“No Brasil, se você for um jogador compulsivo, estará em dificuldades”, alerta psiquiatra

Destaque I 18.08.16

Por: sync

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Em meio à discussão no Congresso Nacional sobre a aprovação de uma legislação que legalize os jogos de azar no país, a doença conhecida como ludopatia, ou jogo compulsivo, é uma das maiores preocupações de quem lida com o tema. Hermano Tavares, psiquiatra e professor do departamento de psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), lembra que o número de jogadores que buscavam tratamento era três vezes maior na época que os bingos eram legalizados. "Ainda que não seja uma estatística consolidada e publicada, sentimos na pele que quando o jogo está liberado e com acesso irrestrito, a demanda por tratamento praticamente triplica", aponta o especialista.

Tavares desenvolve um programa de atendimento e pesquisa voltado a esse público desde 1997 quando criou o Ambulatório do Jogo Patológico (Amjo), posteriormente renomeado para Pro-Amjo (Programa Ambulatorial do Jogo), que funciona no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas em São Paulo. Quando os bingos operavam livremente, o local recebia em torno de 240 solicitações de atendimento de novos casos por ano.

"Tínhamos bastante demanda. Atendíamos 120 casos novos por ano, e os outros 120, infelizmente, tinham de aguardar uma oportunidade de tratamento. Isso me deixava sempre muito preocupado, trata-se de uma população com alto risco, risco de suicídio, risco de abuso de substâncias e acidentes", ressalta. Com a legislação atual, a demanda no Pro Amjo está estabilizada em cerca de 80 novos casos por ano.

O problema relacionado ao jogo atinge diretamente cerca de 2,3% da população brasileira, segundo Tavares. O especialista aponta que 1% desses já tiveram um episódio de jogo compulsivo na vida e 1,3% são considerados jogadores problemáticos. "A gente tem algo em torno de 2,3% da população com dificuldades com o jogo ao longo da vida e que podem, a qualquer momento, voltar a sofer com o problema, sobretudo se avançar essa questão da legalização, o que vai gerar um aumento no acesso ao jogo de azar", considera. Contabilizando as pessoas atingidas de forma secundária, os familiares desses jogadores, o número daqueles cuja prática atinge a rotina sobe para cerca de 10% da população.

"Se pararmos para pensar, esses 2,3% de pessoas que sofrem diretamente por jogo, vivem em uma uma casa com 3 ou 4 pessoas. Sendo assim, entre 8 a 10% dos brasileiros tem potencial ou já sofreram ao longo da vida dificuldades relacionadas ao jogo de azar", afirma.

Para atender essa demanda, existem poucas clínicas especializado hoje no país, a maior parte delas localizados nas capitais Rio de Janeiro e São Paulo. "Se você for um jogador compulsivo no Brasil você está em dificuldades. Se você for jogador compulsivo em Belo Horizonte, por exemplo, eu não saberia pra onde te encaminhar", alerta Tavares. Ele considera que a legislação sobre o tema deve prever a necessidade de treinamento de profissionais da rede pública de saúde para lidarem com a doença. "Não vai ser barato montar uma estrutura dessas, mas ela vai ser imprescindível quando se pretende avançar nessa discussão da legislação", avalia o especialista.

Em 2016 foi lançado, por meio de uma parceria entre o Pro-Amjo e a Caixa Econômica Federal (CEF), um programa de suporte à distância para o jogador com dificuldade, com material explicativo e interativo sobre a doença. Ainda em fase inicial, o programa servirá para uma pesquisa sobre a eficácia desse tipo de atendimento online. "Eu imagino que no futuro isso vai ser cada vez mais importante, porque vivemos num país de dimensões continentais e mesmo que a gente treine pra começar outros centros para dar apoio, acho que nunca será possível uma cobertura completa da nossa população. Então, a possibilidade de você apoiar pessoas à distância, eventualmente poder identificar um problema, e conseguir encaminhá-las pra um lugar onde elas recebam atenção direta, é muito importante", considera Tavares.

