Las Vegas já busca locais para cassino em SP; Anhembi é uma das apostas

Destaque I 18.07.16

Por: sync

Compartilhe:

A proposta de liberar jogos de azar no Brasil, que tramita no Congresso, tem aproximado São Paulo de Las Vegas, a capital mundial da jogatina. Grupos dos Estados Unidos e outros empresários estrangeiros já estão à procura de lugares que possam virar cassinos de luxo no Estado. Entre os locais em análise está o Complexo do Anhembi, na zona norte da capital.

De acordo com o projeto, São Paulo receberia até três cassinos. Minas Gerais e Rio de Janeiro teriam dois e os demais Estados, um. Os empreendimentos devem aproveitar equipamentos turísticos e ser construídos principalmente em resorts. A proposta também prevê legalizar bingos, caça-níquel, jogo do bicho e apostas online.

Apesar de ainda serem necessárias aprovação no Congresso e sanção presidencial, empresários acreditam que os cassinos vão poder abrir no segundo semestre de 2017. “Existe uma movimentação mundial no sentido de vir para o Brasil”, diz Olavo Silveira, presidente da Associação Brasileira de Bingos, Cassinos e Similares (Abrabincs). As empresas estão se posicionando, estudando locais e procurando redes de hotéis.”

Entre os interessados estão os irmãos Frank e Lorenzo Fertitta, que venderam o UFC, campeonato de artes marciais mistas (MMA, na sigla em inglês), por US$ 4 bilhões – R$ 13,1 bilhões. Proprietária de uma rede de cassinos de Las Vegas, a família estuda abrir uma unidade no Anhembi, que pertence à Prefeitura. “Eles estão muito capitalizados”, diz Silveira.

Representantes do UFC estiveram reunidos recentemente com a gestão Fernando Haddad (PT) para falar do Anhembi. O presidente da SP Negócios, Rodrigo Pirajá, afirma, porém, que a pauta não incluiu a instalação de um cassino. “Discutimos a vinda de eventos de luta para São Paulo”, diz. Nos Estados Unidos, é comum disputas de MMA ocorrerem em cassinos.

Com o fluxo de turismo de negócios, a capital paulista deve ser alvo da maior parte dos investimentos. Mas há movimentação em outras regiões, a exemplo do Guarujá, no litoral, onde fica o Hotel Jequitimar, do Grupo Silvio Santos. Lá, uma área de eventos deve tornar-se um cassino assim que a proposta for aprovada. O resort não comentou a informação. Empresários ligados a Stanley Ho, que domina o ramo em Macau, na China, também procuraram sócios em São Paulo.

Segundo Luigi Rotunno, presidente da Associação Brasileira de Resorts (ABR), os cassinos brasileiros devem mirar turistas dos Estados Unidos e da América do Sul. “Há ainda 350 mil brasileiros que vão jogar no exterior todo ano. É um público que poderia permanecer e gastar no País”, afirma.

Bingos

Proprietário dos luxuosos Bingos Imperador, na Avenida Sumaré, e Imperatriz, na 23 de Maio, o empresário Jair de Paula afirma ter sido procurado por grupos dos Estados Unidos e da Espanha para sociedade. O imóvel de 8 mil m² onde antes funcionava o Imperador está para alugar há dez anos. Um segurança vigia o prédio 24 horas, para evitar a invasão de moradores de rua. “A prioridade do aluguel é minha”, diz.

Disposto a reabrir, o empresário lamentou a limitação de um bingo para cada 150 mil habitantes, incluída no projeto. “Vai acabar direcionando as licenças para quem tem mais dinheiro. Eu queria ter sócio brasileiro, mas vou ser obrigado a me associar a grupos de fora.”

Polêmica

Para os apoiadores da legalização, os jogos de azar vão fortalecer o turismo, criar 450 mil empregos e aumentar em cerca de R$ 20 bilhões a arrecadação do País. “Não existe a opção ‘não ter jogo’. As opções que existem é ‘ter jogo legal’ ou ‘ilegal’”, afirma Olavo Silveira.

A proposta, no entanto, não é bem vista por todos. Opositores afirmam que o Brasil não é capaz de fiscalizar a atividade e relembram casos de fraude e lavagem de dinheiro que levaram à proibição da jogatina.

Para o promotor de Justiça José Carlos Blat, do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), as casas de jogos de azar foram fechadas porque se tornaram “grandes lavanderias”, até para “esquentar” dinheiro oriundo do tráfico de drogas. “Cansei de apreender pagamentos frios, feitos para fomentar esquemas de lavagem de capitais”, afirma.

Segundo ele, o dinheiro arrecadado com os jogadores, em alguns casos, ia para o “caixa 2”. As casas ficavam com um porcentual de até 30% do valor de origem ilícita.

