Bicho ataca de raspadinha.

Jogo do Bicho I 09.10.03

Por: sync

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O bicho pegou carona na onda da clonagem e copiou um dos maiores sucessos de jogo no Brasil. Numa de suas mais graves crises financeiras, a contravenção apostou suas fichas na raspadinha do bicho. Ilegal. A apresentação do bilhete é mais precária e a venda é feita pelos apontadores em bairros da Zona Sul, como Laranjeiras, Copacabana, Botafogo e Arpoador.
As cartelas custam R$ 1 e o prêmio máximo é de R$ 50. De acordo com alguns bicheiros, a novidade chega a dar mais lucro do que o próprio jogo do bicho em alguns pontos da cidade.
O princípio é o mesmo das raspadinhas legais, vendidas pela Loterj, com uma diferença: enquanto as concorrentes oficiais aplicam parte do dinheiro arrecadado em obras sociais, o destino dos lucros com a raspadinha do bicho alimenta o mundo ilegal.
Ontem, o EXTRA conferiu como é feita a venda das cartelas da raspadinha ilegal. Os apontadores escondem os bilhetes numa pochete e só vendem depois de uma bateria de perguntas. O interrogatório vai desde a forma como o comprador ficou sabendo da existência do jogo até quem indicou o local onde o apontador fica. Só depois de convencer o vendedor de que não oferece riscos ao negócio, o cliente é liberado para tentar a sorte. E, assim mesmo, sob os olhares atentos e desconfiados do vendedor.
Lins fica surpreso
O chefe de Polícia Civil, Álvaro Lins, ficou sabendo da raspadinha do bicho pelo EXTRA. E se surpreendeu.
— Todas as delegacias serão comunicadas a partir de hoje. Os bilhetes apreendidos serão encaminhados para a perícia e, posteriormente, seguirão para a Delegacia Fazendária — disse o chefe de Polícia. — Os pontos onde a raspadinha do bicho é vendida serão mapeados para que o combate seja mais eficaz.
Álvaro Lins disse ainda que quem produzir ou vender raspadinhas ilegais pode pegar de seis meses a dois anos de cadeia:
— Vender loterias sem autorização legal é crime. Somente a Loterj e a Caixa têm permissão no Rio.
Concorrência ilegal revolta diretor da Loterj.
O lançamento de uma raspadinha pirata surpreendeu as autoridades policiais e irritou as instituições autorizadas a vender as cartelas oficiais. O diretor de operações da Loterj, José Joaquim Madeira, ficou revoltado com a concorrência clandestina e disse que exigirá repressão imediata por parte das autoridades a partir de hoje:
— Essa raspadinha é ilegal e, se a polícia não se mexer, vamos mapear os pontos da cidade onde o crime está sendo praticado e enviar para as autoridades. Nossa raspadinha tem fins sociais. Não podemos sofrer concorrência de algo escuso.
“É uma vergonha”
A juíza aposentada e deputada federal Denise Frossard, que há cerca de dez anos colocou 14 contraventores atrás das grades, disse que o jogo do bicho está buscando novas formas de ganhar dinheiro:
— Não podemos cruzar os braços diante de mais um espetáculo protagonizado pelos bicheiros. Acho que o Ministério Público deveria tomar alguma providência. A venda da raspadinha do bicho é uma vergonha.
Parceiro da juíza nas investigações contra os bicheiros, o ex-procurador-geral de Justiça e deputado federal Antônio Carlos Biscaia disse que a culpa do surgimento de mais um jogo proibido é do governo do estado:
— Se o governo não tomar providências, novas formas de crime surgirão do submundo do bicho.
Projeto de lei
Biscaia é autor de um projeto de lei que transforma a prática de jogos ilegais em crime. Hoje, é considerada contravenção.
— Se isso não acontecer, será um estímulo para que novas práticas ilegais surjam — disse o deputado.
O Ministério Público estadual foi procurado pelo EXTRA, mas preferiu não se pronunciar sobre o assunto pois ainda não havia sido comunicado oficialmente da existência da raspadinha ilegal.
Caça-níquel, vans e lucros baixos.
A decadência do jogo do bicho tem obrigado os contraventores a tentar lucros em outras áreas. Desde a condenação da cúpula da contravenção do Rio, em 1993, o jogo acabou perdendo espaço para as loterias legais da Caixa Econômica e da Loterj.
Na década de 80, começou a proliferação das máquinas de caça-níquel, que a princípio eram chamadas de videopôquer.
Sem fiscalização na importação das máquinas, os contraventores passaram a investir no negócio. A jogatina foi disseminada e os prêmios encolheram. Hoje, é comum encontrar máquinas de caça-níquel em bares e lanchonetes por toda a cidade.
A polícia e a Justiça, no entanto, ainda não se entendem sobre a legalidade deste tipo de jogo. Em 2000, o Instituto de Criminalística Carlos Éboli deu um laudo garantindo que a aposta em máquinas de caça-níquel é jogo de azar, porque quem participa não pode influenciar o resultado do jogo. Mesmo assim, com base em liminares, os bicheiros continuam explorando as maquinetas em praticamente todos os bairros da cidade. Na Zona Oeste, dois bicheiros estão em guerra pelo controle do jogo.
Um fato que também tem sido investigado pelo Ministério Público é a ligação de contraventores da Zona Oeste com cooperativas de Kombis: a principal cooperativa da região estaria sendo controlada por seguranças de um contraventor.
A diversificação dos negócios é uma tentativa dos contraventores de superar a decadência do jogo do bicho, que vem se acentuando nos últimos anos. As novas gerações praticamente ignoram o jogo do bicho.
Extra – Marcos Pernambuco (09.10)