Confira a entrevista completa com Hermano Tavares, psiquiatra e professor do departamento de psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP)

PORTAL – Como você começou a trabalhar com o atendimento de jogadores compulsivos?

HT – Eu trabalhava com álcool e drogas desde o tempo da graduação na faculdade de Medicina e, naquela época, um ou outro paciente poderia apresentar uma dificuldade com jogo, mas isso era um evento raro. O cenário mudou muito nos anos 90, com a legalização dos bingos. Inicialmente a ideia era que os Bingos iam ajudar a arrecadar dinheiro, financiamento para o esporte amador. Isso, na minha opinião, nunca aconteceu de fato. As associações de esportes amadores foram usadas, emprestaram o nome, e bingo virou uma grande jogatina, negociação, comércio puro.

PORTAL – Quando você percebeu a necessidade de criar um atendimento para esse público?

HT – Com a passagem do videobingo para o caça-níquel eletrônico, a coisa estourou e começou a haver uma demanda muito importante de pacientes. Em 96, eu atendi os primeiros pacientes. Confesso que tive dificuldade de reconhecer que era esse o problema. Depois, exatamente por reconhecer uma dificuldadee perceber a demanda crescente, achei que seria interessante iniciar um estudo, então eu me matriculei num programa de pós-graduação do departamento de psiquiatria da USP e abri junto com os colegas o Pro- Amjo ou Amjo na época, o Ambulatório do Jogo. 

PORTAL – Qual foi o momento de maior demanda de pacientes?

HT – Teve um período, entre 2001 até 2003, quando a legislação era temporária e deveria seguir uma normatização que iria regulamentar definitivamente a questão. A legislação caducou e os bingos só poderiam continuar com liminares, a partir das quais eles não tinham mais nenhuma restrição de operação. Trabalhavam 24 horas por dia, sete dias por semana. A coisa foi crescendo e a demanda era cada vez maior, basicamente porque os bingos operavam freneticamente. Ai começaram as várias acusações de deficiências da regulação e mesmo de fraude que culminaram em 2004 com uma indignação popular e a proibição definitiva dos bingos. Quando houve essa superexposição, observamos também no nosso ambulatório a maior demanda de toda nossa existência como serviço pra tratamento.

PORTAL – Com a legislação atual como está a procura de jogadores compulsivos por atendimento?

HT – Em 2004, quandos os bingos foram proibidos, os pacientes não desapareceram, mas a demanda diminuiu bastante. Teve um momento que os bingos voltaram, a demanda aumentou de novo, depois foram definitivamente proibidos e a demanda se estabilizou. Quando os bingos operavam livremente, tínhamos algo em torno de 240 solicitações de atendimento de casos novos por ano. Conseguíamos atender 120  casos novos por ano, e os outros 120 infelizmente tinham que aguardar uma oportunidade de tratamento.

Isso me deixava sempre muito preocupado, essa é uma população com alto risco, risco de suicídio, risco de abuso de substância e acidentes. Eles estavam aguardando o momento de poder se tratar. Com todas as idas e vindas na legislação, hoje a demanda está mais ou menos estabilizada em torno de uns 80 casos. Embora não seja uma estatística consolidada e publicada, sentimos na própria pele que quando o jogo ocorre com acesso irrestrito, a demanda pro tratamento praticamente triplica.

Já quando os jogos operam de forma clandestina, a demanda cai pra um terço.  Essa tem sido a nossa experiência nesses quase 20 anos de trabalho.

PORTAL – O jogo compulsivo pode ser comparado com outros tipos de vício?

HT – Jogo hoje em dia é considerado uma dependência. Uma dependência não química, uma dependência comportamental, mas que tem todas as características de uma dependência. A pessoa que tem essa dificuldade vai jogar, começa a escalar as apostas e o risco da aposta. Jogar baixinho, como ela jogava antes, não dá mais a mesma emoção.

