Bets levam ao governo parecer que contesta impacto no endividamento

A indústria de apostas esportivas levou ao governo um parecer que contesta estudos associando bets ao aumento do endividamento e da inadimplência das famílias brasileiras. O documento foi encomendado pela Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e aponta falhas no estudo produzido pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), que atribuía às apostas uma piora nas finanças domésticas.
Conforme apuração da Coluna Radar Econômico da VEJA, a crítica metodológica tem fundamento, mas o parecer vai além do que os dados permitem concluir. O documento enfraquece a afirmação de que a CNC comprovou o impacto das bets sobre o endividamento; não demonstra, porém, que esse impacto não existe.
Falhas no estudo original
O problema central identificado no estudo da CNC está na estrutura do modelo utilizado. A entidade apresenta a análise como um exercício de “diferenças em diferenças”, mas sem um grupo de controle. Sem esse elemento, o modelo não oferece um contrafactual capaz de mostrar o que teria ocorrido com o endividamento caso as bets não tivessem avançado no país.
Com apenas 59 observações mensais agregadas, o estudo permite identificar uma coincidência temporal, mas não comprovar causalidade. Outras variáveis presentes no mesmo período — como juros, inflação, crédito, emprego e políticas de transferência de renda — podem ter sido incorporadas à variável atribuída às apostas.
A apuração do Radar Econômico identificou ainda inconsistências nas tabelas do estudo original. Em um dos casos, um coeficiente de -0,305 aparece acompanhado de erro-padrão de 0,348 e, mesmo assim, recebe três estrelas, classificação normalmente reservada a resultados significativos ao nível de 1%. Os números publicados não sustentam essa marcação.
Limites do parecer da ANJL
O documento encomendado pelo setor acerta ao desmontar a alegação de causalidade da CNC. Os limites do parecer, porém, são relevantes. Ele não refaz as estimativas, não apresenta base de dados alternativa e não constrói um estudo independente capaz de medir o impacto das plataformas sobre o orçamento das famílias.
Algumas das inconsistências identificadas nas tabelas da CNC foram reproduzidas pelo próprio parecer sem recálculo. O documento admite não ter realizado auditoria da base da CNC e não apresenta código, replicação econométrica ou apêndice estatístico.
O parecer avança ainda para conclusões regulatórias que não derivam diretamente da crítica metodológica. Entre elas estão a defesa da publicidade como instrumento para direcionar apostadores às plataformas autorizadas e a tese de que restrições mais amplas favoreceriam o mercado ilegal. Os argumentos são sustentados principalmente por estudos e estimativas ligados ao próprio setor.

