Assaí atribui alta nas vendas ao fim das bets sem mostrar um número

Apostas I 14.10.26

Por: Magno José

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Belmiro Gomes culpa as apostas pelo desempenho da rede desde 2023. Agora credita à proibição uma melhora que ninguém mediu, e a cifra que repete confunde depósitos com gasto (Divulgação: Assaí Atacadista)

Executivos do Assaí relataram a analistas do BTG Pactual sinais de melhora no consumo neste quarto trimestre, sobretudo no interior e em bairros de menor renda. A informação está na reportagem “Assaí já sente alta das vendas após fim das bets”, publicada por O Globo nesta quarta-feira (14). Participaram do encontro o CEO Belmiro Gomes, o diretor financeiro Rafael Sachete e a gerente de relações com investidores Gabrielle Helu. Na avaliação deles, as restrições às apostas podem estar contribuindo para aliviar o orçamento das famílias.

A rede não divulgou nenhum indicador de vendas, nenhuma comparação com o mesmo período de 2025 e nenhuma metodologia para separar o efeito das apostas de outros fatores. A tese repousa apenas na percepção dos executivos.

Um discurso antigo

Não é a primeira vez que o executivo faz essa ligação. Segundo o próprio Belmiro Gomes, ele atribui às bets o mau desempenho da rede desde 2023. No evento anual da Abras, em abril de 2025, disse ter pesquisas internas que mostravam queda nas vendas de alimentos e troca por marcas mais baratas. Na ocasião, descartou desemprego, renda e endividamento como explicação e resumiu: “Não tem como ter R$ 30 bilhões mensais e não ter impacto em consumo”.

As pesquisas internas nunca foram divulgadas. A cifra, por sua vez, confunde depósitos com gasto. Os dados do Banco Central medem quanto entra nas casas de apostas, e boa parte desse dinheiro volta ao apostador como prêmio. O que o apostador efetivamente perde é o GGR, a receita bruta dos operadores. Pelos dados oficiais da Fazenda, o GGR somou R$ 36,9 bilhões em todo o ano de 2025, cerca de R$ 3 bilhões por mês. É quase dez vezes menos do que o executivo sugeriu.

Em agosto de 2025, o Assaí apresentou um trimestre com vendas abaixo da meta, e as ações caíram 3,8% no dia. Belmiro voltou a responsabilizar as apostas, afirmando que o dinheiro novo das famílias ia antes para as bets do que para os alimentos. O balanço da companhia, porém, atribuiu o resultado à perda de poder de compra e à troca por produtos mais baratos, sem quantificar o peso das apostas.

Agora a lógica se inverteu: o Assaí volta a crescer, e o mérito seria da proibição. Nos dois casos, a empresa não mostrou os números.

O que a própria reportagem admite

O texto de O Globo traz elementos que enfraquecem a tese:

⇒ Tempo insuficiente. O quarto trimestre começou em 1º de outubro, e as plataformas só tiveram de tirar sites e aplicativos do ar em 6 de outubro. Na prática, há cerca de uma semana de “mercado sem bets” para avaliar.

⇒ Base fraca. O terceiro trimestre foi difícil para o varejo alimentar, com troca por produtos mais baratos. Qualquer melhora parte de uma base deprimida.

⇒ Outros fatores. Os analistas do BTG ressalvam que uma recuperação mais forte em 2027 depende do poder de compra e do volume de vendas, e não das apostas.

⇒ Pesquisa de percepção. O levantamento do Sebrae citado no texto mede apenas a percepção dos empresários. O próprio jornal reconhece que ele não permite medir quanto do dinheiro das apostas voltaria ao consumo.

Há ainda um efeito pontual ignorado. A MP obrigou a devolução de cerca de R$ 1,3 bilhão parado nas contas de 26,5 milhões de apostadores. Se houve alguma melhora no caixa das famílias em outubro, parte dela pode vir desse dinheiro devolvido, e não de uma mudança de hábito.

O dinheiro não sumiu

A tese do Assaí pressupõe que o apostador parou de apostar. Os dados de monitoramento do mercado ilegal indicam o contrário. Relatório do sistema LegitBet, compartilhado pela ANJL, mostra que a divulgação de links de sites suspeitos de apostas cresceu cerca de sete vezes depois da MP. Em 8 de outubro, já sem os sites autorizados no ar, surgiram 55 novos sites confirmados como suspeitos. Parte do dinheiro que o varejo espera ver no carrinho pode estar indo para plataformas clandestinas.

A alegação do Assaí recebe o Selo Narrativa do BNLData.

Quando os números servem ao discurso, e não aos fatos
Alegações sem base metodológica e estudos sem comprovação usados contra o setor de apostas recebem o Selo Narrativa do BNLData

 


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