FactCheck: a tese da ABRAS que liga o fim das bets ao consumo

O Estadão publicou nesta terça-feira (27/10) reportagem de Cristiane Barbieri segundo a qual, desde a proibição das bets em 25 de setembro, as famílias passaram a consumir mais arroz, óleo, macarrão e café, com base em estudos da ABRAS. O texto foi repercutido por outros veículos, entre eles o Portal ABC do ABC.
Os números são duas altas semanais do varejo alimentar: 6,5% entre 5 e 11 de outubro e 6,3% entre 12 e 18 de outubro, sempre contra o mesmo período de 2025. Segundo a entidade, eles têm forte relação com a queda de 10% nas transações via Pix após a proibição, que hoje estaria em 7%.
Os dados foram apresentados no mesmo dia pelo presidente da ABRAS, João Galassi, durante a feira Supervendas, em Aracaju. Em entrevista ao Só Sergipe, ele relacionou o crescimento à proibição e disse que a alta coincidiu com a queda do Pix informada pelo Banco Central.
O BNLData checou a origem e a metodologia. A conclusão: os números podem existir, mas não sustentam a relação de causa que a ABRAS e a manchete apresentam.
Onde está a metodologia?
A ABRAS divulgou os números, mas não publicou o estudo. Nenhuma das reportagens indica relatório, PDF ou nota metodológica, e não há link para os dados do Banco Central.
O canal oficial de notícias da entidade também não registrava o levantamento na tarde de 27/10. O texto mais recente da seção Notícias ABRAS era de 6 de outubro, sobre o Consumo nos Lares de agosto.
Esse release de 6/10, publicado 11 dias depois da proibição, não menciona bets, MP ou Pix. A ABRAS atribuía o crescimento do consumo a emprego, renda e menor pressão dos preços dos alimentos, além de abono do PIS/PASEP, Bolsa Família, RPVs e restituição do Imposto de Renda.
Em 2024, o vice-presidente da entidade, Marcio Milan, admitia que não havia números ligando diretamente o consumo mais fraco nos supermercados aos gastos com apostas. Duas semanas de dados, sem metodologia publicada, não preenchem essa lacuna.
Valor ou volume?
Galassi afirmou ao Só Sergipe que o levantamento mede o volume de mercadorias, e não o faturamento. Mas os percentuais seguem exatamente o formato do monitoramento semanal ABRAS/NielsenIQ, cuja série pública mede a variação de vendas em valor, em reais, contra a mesma semana do ano anterior. Sem a metodologia, não dá para saber qual métrica foi usada.
Se for valor, a inflação pesa. Com o IPCA em torno de 4,7% em 12 meses no meio do ano, segundo o próprio painel, uma alta nominal de 6,5% equivale a um crescimento real próximo de 2%. É o mesmo ritmo do Consumo nos Lares de agosto, de 2,69%, antes de qualquer MP. Se for volume, cabe à ABRAS mostrar a série, a base e a amostra.
Há um precedente em 2026: em julho, a Scanntech registrou faturamento em alta de 1,8% e unidades vendidas em queda de 2,1%, puxado pelo preço médio 4% maior.
O texto destaca arroz, óleo, macarrão e café, sem apresentar números por categoria. Dois desses itens estão em queda de preço: no ano, o café torrado e moído caiu 15,27% e o óleo de soja 10,23% na cesta Abrasmercado. Preço em queda estimula compra, com ou sem bets.
O painel não vê as mercearias
A matéria afirma que o crescimento aparece também nas mercearias. O painel NielsenIQ usado pela ABRAS cobre redes com lojas acima de 1.000 m² ou com pelo menos quatro lojas, além dos atacarejos. O pequeno varejo independente fica de fora.
O dado semanal também é de loja total, e não de mesmas lojas. As inaugurações entram no resultado e já chegaram a responder por 68% do crescimento acumulado em 52 semanas.
Alta de 6% é rotina, e a base era fraca
Taxas nessa faixa são comuns na série semanal da ABRAS, muito antes da MP. Em 2025, o varejo alimentar cresceu 5,8% na semana 31 e 8,6% na semana 36. Na semana 14 daquele ano, todas as regiões cresceram dois dígitos, com Sul e MG+ES+Interior do RJ à frente. É o mesmo desenho regional que agora se atribui ao fim das bets.
