A desinformação como política pública: quem ganha com isso?

Apostas, Opinião I 24.07.26

Por: Magno José

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O Ministério da Fazenda possui acesso integral aos dados operacionais do mercado regulamentado. Ainda assim, há pouca atuação pública no sentido de qualificar o debate quando números imprecisos ganham relevância na sociedade

Nos últimos meses, voltou a circular na internet uma série de análises duvidosas sobre o setor de apostas que, sob o verniz de “estudo econômico”, reproduzem premissas frágeis, cálculos inconsistentes e, principalmente, desconhecimento sobre o funcionamento real da indústria regulamentada, ajudando a fundamentar retóricas contra o setor de apostas esportivas e jogos online.

O mais preocupante não é o erro técnico em si, algo corrigível. O problema surge quando esses dados ganham tração pública em um momento sensível de debate regulatório e institucional, influenciando narrativas e decisões com base em premissas equivocadas.

O governo brasileiro, por meio da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda – SPA-MF, possui acesso integral aos dados operacionais do mercado regulamentado. Ainda assim, há pouca atuação pública no sentido de qualificar o debate quando números imprecisos ganham relevância.

Estamos em julho e os últimos dados divulgados pela SPA-MF são relativos ao ano de 2025.

Os números existem, apesar de antigos não são usados

Dados divulgados pelo próprio governo indicam que o Brasil teve 25,2 milhões de apostadores únicos em 2025 e GGR do setor, Gross Gaming Revenue, foi de aproximadamente R$ 37 bilhões no mesmo período.

A partir desses números, a conta direta aponta:

⇒ GGR anual por usuário, aproximadamente R$ 1.468

⇒ GGR mensal médio por usuário, aproximadamente R$ 122

Ou seja:

A média mensal por usuário é equivalente a uma ida ao cinema ou a uma pizzaria.

Mas o dado mais relevante não está na média, está na distribuição.

Para aprofundar essa análise, a coluna teve acesso a dados de uma empresa do segmento, que detalham como o GGR se distribui entre diferentes perfis de usuários.

Giro de Apostas Mensal de uma operadora

% da base de apostadores

Contribuição para o GGR

R$ 0,00 – R$ 499,00

77,17%

6,90%

R$ 500,00 – R$ 4.999,99

16,13%

13,81%

R$ 5.000 – R$ 29.999,99

4,85%

21,93%

R$ 30.000 – R$ 299.999,99

1,61%

27,71%

> R$ 300.000,00

0,24%

29,65%

A desinformação como política pública: quem ganha com isso?

A realidade dos dados: concentração de receita

Segundo essas informações, a distribuição da base ocorre da seguinte forma:

Com base no GGR mensal estimado em aproximadamente R$ 3,08 bilhões, que são os R$ 37 bilhões, informados pelo governo federal, divididos por 12 meses, o BNLData projetou os valores médios por faixa:

R$ 0,00 – R$ 499,00, equivalente a 77,17% da base, logo 19,4 milhões de usuários, contribuíram com R$ 212 milhões por mês, consequentemente um valor médio de gastos de R$ 11 por mês.

R$ 500,00 – R$ 4.999,99, equivalente a 16,13% da base, logo 4,0 milhões de usuários, contribuíram com R$ 425 milhões por mês, consequentemente um valor médio de gastos de R$ 105 por mês.

R$ 5.000 – R$ 29.999,99, equivalente a 4,85% da base, logo 1,2 milhões de usuários, contribuíram com R$ 676 milhões por mês, consequentemente um valor médio de gastos de R$ 552 por mês.

R$ 30.000 – R$ 299.999,99, equivalente a 1,61% da base, logo 406 mil usuários, contribuíram com R$ 854 milhões por mês, consequentemente um valor médio de gastos de R$ 2.100 por mês.

Acima de R$ 300.000, equivalente a 0,24% da base, logo 59 mil usuários, contribuíram com R$ 914 milhões por mês, consequentemente um valor médio de gastos de R$ 15.000 por mês.

Leitura dos dados

A análise indica um padrão claro de concentração, sendo que a maior parte da base apresenta baixo nível de gasto e um grupo extremamente pequeno responde por uma fatia relevante do GGR.

No caso da faixa mais ampla, responsável por 77,17% dos usuários, a perda média estimada gira em torno de R$ 11 por mês. Valor que, na prática, equivale ao consumo cotidiano de baixo valor, como um sanduíche com refrigerante em uma padaria de bairro.

Circulação econômica

Outra interpretação recorrente, a de que o setor teria retirado recursos da economia, também é contestada por agentes de mercado. Segundo essas fontes, os valores movimentados retornam ao ciclo econômico por meio de publicidade e mídia, patrocínios esportivos, eventos e entretenimento, tecnologia e meios de pagamento. O que caracteriza redistribuição de renda dentro da própria economia.

Endividamento e crédito

No que diz respeito ao endividamento, há um ponto técnico relevante. As plataformas regulamentadas não operam com crédito, ou seja, o usuário só pode apostar com saldo previamente disponível.

Especialistas apontam que, nos casos de endividamento, a origem tende a estar associada a produtos financeiros tradicionais, como crédito consignado, rotativo de cartão e antecipações.

Além disso, o Mapa da Inadimplência da Serasa divulgado recentemente derruba a tese que as bets são responsáveis pelo endividamento da população brasileira. Segundo o estudo de 2026, quatro em cada dez brasileiros que estão inadimplentes hoje estavam com nome negativado há uma década. Sendo que as apostas foram legalizadas em 2018 e regulamentadas e 2024. O avanço da inadimplência ao longo da última década reflete uma combinação de fatores econômicos e comportamentais, registra o estudo revelando que o país alcança 81,7 milhões de pessoas em situação de inadimplência.

O papel das instituições

Com um sistema que permite rastreamento completo das operações, o Brasil reúne atualmente condições concretas para um debate público baseado em dados verificáveis. Nesse contexto, a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda – SPA-MF, não é um agente periférico, é a detentora das informações mais completas e precisas sobre o funcionamento do setor.

Ainda assim, na avaliação de fontes ouvidas pelo BNLData, há uma lacuna evidente entre a disponibilidade desses dados e sua utilização no debate público.

Quando números imprecisos ganham espaço e passam a orientar percepções e discussões relevantes, espera-se uma atuação mais ativa do órgão responsável pela regulação. A ausência de posicionamentos técnicos claros, em momentos-chave, acaba contribuindo para a consolidação de narrativas distorcidas.

Especialistas apontam que a SPA-MF possui capacidade técnica para avançar significativamente na qualificação desse debate. O órgão tem condições de informar, por exemplo:

⇒ estimativas de gasto médio por perfil de renda dos apostadores;

⇒ níveis de exposição financeira segmentados por faixa econômica; e

⇒ sobretudo, dados sobre o comportamento de usuários com indícios de endividamento, incluindo o gasto médio desses perfis.

Essas informações permitiriam uma análise muito mais precisa sobre eventuais impactos sociais do setor, substituindo generalizações por evidência empírica.

Em um ambiente onde o próprio Estado detém os dados, o silêncio institucional deixa de ser apenas uma escolha de comunicação e passa a ter impacto direto na qualidade do debate público.

No limite, a leitura feita por especialistas é direta, – o dado existe, a capacidade técnica existe, o que falta é a decisão de mostrar.

Conclusão

Os dados disponíveis indicam:

⇒ baixo gasto médio da maioria dos usuários;

⇒ concentração de receita em uma parcela reduzida;

⇒ forte circulação econômica dos recursos; e

⇒ ausência de crédito dentro das plataformas.

Diante disso, o debate sobre o setor de apostas precisa ser feito com base em evidência, e não em percepções isoladas.

Copa do Mundo

Durante a Copa do Mundo, em meio à intensa desinformação sobre o setor de apostas, surgiu um movimento nas redes sociais defendendo a restrição da publicidade das bets durante as transmissões dos jogos. Nesse contexto, a posição adotada pelo governo federal em favor de novas restrições acaba contribuindo para o fortalecimento do mercado ilegal.

Poucos dias antes, em 19 de junho, o próprio Presidente da República havia assinado um decreto determinando o bloqueio de recursos financeiros de operadores ilegais de apostas, reforçando o combate ao mercado clandestino. Ao mesmo tempo em que endurece as medidas contra a ilegalidade, o governo manifesta apoio a restrições, na contramão desse endurecimento.

Essa aparente falta de coerência gera insegurança regulatória. Em determinados momentos, o governo atua como regulador, incentivando a migração dos consumidores para o mercado legal; em outros, adota posições que acabam enfraquecendo justamente esse mercado. Além da omissão de informações, para a indústria, torna-se difícil compreender qual é, afinal, a diretriz da política pública para o setor.

Falta de transparência

Em resumo, a maioria dos problemas de reputação enfrentados pelo setor de apostas e jogos online pode ser atribuída à falta de transparência dos dados que as plataformas enviam ao Sistema de Gestão de Apostas (SIGAP), da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.

A ausência de informações abre espaço para que entidades, atores sociais e políticos produzam pesquisas e estudos duvidosos com o objetivo de construir narrativas contrárias ao setor. O relatório do Banco Central e os estudos da CNC e da Febraban são alguns exemplos dessas narrativas negativas — que poderiam ser evitadas se o setor contasse com um painel mensal de dados públicos, incluindo GGR, perfil e quantidade de apostadores, tíquete médio, entre outras informações.

Estamos às vésperas de agosto e, até o momento, a única informação oficial disponível sobre o setor é o Panorama Periódico do Mercado Regulado de Apostas de Quota Fixa – Dados de 1º de janeiro a 30 de dezembro de 2025.

Outra “caixa-preta” é o valor arrecadado e a destinação da Taxa de Fiscalização cobrada das plataformas de apostas. Em 2025, foram arrecadados R$ 95.495.581,17 — recursos que poderiam ser investidos no aparelhamento da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, em campanhas institucionais de jogo responsável e no combate às operações de apostas ilegais.

Google e Meta beneficiados

Mas há um ponto mais amplo, que começa a emergir a partir dessa discussão.

Fontes ouvidas pelo BNLData avaliam que parte das críticas recentes pode estar olhando para o problema correto, porém apontando para o alvo errado.

Há, de fato, uma questão relevante de concentração econômica e evasão de divisas no Brasil contemporâneo. Mas ela não está centrada no setor de apostas. Ela está no avanço estrutural da economia digital.

Hoje, grande parte dos investimentos em marketing migrou para plataformas globais, como Google e Meta, concentrando receitas que antes eram distribuídas entre veículos locais, como jornais, TV, rádios e classificados.

O mesmo movimento pode ser observado em outros setores, como entretenimento, varejo e economia criativa, com a substituição de modelos físicos por plataformas digitais globais.

Nesse contexto, especialistas apontam que o Brasil enfrenta um desafio real de transferência de riqueza para fora do país, impulsionado por modelos digitais internacionais.

A leitura predominante entre esses analistas é que, ao concentrar o debate público em setores específicos, corre-se o risco de desviar o foco de um fenômeno estrutural muito mais amplo.

Existe, sim, evasão de divisas

Mas a sua origem pode não estar onde parte do debate público tem sugerido. A partir dessa perspectiva, representantes do governo federal, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, a CNC, e da Federação Brasileira de Bancos, a Febraban, são frequentemente citados por essas fontes como atores centrais em um debate que ainda precisa incorporar com mais profundidade os efeitos da economia digital sobre o país.

A avaliação recorrente é que há uma dificuldade em acompanhar a velocidade dessa transformação, o que pode levar a diagnósticos incompletos e, consequentemente, a políticas públicas desalinhadas com a realidade atual.

No fim, o desafio não está apenas em regular setores específicos, mas compreender como a economia mudou e, sobretudo, em identificar com precisão onde estão, de fato, os fluxos de valor que impactam o país.

 

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