A ABRAS desmente a ABRAS: o consumo crescia mais com as bets no ar

Apostas I 01.11.26

Por: Magno José

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A ABRAS desmente a ABRAS: o consumo crescia mais com as bets no ar
Monitoramento da própria associação mostra alta de 7,9% nas vendas em setembro, com as plataformas operando, e de 7,4% na semana citada como prova do “efeito proibição”; ainda assim, a tese virou peça de campanha às vésperas da audiência no STF

A tese de que o fim das bets colocou “comida na mesa” dos brasileiros ganhou status de verdade oficial em menos de uma semana. O vice-presidente Geraldo Alckmin compartilhou os números nas redes, afirmando que “o dinheiro das bets está voltando para a mesa do brasileiro”. O senador Humberto Costa (PT-PE), vice-presidente do Senado, celebrou o dado como prova de que a proibição redireciona o orçamento das famílias para despesas essenciais. O Correio Braziliense estampou na manchete que o dinheiro das bets eleva as vendas de alimentos, embora o próprio texto admita que ainda não é possível afirmar a real causa do crescimento.

O problema é que os documentos da própria Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS) não sustentam a conclusão.

O ritmo era maior antes

O Monitoramento Semanal NielsenIQ/ABRAS da semana 38 (14 a 20 de setembro) registra alta de 7,9% nas vendas em valor sobre o mesmo período de 2025. O boletim ainda destaca que o varejo alimentar acelerava, ampliando o crescimento pela segunda semana seguida. Naquele momento, as bets autorizadas pela SPA/MF operavam normalmente.

Na semana 41 (5 a 11 de outubro), justamente a usada pela ABRAS para atribuir o resultado à proibição, o mesmo monitoramento aponta 7,4%. Se o fim das bets tivesse liberado bilhões para o carrinho de compras, o esperado seria aceleração, não desaceleração.

O indicador de Consumo nos Lares reforça o quadro: alta real de 2,69% em agosto sobre agosto de 2025, já descontada a inflação, com as plataformas legais funcionando. Em setembro, a alta foi de apenas 0,59%, e a projeção de 3,2% para 2026 foi mantida. Nenhum desses números indica ruptura provocada pela MP 1.394.

O colunista Mauro Cezar Pereira, do UOL, chegou à mesma conclusão a partir dos boletins da entidade, e o IBJR e a ANJL contestaram publicamente a leitura da ABRAS.

A cronologia que a tese ignora

A MP foi publicada em 25 de setembro, quando novos depósitos foram proibidos. O prazo para saques voluntários terminou em 5 de outubro, e os sites saíram do ar no dia 6. A semana medida coincide exatamente com o retorno dos saldos que estavam nas plataformas para as contas dos apostadores, um efeito pontual de devolução de dinheiro, e não de mudança de hábito.

Logo em seguida veio o Dia das Crianças. Em 2026, o 12 de outubro caiu numa segunda-feira, criando feriado prolongado; em 2025, foi num domingo. Comparar as duas semanas sem esse ajuste infla o resultado. Questionada pelo BNLData na coletiva de 29 de outubro, a ABRAS não apresentou controle para nenhum desses fatores, e explicou que a metodologia consiste em comparar com o histórico, já que “a única coisa diferente foi a proibição das bets”.

Não foi. O IBGE registra desemprego no menor nível para um terceiro trimestre, massa de rendimento recorde e alta do rendimento médio. O Bolsa Família teve reajuste. Os preços de alimentos desaceleraram. Tudo isso empurra as vendas para cima, com ou sem bets.

A conta não fecha

Os supermercados faturaram R$ 1,067 trilhão em 2024, cerca de R$ 20 bilhões por semana. Uma alta de 6,5% equivale a mais de R$ 1,3 bilhão em sete dias. O GGR médio das bets reguladas, que é o que efetivamente o apostador perde, girava em torno de R$ 770 milhões por semana. Para a tese da ABRAS se sustentar, todo esse valor e mais um pouco teria de ter migrado integralmente para os supermercados, sem um centavo para as bets ilegais, que seguem operando a pleno vapor.

A queda de 7% a 10% no volume de PIX citada por João Galassi também não prova nada sobre o destino do dinheiro. Ela mede, sobretudo, o fim dos depósitos nas plataformas autorizadas. Quanto desse recurso foi para comida, quanto foi para sites piratas, quanto foi para outros gastos? Ninguém mediu.

Narrativa com data marcada

A tese ganha força num momento preciso: a audiência no STF sobre a proibição está marcada para 3 de novembro, e o vice-presidente da ABRAS, Márcio Milan, já declarou que espera a manutenção da medida. Dados de varejo que não isolam causa e efeito estão sendo usados como argumento de política pública e de pressão sobre o Supremo.

O BNLData pediu esclarecimentos à assessoria da ABRAS sobre a metodologia em 29 de outubro e publicará a resposta assim que recebida.

O próprio levantamento da entidade mostra que o brasileiro já comprava mais antes da MP. Atribuir esse crescimento ao fim das bets não é análise econômica; é narrativa.


Monitoramento Semanal NielsenIQ/ABRAS da semana 38 (14 a 20 de setembro)


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