É como o nível de álcool e drogas que você precisa ir aumentando a dose pra ter o mesmo resultado que você tinha no começo. Se essa pessoa por qualquer razão é privada de jogar, ela passa mal, fica inquieta, desatenta, triste, angustiada. Ela sabe que quando ela tiver a oportunidade de fazer uma aposta ela vai melhorar dessa situação e, na primeira oportunidade, ela vai fazer isso pra tentar desfazer o que a gente pode chamar de uma abstinência emocional das apostas.

Existe também a perda de controle que vai gerar muitas dificuldades pessoais nos relacionamentos, relações pessoais e profissionais, fora o alto endividamento econômico. Apesar de tudo isso, a pessoa persiste na atividade. Ou seja, se eu falasse álcool ou jogo, se substituisse a palavra, você não ia perceber a diferença entre um comportamento e outro.

PORTAL – Pessoas que são consideradas dependentes do jogo costumam ter outros vícios?

HT – Pessoas em tratamento para dificuldades com álcool e drogas apresentam em até 20% das vezes dificuldades com jogo. Entre os jogadores, algo em torno de 25% dos homens que jogam tem dificuldades com álcool. Já 70% dos jogadores em geral, homens e mulheres que estão em tratamento, são fumantes, o que é outra dependência química que é a da nicotina.

Esses quadros andam de mãos dadas. Inclusive tem fatores genéticos compartilhados e isso é observado nas famílias, é muito comum o pai ser alcoólatra, a filha ser jogadora, ou a mãe ser jogadora e os filhos terem dificuldades com drogas. Isso tem uma agregação familiar e um compartilhamento de fatores genéticos e ambientais bastante evidente.

PORTAL – O ambiente das casas de Bingo contribuem para esse quadro?

HT – Não só o próprio jogo tem instrumentos arquitetados de uma certa forma para prender a atenção do jogador, como também todo ambiente é construído pra causar um alheamento do ambiente externo e um foco preferencial na atividade do jogo, na aposta. Mesmo em outras formas de jogo, como cartas, as pessoas sentam pra jogar e a mesa tem um foco de luz que é na carta, o ambiente restante fica escurecido, quer dizer tudo é configurado e organizado pra que o foco seja na atividade da aposta e nenhum tipo de estímulo alheio a essa atividade possa intervir ou interromper ou fazer pausas nessa atividade.

Uma das coisas que andou diminuindo um pouco a atividade de jogo ao redor do mundo foi a exigência de que os cassinos também se tornassem ambientes livres do tabaco, ou seja, quem quisesse fumar teria que sair pra fumar fora e ai voltar pra jogar. Notou-se uma diminuição do volume de apostas depois que os cassinos e as casas de aposta foram forçados a observar essa regra.

PORTAL – Um dos argumentos de quem defende a regularização do jogo é que isso facilitaria um maior controle por meio de estatísticas sobre o número de pessoas que têm problema com essa prática a fim de desenvolver um projeto para atender a esse grupo? O que acha?

HT – O lado bom é que finalmente quando se discute a legalização do jogo no país não se faz mais a discussão pautada exclusivamente na questão financeira de arrecadação e de estímulo à atividade econômica.

Acho interessante quando se fala assim. Mas é importante dizer qual porcentagem da arrecadação será guardada para investir em campanha de orientação para familiares e pessoas em risco; para campanhas de prevenção, de rastreio e detecção de pessoas com dificuldades que estejam indo a esses lugares e estejam começando a ter dívidas e prejuízos; além treinamento do profissional de saúde, sobretudo da rede pública, para que saiba identificar e acolher essas pessoas com dificuldade e tratá-las.

Não vai ser barato montar uma estrutura dessas, mas ela vai ser imprescindível quando se pretende avançar nessa discussão da legislação. O único argumento que eu acho pouco aceitável é dizer que, assim, teremos estatística. Desculpa, mas estatística a gente já tem.

PORTAL – O tratamento desenvolvido no Pro-Amjo ele é parecido com o tratamento da dependência química?