Outro problema que preocupa o promotor são os jogadores compulsivos. “É considerada uma espécie de drogadição: o cidadão não consegue parar. Temos testemunhos de inúmeras famílias que tiveram seus bens dilapidados.” (Estado de S. Paulo – Felipe Resk)

***

Polícia fecha 2,7 bingos ilegais por dia na capital

As casas ilegais estão espalhadas por toda a cidade e oferecem tanto bingo em cartela quanto máquinas de caça-níquel

Só na capital, a Polícia de São Paulo fechou 2,7 bingos clandestinos a cada dia em 2016. Em geral, eles ficam em locais escondidos, têm segurança reforçada e acesso restrito a pessoas indicadas por frequentadores. Ao todo, 499 estabelecimentos foram alvo de batidas policiais no primeiro semestre deste ano, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP).

As casas ilegais estão espalhadas por toda a cidade e oferecem tanto bingo em cartela quanto máquinas de caça-níquel. “Geralmente o registro é feito como lanchonete e está em nome de um laranja”, diz o promotor Cássio Conserino, que já atuou no combate a jogos de azar. “A pessoa por trás disso dificilmente é descoberta, mas quem mais explora é o criminoso do colarinho branco.”

Segundo afirma, o negócio é viabilizado pela corrupção policial. “Há vários casos em que a Polícia Civil recebia propina mensal para permitir o negócio, enquanto a Polícia Militar chegava a fazer a segurança do local”, diz.

Investigações da Polícia Civil também apontam a ação de uma associação criminosa que alicia turistas para cassinos clandestinos em São Paulo. Eles são abordados por taxistas, que oferecem corridas gratuitas até o local onde ocorre o jogo ilegal. Se não perderem dinheiro jogando, são assaltados na saída. No ano passado, cerca de 20 casas foram fechadas em operação da Delegacia Especializada em Atendimento ao Turista (Deatur).

Em nota, a SSP afirma que as Corregedorias “atuam de forma incisiva” para combater o envolvimento de policiais com bingos clandestinos. Há 65 procedimentos abertos contra civis e 30, contra PMs.  (O Estado de S. Paulo – Felipe Resk)

***

Clubes de Pôquer querem distância do marco regulatório de jogos de azar

Frequentadores e empresários defendem que jogo é um esporte e depende da habilidade do jogador e não de sorte

Enquanto empresários esperam a liberação de bingos e cassinos no Brasil, há quem queira mesmo é ficar de fora do marco regulatório dos jogos de azar. É o caso dos clubes de pôquer, que se dizem vítimas de preconceito quando são comparados a atividades ilícitas, cujo resultado depende exclusivamente da sorte.

“A gente quer que os legisladores nos esqueçam. Pôquer é um esporte, depende da habilidade do jogador”, diz Igor Trafane, o “Federal”, presidente da Confederação Brasileira de Texas Hold’em (CBTH). A seu favor, Trafane cita decisões judiciais, o reconhecimento do Ministério dos Esportes e um laudo do Instituto de Criminalística (IC) que aponta a distribuição das cartas como o único evento aleatório do jogo.

Em São Paulo, Trafane administra o H2 Club, que funciona em uma casa de luxo na Avenida Henrique Schaumann, em Pinheiros, zona oeste. O clube tem mais de 20 mil associados que pagam pelo menos R$ 150 para disputar torneios. Os frequentadores também podem jogar a qualquer momento, trocando dinheiro por fichas, na modalidade “cash game”.

Com interior bem iluminado, o local tem restaurante, serviço de manobrista e é frequentado principalmente por homens a partir dos 25 anos. Organizadores de partidas distribuem fichas entre as mesas. De cadeira em cadeira, uma massagista relaxa os músculos daqueles que estão jogando há muitas horas.

Um dos frequentadores mais assíduos é o ex-atacante do Corinthians Alexandre Silveira, de 42 anos, famoso pelo último sobrenome: Finazzi. “O pôquer tem muita estatística, muita matemática”, diz o atleta, que cursou Engenharia. “É difícil explicar a questão de ser esporte ou jogo de habilidade. Só quem é do universo vai entender.”

No H2 Club, onde aparece mais de uma vez por semana, Finazzi prefere se exercitar no “cash game”, mas também participa de torneios. “Graças a Deus, eu tenho me dado bem. Talvez por isso fiz a opção de investir no pôquer”, afirma. “Muitos esportistas estão migrando para cá.”

Em março de 2015, a Polícia Civil discordou dos participantes do clube, realizou uma batida no local e dezenas de pessoas acabaram na delegacia, por envolvimento com jogo de azar. A casa voltou a abrir pouco depois. O Ministério Público pediu arquivamento do caso, por entender que o Texas Hold’em é uma modalidade esportiva.

A blitz policial foi motivada por uma denúncia de que turistas haviam perdido uma boa quantia no clube. “Envolver dinheiro não significa que é jogo de azar”, diz Uelton Lima, diretor do H2 Club. “‘Ah, mas me disseram que uma pessoa perdeu R$ 3 mil’. Caramba, se o problema é R$ 3 mil, manda fechar a loja do Louis Vuitton.” (Estado de S. Paulo – Felipe Resk)

EGT - 728 X 90EGT - 1280 x 90 1

Compartilhe: