A morte do lobby e as dificuldades pela opção dos resorts integrados

A reportagem de Alice Maciel para Agência Pública (agência de jornalismo investigativo independente e sem fins lucrativos) sobre o lobby junto ao Executivo e Legislativo pela opção dos resorts-integrados (IRs) com cassinos, além de esclarecer e revelar os bastidores do apetite do falecido Sheldon Adelson para que o Brasil optasse por este modelo.
A entrevista do secretário de Estado de Turismo de São Paulo, Vinícius Lummertz, também revela que alguns atores políticos mantiveram a defesa pelo modelo do IRs. A justificativa pela “posição estratégica de apoiar a implantação de cassinos em resorts integrados dentro do Estado de São Paulo” é politicamente mais confortável para o representante do turismo, que defender a implantação de todas as modalidades através da legalização do jogo do bicho, bingo, jogo online e caça-níqueis. O editor do BNLData já teve a oportunidade de debater o tema com Lummertz durante painel do BgC, em São Paulo.
Reitero a opinião manifestada na reportagem da Agência Pública sobre o enfraquecimento do lobby pelos IRs. A morte do maior patrocinador do lobby pelo modelo cassinos-resorts, a derrota de Donald Trump a presidência dos Estados Unidos e a saída do presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia não são os únicos motivos.
Um equívoco frequente manifestado pelos defensores desta proposta é acreditar que a implantação de cassinos-resorts vai transformar o turismo do Brasil, a exemplo do que aconteceu em Singapura ou Macau. Estes dois mercados são totalmente dependentes dos jogadores VIPs da Ásia e de junkets. Estes milionários não vão atravessar o mundo para vir jogar no Brasil.
Além disso, depois da pandemia da Covid-19 os principais operadores deste modelo estão reposicionando seus objetivos. O Las Vegas Sands está mais preocupado em manter os investimentos na Ásia, através dos IRs de Singapura e Macau, que são as ‘galinhas dos ovos de ouro’ do grupo. O alongamento da licença do Marina Bay Sands, em Singapura, obrigou o LVS a investir bilhões na ampliação do empreendimento.
As licenças dos IRs de Macau (Sands Macao, Venetian Macao, Sands Cotai Central/Londoner, Parisian Macao) vencem em 2022 e o foco do Sands China é continuar com as portas abertas, garantir os empregos e assumir os prejuízos, para evitar problemas no processo de renovação.
O Grupo Sands tem uma dívida total pendente de US$ 13,82 bilhões, revelada pela Reuters, desistiu de abrir um cassino resort integrado no Japão sem fornecer uma razão para o cancelamento do projeto e ainda colocou a vendas as três joias da coroa nos Estados Unidos: Sands Expo Convention Center, o Venetian Resort Las Vegas e o Palazzo.
A pandemia do coronavírus embaralhou todo o processo de implantação do monopólio do jogo para as grandes corporações norte-americanas. Os atores políticos que estão flertando com o modelo cassinos-resorts deveriam olhar para o que está acontecendo no Japão. Legalizados em dezembro de 2016 e sem previsão de concretização, o país decidiu pela implantação de apenas três resorts integrados (IRs) com cassinos. As grandes operadoras norte-americanas, que patrocinaram o lobby pela opção deste modelo, desistiram de investir na implantação de IRs no Japão.
A história será testemunha que os atores políticos brasileiros, que patrocinam a defesa pelo modelo dos cassinos-resorts, estão sendo cúmplices dos grandes grupos norte-americanos na ‘venda de terreno na lua’ e ajudando na valorização das ações destas companhias nas bolsas de valores.


