Bets estrangeiras ignoram proibição de Lula e seguem acessíveis no Brasil

Casas de apostas estrangeiras seguem acessíveis a usuários brasileiros mesmo após a Medida Provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que proibiu o funcionamento de sites de apostas online no país. Pelo menos 17 plataformas internacionais de grande porte operam livremente, sem qualquer bloqueio.
O levantamento é do Estadão, que identificou os sites e simulou cadastros em todos eles, concluindo o processo sem dificuldades. As plataformas pertencem a marcas consolidadas no mercado global de apostas, com patrocínios a times de futebol europeus, atletas e competições internacionais. Nenhuma delas solicitou autorização ao governo brasileiro para operar no país a partir de 2025 e, por isso, ficaram fora do alvo da proibição.
Por não terem sido afetadas pelo bloqueio, as plataformas passaram a ser recomendadas por influenciadores em redes sociais e em grupos do Telegram. Um grupo público com cerca de 30 mil membros direciona apostadores para esses sites e oferece bônus de entrada para novos usuários, prática que também era vedada no mercado regulado.
O Ministério da Fazenda foi consultado pelo Estadão sobre eventuais ações para barrar essas plataformas, mas não respondeu até o fechamento da reportagem.
Sites em português com parcerias locais
As plataformas mapeadas disponibilizam subpáginas em português, oferecem apostas no Campeonato Brasileiro e exploram imagens de atletas com os quais mantêm contratos publicitários, como o ex-jogador de futebol Andrés Iniesta e o ex-jogador de basquete Dennis Rodman. Entre os exemplos identificados estão:
⇒ Melbet, com parceria regional com a Juventus, da Itália, e com a OG Esportes, uma das maiores equipes de esportes eletrônicos do mundo;
⇒ Pin-up, patrocinadora do Sevilla, da Espanha, para a América Latina;
⇒ Linebet, no terceiro ano consecutivo de parceria regional com o Monaco, da França;
⇒ Betika, considerada a maior casa de apostas da África;
⇒ Cloudbet, patrocinadora da Professional Fighters League (PFL), uma das principais franquias de artes marciais mistas do mundo.

A MP e o mercado clandestino
A Medida Provisória foi anunciada por Lula em segunda-feira (25/9), nove dias antes do primeiro turno das eleições. Com ela, os sites antes autorizados pelo governo foram retirados do ar. Quem tenta acessá-los é redirecionado para uma página governamental que informa a proibição.
Antes da MP, o Ministério da Fazenda havia autorizado cerca de 200 sites de apostas, pertencentes a aproximadamente 80 empresas. As exigências para obtenção da licença incluíam sede no Brasil, sócio brasileiro e pagamento de outorga de R$ 30 milhões.
As plataformas estrangeiras identificadas pelo Estadão se somam a milhares de chamadas “bets chinesas”, que formam um mercado paralelo de apostas. Essas operações sempre funcionaram de forma ilegal, mesmo durante a vigência do mercado formal, e não seguem regras básicas de segurança e rastreio financeiro. Permitem cadastros com CPFs aleatórios e, em muitos casos, recebem aportes em empresas abertas em nomes de laranjas.
Empresas que detinham a autorização para funcionar no Brasil afirmam que a MP dobrou o número de bets clandestinas. O monitoramento do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) registra 60,4 mil endereços online ativos nesse mercado paralelo. Parte deles copia a identidade visual de plataformas que operavam de forma regulamentada.