A comparação também parte de uma base deprimida. Em outubro de 2025, as vendas do varejo alimentar caíram 3,6%, segundo a Scanntech, com menos clientes nas lojas. A própria ABRAS registrou naquele fim de mês o menor crescimento em 30 semanas. Comparar com um mês ruim infla a taxa.
Há ainda o calendário. Em 2026, o feriado de 12 de outubro caiu numa segunda-feira, dentro da semana 12–18/10. Em 2025, caiu num domingo, na semana anterior.
O recorte regional também não ajuda a tese. Na primeira semana, a Grande São Paulo cresceu só 1,2%, e o Nordeste ficou atrás do Sul e de MG/ES.
O dinheiro que voltou para o bolso
A matéria ignora um fato que coincide exatamente com as duas semanas analisadas: a devolução dos saldos das plataformas. Pelo calendário da MP, os sites saíram do ar a partir de 6 de outubro. Quem não resgatou o saldo recebeu o dinheiro pelos bancos entre 9 e 14 de outubro.
O volume não era pequeno. Pouco mais de uma semana após a proibição, 22,9 milhões de apostadores ainda tinham R$ 1,45 bilhão em carteira, segundo o Ministério da Fazenda.
É um efeito de caixa pontual, concentrado justamente nas semanas de 5–11 e 12–18 de outubro. Não é prova de renda redirecionada de forma permanente.
A MP também não veio sozinha. A proibição foi anunciada dentro de um pacote do governo contra o endividamento das famílias. Separar o efeito das bets do resto do pacote exige muito mais do que duas semanas de dados nominais.
O Pix não prova o que dizem
A queda de 10% no Pix valeu para três dias. O Banco Central comparou o sábado (26/9), o domingo (27/9) e a segunda (28/9) com a média dos mesmos dias nas quatro semanas anteriores. As quedas foram de 11%, 12% e 7,4%, respectivamente.
O BC não atribuiu a queda às bets. A cobertura da época registrou que a coincidência de datas não permite concluir causa, e o BC não separa as transações por setor da economia.
A ANJL apontou que, entre 22 e 24 de setembro, antes da proibição, o Pix já estava de 7% a 12% abaixo da referência usada na comparação.
Há também um efeito mecânico. O BC proibiu Pix, boleto e TED em transações destinadas às bets. Depósitos e saques das apostas saíram da estatística por força da regra. Isso não mostra que esse dinheiro foi parar no supermercado.
O número de 7% “hoje”, atribuído pela ABRAS ao Banco Central, não tem fonte pública: a entidade não informa período, base de comparação nem onde o dado foi divulgado.
Quem fala pela ABRAS
A ABRAS não é observadora neutra no tema. A entidade diz que alerta o governo há mais de um ano sobre o efeito das bets no orçamento das famílias. No dia 1º de outubro, chamou a proibição de tardia.
O presidente da entidade, João Galassi, disputou uma vaga de deputado federal por São Paulo em 2026 pelo Republicanos. Teve 13.123 votos e ficou em 18º lugar na chapa, que elegeu seis. O último eleito, Maria Rosas, teve 91.690 votos. Faltaram 78.567 votos para Galassi.
Isso não torna os números do varejo falsos. Mas ajuda o leitor a entender que a entidade, e quem a dirige, têm agenda pública e política sobre o assunto.
O dinheiro dos apostadores não evaporou com a MP
A ABRAS transforma duas semanas de dados, sem metodologia publicada, numa relação de causa que o Banco Central não confirma. A tese ignora a base fraca de 2025, a queda de preços de itens que a própria entidade destaca e a devolução de R$ 1,45 bilhão em saldos nas mesmas semanas. O Estadão e os veículos que repercutiram publicaram a conclusão sem esses contrapontos.
O BNLData procurou nesta terça-feira (27/10) a assessoria de imprensa da ABRAS para saber se a entidade produziu e divulgou o estudo, onde ele está e com que metodologia. O espaço segue aberto.
O dinheiro dos apostadores não evaporou com a MP. Parte voltou ao bolso por força da devolução dos saldos, parte migrou para o mercado ilegal.


