Apostas online: especialistas alertam para disparidade entre crescimento e recursos de saúde nos EUA

Os recursos de saúde pública nos Estados Unidos não acompanham o crescimento acelerado do mercado de apostas online. O alerta vem de especialistas em saúde pública e combate ao vício em jogos, depois que Donald Trump endossou a expansão nacional dos chamados prediction markets (mercados de previsão).
Reportagem do The Guardian revela que plataformas como Kalshi e Polymarket, nas quais usuários apostam em resultados de eventos, desde vencedores do prêmio Tony Award até gols na Copa do Mundo, operam em estados com recursos públicos escassos ou inexistentes para quem desenvolve problemas com jogo. Kalshi promoveu seus serviços de forma agressiva durante as finais da NBA. O logo da Polymarket esteve estampado no octógono das lutas de UFC realizadas na Casa Branca no domingo (15/6).
“Quando se amplia o acesso, a disponibilidade e a normalização disso, haverá mais participação”, disse Timothy Fong, psiquiatra especializado em dependência e pesquisador de problemas com jogo na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). “Com mais participação e engajamento em produtos de risco, haverá mais problemas, mais efeitos colaterais.”
A disputa regulatória
Kalshi, Polymarket e empresas similares rejeitam a classificação como operadoras de jogo, que normalmente são reguladas estado a estado e precisam de aprovação prévia para operar em cada jurisdição. As companhias argumentam que oferecem “derivativos de eventos”, supervisionados em nível federal pela Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos EUA (CFTC, na sigla em inglês).
Esse enquadramento permitiu que os mercados de previsão se instalassem em estados como Utah e Havaí, onde o jogo é historicamente proibido. Mais de uma dezena de ações judiciais em diferentes estados contestam essa interpretação, com reguladores e legisladores defendendo que as plataformas deveriam seguir as leis estaduais de jogos.
O governo Trump tem sido simpático à tese das empresas. No mês passado, o presidente afirmou ser “de extrema importância” que a CFTC mantenha “autoridade exclusiva” sobre os mercados de previsão, em vez de os estados. “É uma grande indústria e precisamos protegê-la”, declarou Trump.
Em nota, a CFTC afirmou que a Lei de Câmbio de Commodities conferiu ao órgão “jurisdição exclusiva para regular swaps, incluindo mercados de previsão, a fim de garantir um arcabouço federal e evitar um mosaico de leis estaduais conflitantes”. O órgão acrescentou que “defenderá essa jurisdição contra estados excessivamente zelosos que tentem contornar a lei federal”.
Lacuna nos recursos públicos
Enquanto as batalhas judiciais nos estados se arrastam e o setor segue em expansão, especialistas alertam que o vício em jogo está crescendo “fora de controle” e que os recursos de saúde pública ficam para trás.
A situação no âmbito federal é direta: não existe linha de financiamento federal dedicada à prevenção ou ao tratamento do vício em jogo. Nos estados onde o jogo permanece ilegal, os recursos públicos também costumam ser limitados ou inexistentes.
Em Utah, estado com algumas das leis antiaposta mais rígidas do país, não há recursos federais nem estaduais destinados ao problema. A linha de apoio do Conselho Nacional sobre Jogo Problemático (NCPG, na sigla em inglês), que funciona com doações, recebeu quase 18 mil ligações de residentes do estado desde 2016. Apenas em maio de 2025, foram 319 chamadas originárias de Utah, o maior total mensal desde 2017. Os números de 2026 ainda não foram divulgados pelo órgão.
Para Fong, o aumento não surpreende, dado o crescimento das apostas online e dos mercados de previsão. Ele ponderou que o número real de pessoas que sofrem com o problema provavelmente é ainda maior. “Muitas pessoas que sofrem algum dano nunca pegam o telefone, nunca fazem uma busca no Google“, disse o pesquisador. “Elas apenas aguentam. Sofrem em silêncio.”
Cole Wogoman, diretor de relações governamentais do NCPG, declarou que a linha de apoio da entidade “só pode oferecer recursos se os recursos existirem” nos estados relevantes. Em Utah, segundo ele, a organização pode orientar sobre planejamento financeiro e indicar grupos de apoio entre pares e serviços de telesaúde, que em geral exigem plano de saúde. Pouco mais que isso.
Fong comparou o descaso com outros vícios; a Califórnia gasta cerca de 9 milhões de dólares por ano para tratar o jogo problemático por meio de seu Departamento de Saúde, enquanto destina centenas de milhões de dólares anuais ao enfrentamento dos danos causados por tabaco e álcool. “A questão maior sempre foi; quem é responsável por ajudar?”, questionou Fong. “Quem é responsável por cuidar das necessidades de quem sofre danos com esses produtos?”
Elliott Rapaport, fundador e CEO da Birches Health, empresa de terapia online para recuperação do vício em jogo que atua em todo o país, afirmou que qualquer atividade que “combine dinheiro, incerteza e risco” pode gerar “comportamentos compulsivos” em alguns usuários. Ele disse que a Birches tem registrado “aumento na procura” de pessoas em estados onde o jogo não é tecnicamente legal. “É muito importante ter a infraestrutura social estadual, porque do contrário as pessoas acabam se machucando”, completou Rapaport.
Debate público e pressão no Congresso
Uma pesquisa recente do NCPG revelou que 45% dos americanos consideram os mercados de previsão comparáveis ao jogo, enquanto 27% os classificam como mais semelhantes a investimentos. A mesma pesquisa indicou que 85% acreditam que os usuários podem desenvolver comportamentos não saudáveis ou viciantes relacionados às plataformas.
Michael C, membro do Gamblers Anonymous cuja região inclui partes de Utah, afirmou que, “mesmo sem jogo legalizado em Utah, isso não significa que as pessoas não estejam jogando”. Ele disse considerar atividades como “day trading e ações” uma forma de jogo “porque não há controle sobre o resultado”.
O NCPG apoia o Points Act, projeto de lei apresentado ao Congresso em março de 2026, que criaria o primeiro mecanismo federal de financiamento para prevenção e tratamento do vício em jogo. “Já passou da hora de o governo federal levar essa dependência a sério”, afirmou Wogoman.


