Quaest mostra que proibir as bets é popular, mas não rende votos a Lula

A primeira pesquisa Quaest do segundo turno, divulgada nesta quarta-feira (14), traz um dado que o Palácio do Planalto deve celebrar e outro que deveria preocupá-lo. O primeiro: a proibição dos sites de apostas esportivas e cassinos online foi a proposta com maior índice de aprovação prévia entre as sete testadas. Segundo o levantamento, 64% dos entrevistados disseram conhecer e aprovar a medida, e outros 8% a consideraram boa ideia ao tomar conhecimento dela, somando 72%. O segundo dado é o que importa no dia 25 de outubro: na mesma pesquisa, Flávio Bolsonaro (PL) tem 46% das intenções de voto, contra 44% de Lula (PT).
Há três semanas, o governo apostou que a proibição das bets seria um “plebiscito” capaz de virar a eleição. A Quaest mostra que o eleitor pode aprovar a medida sem votar em quem a editou. A proibição é popular, mas não converte apoio em voto.
Aprovação sobe, voto não acompanha
Na rodada de 28 de setembro, feita em parte antes e em parte depois do anúncio da MP, a restrição às bets tinha 62% de aprovação total. Agora são 72%. São dez pontos a mais de apoio à medida em pouco mais de duas semanas, período em que o tema dominou a propaganda eleitoral do PT. Nesse intervalo, Lula não abriu vantagem. Pelo contrário, chegou ao segundo turno numericamente atrás.
Não é uma leitura isolada do BNLData. Após o primeiro turno, a própria campanha de Lula avaliou, segundo reportagem de O Globo, que a proibição das bets prejudicou o resultado nas urnas. O governo se baseou em pesquisas de rejeição às apostas e ignorou quem seria diretamente afetado: os apostadores recreativos, os clubes de futebol, os torcedores e os trabalhadores do setor. O protesto de Flamengo e Fluminense no Fla-Flu de domingo, transmitido em rede nacional, mostrou que esse eleitorado existe e se manifesta.
Governo segue reprovado
A mesma Quaest registra 48% de desaprovação ao governo e 45% de aprovação. A diferença diminuiu, mas a reprovação ainda supera a aprovação a 11 dias da votação. A medida mais popular do pacote eleitoral não foi suficiente para inverter essa equação.
O que a pergunta não disse ao eleitor
O índice de 72% precisa ser lido com cuidado. A pesquisa perguntou se o entrevistado aprovava a proibição, mas não informou o que ela significa na prática. O eleitor não foi informado de que:
⇒ a regulamentação era o que permitia ao Estado identificar, limitar e proteger o apostador, incluindo ferramentas de autoexclusão e controle de depósitos;
⇒ mesmo após 22 meses de regulação, o mercado ilegal ainda respondia por mais de 40% das apostas, e a proibição tende a empurrar os apostadores para esses sites, sem nenhuma proteção;
⇒ os beneficiários legais da arrecadação, como as áreas de esporte, turismo e segurança pública, perdem recursos;
⇒ milhares de empregos diretos e os patrocínios que sustentam boa parte do futebol brasileiro estão em risco.
Uma pergunta que apresenta apenas a proibição, sem custos, tende a produzir apoio alto. Pesquisas sobre proibição de bebidas alcoólicas ou de cigarros, se formuladas assim, provavelmente mostrariam o mesmo padrão. Popularidade de pergunta não é política pública.
A conta chega depois da eleição
A MP 1.394 ainda depende do Congresso e é questionada no STF em ações relatadas pelo ministro Luiz Fux. Seja qual for o resultado de 25 de outubro, o próximo governo e o próximo Congresso terão de lidar com as consequências: apostadores sem proteção, mercado ilegal fortalecido, arrecadação perdida e um setor que gerava empregos e investimentos operando na incerteza.
A Quaest confirma que proibir é popular. Ela também mostra que isso não bastou para o governo. E não responde à pergunta mais importante: quem protege o apostador brasileiro agora que o Estado saiu de cena?
Metodologia: a Quaest entrevistou 2.154 pessoas com 16 anos ou mais, entre 10 e 13 de outubro de 2026. Margem de erro de dois pontos percentuais, nível de confiança de 95%. Registro no TSE: BR-08729/2026. Contratação: Globo.


