BIS SIGMA João Pessoa: mercado de apostas e loterias do Brasil discute união no Nordeste

Feiras I 17.09.26

Por: Magno José

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BIS SIGMA João Pessoa: mercado de apostas e loterias do Brasil discute união no Nordeste
Evento em João Pessoa reuniu 600 representantes para debater regulação, combate à ilegalidade e modernização do setor, que enfrenta 41% de atuação irregular

João Pessoa recebeu, nesta quarta-feira (16/9), a primeira edição nordestina do BIS SIGMA, evento que reuniu mais de 600 representantes do mercado regulado de jogos, apostas e loterias para debater regulação, integridade, combate ao mercado ilegal e o papel social das loterias no Brasil. Realizado no Resort Tauá, o encontro teve caráter bilíngue para acolher convidados da América Latina e contou com a parceria institucional da LOTEP, da CIBELAE, das Loterias Caixa e da Lottopar.

A escolha da capital paraibana não foi circunstancial. O Nordeste já concentra 37 marcas e 14 empresas instaladas no mercado de aposta de cota fixa, e a região se afirma como polo tecnológico com empresas de plataforma em João Pessoa, Campina Grande e Recife. Ao levar o BIS SIGMA para fora do eixo Sul-Sudeste, o evento sinalizou que o desenvolvimento do setor regulado passa, cada vez mais, pela consolidação de novas geografias de poder dentro da indústria.

União como palavra de ordem

O tom do primeiro dia foi dado logo na abertura. O presidente da BIS SIGMA, Flávio Figueiredo, afirmou: “Estamos em sintonia aqui, que o nosso setor está apanhando e apanhando muito nesses últimos tempos. Se a gente não fizer alguma coisa, se não partir daqui alguma mudança, vai ficar complicado para todos nós.” Para ele, a proposta central do evento é reunir operadores, provedores, meios de pagamento, mídia e demais elos da cadeia para, nas suas palavras, “termos uma voz e sermos mais fortes.”

O cofundador Carlos Cardama resumiu o espírito do encontro em uma frase: “A palavra é união. Vamos lutar, vamos ter um mercado forte. O importante é uma palavra só: união.”

A convergência em torno desse discurso não é retórica vazia. O mercado ilegal ainda responde por entre 38% e 44% do total de apostas no Brasil, com média estimada em 41%. Mais de 56 mil sites ilegais já foram derrubados em acordo com a Anatel, mas 84% das propagandas de apostas no Instagram ainda seriam de operadores sem licença, segundo dados apresentados nos painéis. O setor regulado precisa, na avaliação dos participantes, ocupar esse espaço com mais velocidade e coesão.

Loterias, impacto social e modernização

Para o superintendente da LOTEP, autarquia paraibana com mais de 70 anos de história, Petrônio Rolim, o evento marca um ponto de inflexão para a região. “Essa atividade merece o nosso respeito porque contribui economicamente e defende o apostador, defende o cidadão. Quem quer jogar tem que jogar em uma plataforma regulada”, declarou.

O presidente das Loterias Caixa, Renato Siqueira, apresentou os números de uma operação que está presente em 99% dos municípios brasileiros, com mais de 13 mil pontos de venda e R$ 9,2 bilhões distribuídos em repasses sociais em 2025. No mesmo ano, a Caixa registrou 238 milionários, com a Lotofácil sorteando R$ 323 milhões. “Nosso grande desafio é modernizar sem perder a confiança, a credibilidade e a transformação da vida das pessoas”, disse Siqueira.

A experiência internacional veio de Javier Milan, presidente da CIBELAE e da Lotería Nacional de Beneficencia de El Salvador. Após o país aprovar uma nova lei em 2021, a modernização foi rápida; as raspadinhas saltaram de 4 milhões para 26 milhões de unidades, com o modelo omnicanal incorporando apostas online e cassino.

No Brasil, a Lottopar, com cerca de um ano e meio de operação no Paraná, já arrecadou mais de R$ 60 milhões e pagou mais de R$ 610 milhões em prêmios. Para seu diretor-presidente, Daniel Romanovski, o caminho passa por uma mudança de posicionamento de toda a indústria. “A gente tem que reposicionar o setor. Se a gente tivesse instituições de caridade nos protegendo, elas estariam empunhando a bandeira do nosso setor”, afirmou.