Raspadinha do bicho na mira do Ministério Público.
Promotoria e polícia vão investigar modalidade de jogo lançada pelos contraventores cariocas.
O Ministério Público estadual vai acompanhar as investigações da polícia para impedir a comercialização das raspadinhas ilegais lançadas pelos chefões do jogo do bicho. A decisão foi tomada um dia depois de o EXTRA ter denunciado a venda de bilhetes não autorizados na Zona Sul.
Policiais da 9ª DP (Catete) fizeram diligências para apreender raspadinhas do bicho e ouvir apontadores sobre a nova modalidade de jogo, mas não conseguiram encontrar um único bilhete. O delegado Alan Luxardo acredita que os bicheiros tenham tirado as raspadinhas de circulação para atrapalhar a ação da polícia. Ele disse que vai comandar uma investigação para descobrir quais são os principais pontos onde são vendidas as raspadinhas clandestinas e prometeu agir com rigor.
A coordenadora da 1ª Central de Inquéritos do MP, Mônica de Piero, disse que este tipo de crime se enquadra no artigo 51 da lei 9099/95, de contravenções penais:
— A competência para crimes de pequeno potencial ofensivo é dos Juizados Especiais Criminais (Jecrim), mas o MP faz questão de acompanhar de perto as investigações. Não podemos permitir que raspadinhas ilegais continuem sendo vendidas indiscriminadamente.
O delegado titular da 10ª DP (Botafogo), Eduardo Batista, ficou surpreso ao saber da nova faceta dos contraventores e também disse que, a partir de hoje, vai coibir a venda das cartelas de raspadinha do bicho:
— Vamos punir tanto os vendedores quanto os compradores. Mas é preciso saber se a pessoa que comprou sabia que era um bilhete ilegal ou se foi induzida pelo nome “raspadinha”.
Obras assistenciais.
O presidente da Loterj, Rogério Vargas, desconhecia a existência da concorrência clandestina e disse ao EXTRA que nenhuma outra empresa pode usar o nome “raspadinha”. Ele disse ainda que os 13 tipos de raspadinhas da Loterj — que oferecem prêmios diversificados como carros, bicicletas, casas, celulares e dinheiro — destinam parte do dinheiro arrecadado com o jogo para obras sociais em todo estado do Rio:
— Não é só a Loterj que tem prejuízos com a venda das raspadinhas do bicho, a sociedade também perde. Até o fim do ano, destinaremos cerca de R$ 15 milhões para obras assistenciais. Além disso, patrocinamos 17 atletas olímpicos e paraolímpicos.
A Caixa Econômica Federal, que também vende raspadinhas legais, disse que não vai se pronunciar, pois acredita que a venda de cartelas falsificadas não prejudica diretamente sua arrecadação com as loterias.
Extra – Marcos Pernambuco (10.10)

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