Depois do protesto no Fla-Flu, organizadas do Flamengo oficializam posição contra a proibição das bets

Apostas I 12.10.26

Por: Magno José

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Oito das principais torcidas rubro-negras assinam documento em que negam motivação político-partidária, reconhecem o problema da ludopatia e afirmam que a MP foi editada de forma “irracional e abrupta”

Um dia depois de transformarem o Fla-Flu em palco de protesto contra a proibição das apostas esportivas, as principais torcidas organizadas do Flamengo formalizaram sua posição. Em nota oficial conjunta, divulgada nas redes sociais e endereçada “aos órgãos competentes”, os grupos manifestaram preocupação com os efeitos da Medida Provisória nº 1.394/2026 sobre o futebol brasileiro e pediram que o tema seja submetido a amplo debate público.

Assinam o documento a Torcida Jovem do Flamengo, Raça Rubro-Negra, Flamanguaça, Império, Falange Rubro-Negra, Urubuzada, Nação 12 e FlaRuts, ou seja, o núcleo das organizadas rubro-negras.

Logo na abertura, os grupos se apresentam como “movimentos populares signatários”, fazendo questão de frisar que não são “apenas torcidas”. Segundo o texto, a decisão de se manifestar veio “depois de muito refletirem sobre o tema”. O alvo é o que chamam de “gol contra que vem se desenhando contra o futebol brasileiro”: a MP editada pelo governo Lula em 25 de setembro, que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa em todo o território nacional e alterou a Lei nº 14.790/2023.

“Não é manifestação político-partidária”

Em plena reta final da eleição presidencial, as organizadas se anteciparam a possíveis leituras eleitorais. A nota afirma que o posicionamento não é político-partidário nem tem a intenção de interferir no resultado das urnas. De acordo com os grupos, a manifestação nasce de um sentimento “legítimo e espontâneo” de preocupação com os rumos do futebol diante da “açodada proibição das BETs no país”.

O cuidado não é por acaso. A proibição das bets foi transformada pelo próprio governo em bandeira da campanha de reeleição, e o tema passou a dividir o eleitorado, inclusive o que frequenta as arquibancadas.

Organizadas do Flamengo alertam: proibição “abrupta” das bets ameaça a base financeira do futebol

15 de 20 clubes da Série A

O principal argumento da nota é econômico. Segundo as organizadas, 15 dos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro mantêm vínculos lícitos com casas de apostas regulamentadas. Citando reportagem do UOL, o texto aponta que as bets respondem por cerca de R$ 1 em cada R$ 3 das receitas comerciais da elite do futebol nacional.

“O que se quer demonstrar é que o arcabouço financeiro do futebol brasileiro, hoje, está umbilicalmente ligado às BETs”, diz o documento.

Os torcedores se antecipam também ao contra-argumento de que o futebol viveu bem antes das casas de apostas. “Sim, o Flamengo, por exemplo, foi campeão do mundo sem elas”, reconhece a nota, para em seguida fazer uma comparação: o homem também viveu um dia sem eletricidade, o que não significa que viveria hoje. “A análise não pode ser reducionista e se resumir a frases de efeito”, conclui o trecho.

Ludopatia reconhecida, forma questionada

As organizadas deixam claro que o documento não é um manifesto de apoio às casas de apostas nem, em tese, contrário à proibição. O que se pretende, segundo o texto, é discutir a forma como o governo decidiu resolver o “problema” (assim, entre aspas, no original).

A nota admite que a ludopatia e outras questões associadas às apostas são relevantes, mas sustenta que não se pode chegar a uma conclusão que exclua os demais aspectos envolvidos, “irracional e abrupta”. Por isso, os grupos pedem que a MP seja submetida a amplo debate público, com a participação das partes envolvidas e das instituições afetadas.

Das arquibancadas às redes

A nota consolida o movimento que ganhou visibilidade nacional no domingo (11), quando torcedores de Flamengo e Fluminense estenderam faixas e entoaram cantos contra a proibição durante o Fla-Flu, transmitido pela TV Globo. Como o BNLData mostrou, o clássico virou um protesto nacional contra a medida.

O posicionamento das organizadas tem peso político próprio. São grupos com capacidade de mobilização e presença constante nos estádios e nas redes sociais, que agora se somam a clubes, entidades do setor e trabalhadores na cobrança por diálogo, algo que, segundo o próprio setor, o governo não promoveu antes de editar a MP.

A mensagem das arquibancadas ao Palácio do Planalto é direta: o combate aos problemas das apostas não pode custar a sustentabilidade financeira do futebol brasileiro, e uma decisão dessa dimensão não pode ser tomada por medida provisória, sem ouvir quem está em campo e quem está nas arquibancadas.

 

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