HT- Apoiamos os jogadores anônimos, achamos uma iniciativa muito interessante e todos os nossos pacientes são estimulados a complementar o tratamento junto com os doze passos. Já o nosso modelo de tratamento é complementar, porque não faz sentido a gente fazer o que os outros já estão fazendo. Por isso oferecemos um modelo de abordagem médica e psicológica.

O paciente na entrada do tratamento faz uma avaliação do seu perfil psicológico e do seu perfil clínico geral, do seu perfil psiquiátrico. Em cima dessa análise estabelecemos as necessidades do paciente. Esse paciente as vezes tem uma saúde um pouco precária por conta de vários maus hábitos desenvolvidos ao longo do envolvimento com jogo, então vamos tratar concomitantemente pontos como o tabagismo, o sedentarismo, a hipertensão e os triglicerídios. Não adianta nada você tratar o paciente do ponto de vista da sua saúde emocional e depois de alguns anos ele ter um acidente cardiovascular e morrer.

Também cuidamos da parte psiquiátrica, 70 a 75% desses pacientes apresentam dificuldades psiquiátricas associadas como depressão, transtornos ansiosos, fobias, pânicos, ansiedades generalizadas e o abuso de substâncias, questões que se negligenciadas diminuem a eficiência do tratamento.

PORTAL – E como são tratadas as questões específicas da compulsão pelo jogo?

HT – A nossa diretriz é a abstinência das apostas, porém isso não é um requisito indispensável. Se o paciente ainda não tá preparado para isso, continuamos apoiando e tentando promover pelo menos a redução da frequência de apostas.

Encerrada essa primeira fase do tratamento – que pode durar de seis a doze meses – entramos em um período de manutenção, onde se investe na mudança de estilo de vida e na qualidade. Quanto mais oportunidades de realização pessoal, de lazer, de envolvimento positivo com a vida, menor será o risco de recorrência no comportamento do abuso de apostas.   

PORTAL – Quais os outros programas que vocês desenvolvem nessa área?

HT- São dois programas. Um em que pesquisamos uma medicação que diminua a vontade de jogar, e um outro associado à como a atividade física ajuda a pessoa a ter mais alto controle.

PORTAL – Como avalia a rede de tratamentos no Brasil?

HT- Não são muitos os lugares em que o tratamento está disponível. Se você for um jogador compulsivo, você está em dificuldades. Se você for jogador compulsivo em Belo Horizonte, eu não saberia para onde te encaminhar, além de jogadores anônimos. Os jogadores anônimos têm a melhor cobertura, ainda que insuficiente. Está nas principais capitais do país (jogadoresanonimos.org.br).

Nós montamos um site com um programa de suporte à distância para o jogador com dificuldade. Trata-se de um programa interativo, com material, perguntas e respostas. Estamos colhendo as primeiras impressões dos usuários e, em breve, vamos fazer um tipo de pesquisa específica pra verificar a eficácia desse suporte à distância. Quem tiver interesse, pode acessar o trabalho na página da associação ou pode ir direto no site do programa. (Portal EBC – Leandro Melito)

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"Havia clientes que dormiam no bingo, outros ficavam dias lá", relata ex-funcionário de casa de jogos

A última grande discussão envolvendo a questão dos bingos no Brasil ocorreu em 2004, quando Waldomiro Diniz, que era assessor do então chefe da Casa Civil, José Dirceu, apareceu em uma gravação na qual era acusado de extorquir o empresário do setor Carlos Augusto Ramos, conhecido como Carlinhos Cachoeira.

Depois do episódio, o então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva editou uma medida provisória que proibia a exploração de qualquer jogo de azar no país. Sendo assim, as últimas casas de bingo foram fechadas em 2006.

O servidor público Thiago Silva trabalhou em um bingo, na cidade de Águas Lindas (GO), em 2005. À época, os bingos já haviam sido fechados em Brasília, onde ele reside, mas seguiam funcionando na região do entorno do Distrito Federal. “O dono do bingo em que eu trabalhava tinha também outros estabelecimentos em cidades goianas. Ele atendia tanto o público local como, principalmente, pessoas da capital federal”, relata o ex-funcionário.

