 891,5 mil, mas pagou apenas R$ 891,53. Esta é a segunda condenação de Alicia, que já havia sido sentenciada em julho de 2024 a cinco anos de reclusão em regime semiaberto pelo desvio dos valores da comissão de formatura. Ela recorreu da primeira decisão, mas ainda não houve novo julgamento.

Como o golpe foi descoberto

O Ministério Público denunciou a médica por obter vantagem ilícita ao tentar pagar valor mil vezes menor que o devido. Alicia solicitou apostas de R$ 891,5 mil e informou que faria transferências via Pix para quitar os valores na lotérica Oriundi, onde habitualmente fazia apostas e havia desenvolvido uma relação de confiança com a gerente do estabelecimento.

A gerente da lotérica desconfiou da operação quando as apostas já somavam R$ 193,8 mil. Ela constatou que havia apenas um agendamento de transferência, sem pagamento efetivo. Funcionários solicitaram comprovante à médica, que apresentou um extrato de R$ 891,50 e deixou o estabelecimento.

A investigação aponta que Alicia saiu da lotérica com cinco apostas de R$ 38,7 mil cada uma após breve discussão. A movimentação de R$ 891,53 foi feita para induzir os funcionários ao erro, simulando que o valor correspondia aos R$ 891,5 mil informados anteriormente. O promotor Vagner Queiroz classificou a ação como uma “conduta fraudulenta”.

Ao condenar a jovem, a juíza Adriana Costa afirmou que “ficou evidenciado o dolo da ré em induzir a gerente da lotérica em erro”. A magistrada não aceitou a alegação de que a jovem possui problemas psicológicos, entre os quais o vício em jogos, o que tornariam seus atos impulsivos e incontroláveis. Ela citou um laudo que atestou que a ex-aluna tinha plena consciência de seus atos e, portanto, é imputável.

Histórico de apostas

Em abril de 2022, a então estudante realizou quase R$ 20 mil em apostas na Lotofácil. Todos os pagamentos foram feitos via Pix. Após esse período, ela passou a fazer apostas em valores cada vez mais altos.

O golpe na lotérica ocorreu em julho de 2022. A polícia apura que ela teria apostado R$ 461 mil no total. Conforme provam os históricos de apostas do site Sorte Online, a médica movimentou a cifra astronômica de R$ 572.932,90 em plataformas digitais no mesmo período dos fatos.

Investigação sobre desvio de formatura

A médica responde também pelo desvio de quase R$ 1 milhão dos fundos da festa de formatura da turma de Medicina da USP. O Ministério Público a denunciou oito vezes por estelionato e uma por estelionato tentado nesse inquérito. A investigação contra a estudante começou depois que uma colega de faculdade registrou um boletim de ocorrência na polícia.

A comissão de formatura percebeu o desvio no dia 6 de janeiro de 2026. Uma das vítimas registrou a ocorrência no dia 10 de janeiro. A suspeita afirmou, por meio de mensagens no WhatsApp, que transferiu a quantia para uma conta pessoal. Alicia teve o seu sigilo bancário quebrado, de modo que foi possível rastrear o uso dado a parte do dinheiro.

Segundo a polícia, ela comprou um iPad Pro de R$ 6.000, alugou um apartamento por R$ 3.700 durante cinco meses (incluindo o valor do condomínio) e alugou um carro por R$ 2.000. “São 110 alunos que se esforçaram para entrar na faculdade de medicina da USP e agora estão vendo esse sonho [da formatura] correndo risco”, afirmou em janeiro de 2023 a delegada Zuleika Gonzalez Araújo.

O Instituto de Criminalística analisou ao menos dois celulares, um smartwatch, cartões bancários e HD externo. A polícia investiga se o dinheiro utilizado nas apostas não pagas pode ter origem nos valores desviados da festa de formatura.

Em depoimento à polícia, Alicia disse que o dinheiro não estava sendo bem gerido pela empresa contratada para cuidar da formatura e que resolvera administrá-lo por conta própria, mas que acabou fazendo péssimas aplicações financeiras, perdendo valores. Ela disse ainda que tentou recuperar os recursos fazendo apostas em uma casa lotérica.

Mensagens recuperadas

Foram recuperadas conversas de Alicia com conhecidos em que ela fala sobre os gastos e as mudanças de versões. Quando o caso veio à tona, ela mostrou nas mensagens um suposto arrependimento e disse que estava “vivendo o próprio inferno”. Ela chegou a comentar sobre as tentativas de recuperar o dinheiro com apostas na Lotofácil.

Defesa alega vício em jogos e questiona perícia

O advogado Sérgio Giolo, que representa a médica, disse que vai recorrer da decisão. “No momento, não é adequado comentar o mérito da acusação, especialmente porque há recursos pendentes e medidas em curso perante instâncias superiores, que discutem nulidades relevantes do processo”, afirmou ele.

Na defesa apresentada à Justiça, Alicia disse que o perito ignorou toda a documentação médica da época dos fatos e que houve cerceamento de defesa. Disse que não houve estelionato, uma vez que a casa lotérica não foi enganada.

Segundo a defesa, “houve operação de crédito de alto risco, consentida e estimulada pelo estabelecimento comercial em busca de lucro”. “Ao permitir que a ré [Alicia] realizasse apostas vultosas ‘a crédito’, sem a devida cobertura de fundos, a lotérica não foi vítima de uma fraude, mas sim de sua própria negligência grosseira e ganância”, declarou a defesa à Justiça.

O advogado Sérgio Giolo disse na ação que a conduta da ré, quando ainda era estudante, foi subproduto de uma patologia psiquiátrica grave. “Conforme provam os históricos de apostas do site Sorte Online, a ré movimentou a cifra astronômica de R$ 572.932,90 em plataformas digitais no mesmo período dos fatos. Tais dados provam que não havia um plano para lesar especificamente a lotérica vítima, mas sim um colapso financeiro e mental decorrente da ludopatia [vício em jogo]”, disse a defesa à Justiça. “Não houve atos criminosos planejados.”

O Ministério Público afirmou na ação que Alicia tentava se “safar” das consequências dos seus atos alegando possuir problemas psicológicos e estranhou que ela, diante desse quadro, tenha condições de trabalhar como médica. Alicia, 28, possui registro ativo no Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo).

“De um lado a ré vem aqui alegar possuir problemas psiquiátricos para minimizar as consequências de seus atos”, afirmou à Justiça o promotor Vagner Queiroz. “De outro, vai consultar pessoas doentes, prescrever remédios e atuar como se nada desses problemas psicológicos e psiquiátricos realmente existissem.”

O g1 entrou em contato com a defesa de Alicia Dudy Muller Veiga e aguarda posicionamento.

 

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