Escola “formava bicheiros” em BH

Jogo do Bicho I 29.11.02

Por: sync

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Na loja 10 da Galeria Dantés, o segundo andar era a sala de aula da “Escolinha do Bicho”, com carteiras e apostilas que ensinavam a contravenção. No primeiro andar, foram encontradas várias máquinas caça-níqueis.
A Polícia Militar fechou na manhã de ontem uma escola nada convencional que funcionava numa loja localizada na Galeria Dantés, bem na Praça Sete, coração de Belo Horizonte. Em uma sala com 15 metros quadrados, com carteiras para seis alunos, um quadro negro e até apostilas, um banqueiro do jogo do bicho mantinha uma ‘escolinha’ para pessoas interessadas em aprender a trabalhar no apontamento da contravenção.
O fechamento da ‘Escolinha de jogo do bicho’ fez parte de uma operação realizada pela Polícia Militar no Centro de Belo Horizonte, na qual foram apreendidas 40 placas alimentadoras de máquinas caça-níqueis de quatro lojas. Sem essas placas, as máquinas não funcionam. Na ‘escolinha’, a PM prendeu o músico José Maria de Jesus, 45 anos, que alegou não ter nenhuma ligação com a loja de jogo do bicho e de caça-níqueis.
Na documentação apreendida na loja, a PM encontrou o nome de um homem identificado apenas como Paulo César, apontado como sendo o bicheiro responsável pelas máquinas e pela ‘escolinha’. Esse homem foi procurado pela polícia na região central durante a manhã de ontem, mas não foi encontrado.
A operação de combate ao jogo com máquinas de caça-níqueis começou por volta das 9 horas de ontem, quando policiais militares começaram a percorrer lojas localizadas nas proximidades da Praça Sete. Depois de visitar algumas e apreender placas alimentadoras do equipamento, os militares foram para a Galeria Dantés, onde, segundo denúncias, funcionava uma loja de caça-níqueis e uma banca de jogo de bicho. Ao chegarem ao local, os militares encontraram várias máquinas. No andar superior da loja, surpreenderam José Maria de Jesus dentro da sala onde funciona a escola. José Maria disse para os policiais que não tinha nenhuma ligação com o dono da loja e que estava esperando um amigo.
Ao localizarem ‘apostilas’ contendo informações sobre como funciona o jogo do bicho e sobre o comportamento que os futuros apontadores devem ter com relação ao funcionamento das bancas, os militares chegaram à conclusão de que naquela sala, com seis carteiras e um quadro negro, funcionava mesmo uma escola de jogo do bicho, onde o banqueiro, que a polícia supõe possuir dez bancas, formava novos grupos de apontadores para atuarem na contravenção na cidade. As ocorrências sobre as apreensões de máquinas e objetos da escola foram enviadas para a delegacia seccional Centro, onde será instaurado um inquérito policial.
Apostilas ensinam segredos da contravenção
Além de duas apostilas ensinando como jogar no bicho, a PM encontrou na loja 10 da Galeria Dantés, onde funciona a “escola”, documentos dirigidos aos ‘alunos’, contendo recomendações especiais sobre como agir diante da polícia, em caso de uma ‘operação policial’. Segundo essas recomendações, os funcionários devem manter o máximo de discrição, evitar falar nomes de companheiros e principalmente do proprietário, e não fornecer, em hipótese alguma, detalhes sobre o funcionamento das ‘lojas’.
Uma das apostilas contém indicações sobre o regulamento da organização. Em três páginas e com 105 linhas, o regulamento interno da ‘escolinha’ contém detalhes de como os futuros apontadores de jogo do bicho devem se comportar diante de uma série de situações. São orientados, por exemplo, a dar tratamento personalizado para os apostadores, a obedecer horários, a limpar as lojas, a não deixar rádios com volume alto, a andar bem arrumados, bem como economizar luz, água e telefone do estabelecimento.
Outras recomendações estão relacionadas com a proibição da presença de menores nas lojas, atenção especial para a divulgação de resultados corretos do jogo do bicho, cuidado especial para que a arrecadação da banca fique guardada nos cofres e a colocação de resultados do dia em três postes situados nas proximidades de cada loja.
Outra apostila dá uma aula de história sobre o jogo do bicho. Ensina aos futuros apontadores detalhes sobre a centenária prática da contravenção. Mostra ainda maneiras de apostar no jogo do bicho, como é feito o pagamento dos prêmios, relata o crescimento do número de pessoas que ‘fazem uma fezinha’ e “revela” que a grande maioria dessas pessoas é constituída de jovens. Na apostila existe ainda um texto em forma de diálogo entre um apostador que sonhou com um animal e pediu opinião a um apontador sobre se deveria ou não apostar no bicho com o qual sonhou.
A apostila dá também informações sobre valores de prêmios pagos de acordo com as apostas, cotações de dezena, quadras, quinas e senas. Uma lista contendo os nomes de 25 animais e seus respectivos números antecede as explicações sobre as combinações de números para apostas.
Jornal Hoje em Dia (MG) – Gabi Santos

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