Relembrando o ambiente de funcionamento do bingo, Thiago considera que grande parcela do público aparentava vício nos jogos. “Era bastante assustador porque a maioria dos clientes demonstrava realmente essa fraqueza do vício. Estavam lá todos os dias e nos contavam de suas vidas pessoais. Lembro de uma juíza federal que ficou afastada do trabalho por motivos psiquiátricos e que não saia do bingo, toda a renda dela – ela já tinha vendido imóvel e carro – era para o jogo”, recorda-se.

Confira entrevista completa com o ex-funcionário de um bingo no estado de Goiás:

PORTAL – Como era o ambiente dos bingos e o comportamento das pessoas nesses espaços?

TS- Tinham muitas pessoas viciadas nos jogos, outras que usavam drogas lá dentro, e nós sabíamos que os clientes já haviam perdido vários bens e que todo dinheiro que conseguiam ficava no bingo. Era perceptível que as pessoas tinha um problema de saúde e não conseguiam se afastar, o que tornava o ambiente muito ruim, insalubre tanto pros funcionários quanto para os clientes. Quanto ao vínculo empregatício, tudo funcionava de forma correta, éramos bem tratados como funcionários e os responsáveis sempre cumpriram a legislação trabalhista.

PORTAL – Como você vê essa recente discussão para a legalização dos jogos no Brasil?

TS- Não encaro com bons olhos. Por ter trabalhado nesse ambiente, por ver de perto o que realmente acontece, não acho que seria bom pra sociedade como um todo. Não sei se arrecadação de impostos seria o mais atrativo para o governo, mas em termos sociais, a grande maioria dos clientes tem problema com o vício, perde seus bens e a vida social.

PORTAL – Por que você deixou o emprego no bingo?

TS- Não aguentava o ambiente. Trabalhava à noite, entrava às 19h e não tinha um horário para sair. Às vezes, seguíamos até as 7 da manhã e os clientes permaneciam lá. Havia clientes que dormiam no bingo, outros ficavam dois, três dias sem sair de lá.

PORTAL – Era normal pessoas ficarem retidas no bingo devido a dívidas?

TS – A frequência não era tão alta, mas ocorria. Tinha as pessoas que tinham de deixar carro, chave do carro, celular, computador, até saldar a dívida. Já a lista de devedores no bingo era sempre grande. (Portal EBC – Leandro Melito)

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Jogos de Azar: "Você nunca vai ganhar. A palavra já diz: é um jogo", diz ex-compulsiva

A discussão sobre a legalização dos jogos de azar no Congresso Nacional levanta a preocupação com a compulsividade pela prática, doença tecnicamente denominada ludopatia. Recuperada há oito anos, após quase 15 de vício, Anna Riccitelli conhece bem essa realidade.

Nascida em uma família de alto poder aquisitivo, ela perdeu tudo no jogo. Começou a jogar aos 35 anos e só conseguiu parar com tratamento. Hoje, aos 59, e com as dívidas quitadas após perder vários de seus bens, ela vê com preocupação os projetos que pretendem legalizar novamente esse tipo de entretenimento no país. "Entrei em depressão, tomava oito remédios por dia e tentei suicídio. Vivi um inferno", recorda-se.

Confira a entrevista completa:

PORTAL – Quando você começou a jogar?

AR – Há uns 20 anos, e o porquê até hoje não sei. Fui por convite de uma conhecida, por curiosidade, comecei a ganhar e obviamente me empolgue. Deixava minha filha na escola e não tinha o que fazer. Aí comecei nas cartelinhas e não gostei, queria mais. Comecei a ir para o computador, com mais adrenalina. De lá, fui parar nas máquinas caça-níqueis e essa foi a minha perdição.

PORTAL – Com o que você trabalhava nessa época?