O painel sobre loterias estaduais como vetores de fomento social revelou outro dado de escala: a rede lotérica brasileira, com cerca de 13 mil pontos, é a maior rede física de distribuição do país. Manuel Júnior, do Sinlope e da Febralot, defendeu a integração entre loterias federais e estaduais como troca de experiências e tecnologias, não como homogeneização de produtos.

Integridade sob pressão

O painel sobre integridade nas apostas esportivas expôs a dimensão do problema. O Brasil responde por 5,5% dos casos suspeitos globais de manipulação de resultados, segundo dados apresentados. Um dado estrutural ajuda a explicar a vulnerabilidade: 98% dos atletas profissionais brasileiros recebem menos de um salário mínimo.

O procurador Caio Porto Ferreira afirmou: “Integridade não é somente promovida por empresas de monitoramento. A cooperação entre as instituições é que pode entregar resultado.” Ele integrou o painel ao lado de Carla Dualib, representante da Digitain no Brasil, e de Murilo Passarinho, diretor de relações governamentais da ANJL, que declarou: “O momento é de união. O setor está sob ataque, seja do ilegal, seja do crime organizado tentando se infiltrar no legal.”

Os três defenderam colaboração mais intensa entre operadores, reguladores, Ministério Público, polícia e entidades esportivas, além da criação de uma fonte única de dados para o setor. O Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD) foi apontado como desatualizado e com punições ainda brandas para casos de manipulação.

Vaquejada digital e o debate sobre VLTs

A vaquejada ganhou espaço como produto de apostas em expansão. A modalidade já movimenta cerca de R$ 700 milhões por ano no sportsbook, com destaque para o formato X1. Com a regulamentação para apostas de cota fixa prevista a partir de abril de 2026, operadores como Vaidebet e BetEsporte, que já patrocinam a modalidade, devem ampliar sua presença. O desafio apontado é equilibrar tradição cultural, profissionalização, dados, padronização, transmissão e jogo responsável.

Os VLTs (video lotteries) foram outro tema de debate. Carlos Crespo, CEO da Showball, afirmou: “Ele quer um espaço de confraternização, encontrar os amigos. Temos que oferecer um produto que não massacre o jogador.” A Showball citou a demissão de 300 funcionários e a perda estimada de 14 mil empregos no setor quando os bingos foram fechados no país, como argumento para uma regulação que não repita o mesmo erro. Especialistas apontaram que a expansão dos VLTs depende de certificação de gabinetes, softwares, plataformas, integração e cibersegurança, com perspectiva de avanços a partir de 2027, após as eleições.

O Nordeste além do mercado consumidor

Um fio condutor percorreu os painéis do dia: a recusa à visão do Nordeste como simples mercado consumidor. A região tem polos de desenvolvimento em tecnologia com projetos como o Extremotec em João Pessoa e o Porto Digital em Recife, além de universidades e mão de obra qualificada. As críticas à concentração do setor no eixo Sul-Sudeste foram frequentes, com pedidos por políticas públicas capazes de reter talentos e fomentar o empreendedorismo local.

A dimensão social também apareceu em projetos concretos financiados pela LOTEP: a APD Paraíba, que promove basquete em cadeira de rodas, e o CEDÓ, Centro de Defesa dos Direitos Humanos Oscar Romero, em Santa Rita, que atende 240 crianças e adolescentes com apoio do programa Criança Esperança. No encerramento do painel, foi feito um apelo público por um veículo de transporte para os atletas da APD.

O primeiro dia terminou com o Chat4Fun by Pay4Fun & BiS, realizado pela Pay4Fun a partir das 18h30, em área externa, com vinho e microfone aberto ao público. A mediação ficou a cargo de Leonardo Batista, com participação de Andrea Viana, Alex Galindo, Carla Dualib e Nuno Bispo. O tema foi o impacto do cenário eleitoral sobre o mercado regulado de apostas, questão que, segundo os participantes, representa uma das principais fontes de insegurança jurídica para o setor nos próximos meses. O BIS SIGMA João Pessoa continuou nesta sexta-feira (18/9), com painéis sobre lavagem de dinheiro, eleições e o futuro do mercado regulado.

 


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