AR – Eu não trabalhava. Tinha um dinheiro disponível de herança, cuidava da minha filha, vendia algumas roupas ou coisas assim. Não me sentia útil pra sociedade. Foi nesse momento de vazio que comecei a jogar. Junto com o jogo veio a ilusão de que estava ganhando. Mas nunca estava, você joga 100 e perde 500. Perdi carro,  apartamento, minha filha e minha família.

PORTAL – Com que dinheiro você jogava nesse período?

AR – Eu pedia dinheiro para todo mundo. Vendi todas as minhas joias, roubava tudo o que tinha da minha filha. Só não roubei na rua, o restante, dentro de casa, eu fiz. Vendi tudo que eu tinha.

PORTAL – Quanto tempo se passou desde que você começou a jogar até começar a ter problemas com a prática?

AR – Aproximadamente cinco ou seis anos. Isso porque eu tinha dinheiro, fora tudo o que eu vendia. Quando perdi, foi de uma vez, já que ficava 24 horas no jogo. Tinha de pedir para o motorista me trazer sem pagar, eram agiotas me cobrando, humilhações indescritíveis. Entrei em depressão, tomava oito remédios por dia e tentei o suicídio. Minha vida era um inferno. Comecei a ser tratada totalmente como louca. Queriam me internar e ai consegui, com muita dificuldade, chegar a um tratamento. 

PORTAL – Como era o tratamento do Bingo em relação a esse tipo de situação?

AR – Eles te emprestam dinheiro, eles te dão as cartelas, eles colocam dinheiro no caça-níquel, eles te dão lanche, eles te dão café, claro que eles incentivam, você é tratada como uma princesa. Mas a partir do momento que você deu um cheque e o cheque ficou sem fundo, como eu fiz isso, ai eu tive polícia na minha porta, cobradores, querendo me matar, querendo me bater.

PORTAL – Quanto tempo você passava jogando?

AR – Eu não levantava nem pra ir ao toalete. Não comia, eu perdi 20 kg. Eu só fumava e jogava. Somente. E quando eu não tinha mais dinheiro ficava vendo os outros jogarem pra ver se alguém me dava 1 real. Você não quer sair de lá. Você não aceita que perdeu tudo. Então vira a madrugada, vira. Eu cheguei a ficar dois, três dias. De me procurarem com a polícia, achando que eu tava morta.

PORTAL – Como você chegou ao tratamento?

AR – Eu não consigo me lembrar. Eu não queria ir para lugar nenhum, não aceitava que tinha um problema. Mesmo quando cheguei lá, eu não aceitei. Demorei muito para chegar nessa fase. Minha família tentou me internar nesse período. Mesmo em tratamento eu continuava jogando, joguei por muito tempo. Saia do tratamento e ia para o jogo.

PORTAL – Hoje, há quanto tempo você não joga?

AR – Já estou "limpa" [sem jogar] há cerca de oito anos. Não jogo nem na loteria. Segundo aprendi, a adrenalina dos caças-níqueis é a mesma das drogas. Nunca mais tive vontade de jogar, nem pretendo. Até hoje eu tenho pessoas que ainda não me levam a sério. Você fica com o passado sujo. Você precisa conquistar muito pra você voltar sua dignidade e mostrar que aquilo foi um problema que passou.

PORTAL – E quanto tempo você levou para quitar as dívidas do vício, foi um processo demorado?

AR – Eu levei mais de cinco anos. Tive o apoio da minha família, mas precisei vender bens como meu apartamento e me desfazer do meu carro.

PORTAL – Como você vê essa discussão no Congresso Nacional para a legalização dos jogos?

AR – Um completo absurdo. Querem tirar dinheiro das pessoas que são ignorantes, que estão com problemas financeiros. Os aposentados são os que mais frenquentam esse tipo de estabelecimento, com jogos. Uma coisa é certa, você nunca vai ganhar. A palavra já diz: é um jogo. Fico indignada de abrir jogo, porque vai começar o inferno das famílias que sofrem. (Portal EBC – Por Leandro Melito)

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