Bets dispararam mais de mil anúncios e Meta não divulga dados de público em jogos da Copa

As dez maiores casas de apostas online do Brasil dispararam centenas de anúncios no Facebook, no Instagram e em outras redes da Meta durante as semanas que antecederam e acompanharam a Copa do Mundo 2026, mas sem divulgar dados sobre os valores gastos nessas campanhas nem sobre o perfil do público impactado. O levantamento é da BBC News Brasil, com base na Biblioteca de Anúncios da plataforma.
A ausência dessas informações impede a verificação independente de se as campanhas excluem menores de 18 anos, como exige a legislação, ou se se concentram em determinado gênero, faixa etária ou região do país. Entidades como a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) criticam essa falta de transparência e alertam que ela dificulta o monitoramento das bets junto a públicos vulneráveis.
O levantamento compilou anúncios ativos disparados pelas dez maiores bets em volume de apostas entre janeiro de 2025 e 6 de julho de 2026, um dia após a eliminação do Brasil no torneio. Foram contabilizados pelo menos 1.138 anúncios ainda em circulação nessa data, distribuídos no Instagram, no Facebook, no Threads e na Audience Network, rede da Meta que veicula conteúdo em sites e aplicativos externos.
Picos de disparos
Os dados mostram concentração de anúncios no período pré-Copa, com novos picos ao longo das primeiras semanas da competição. Em 8 de junho, três dias antes da abertura oficial, foram registrados 69 anúncios. No dia 11 de junho, data de início da Copa, o número se repetiu. Em 18 de junho, marcando a segunda rodada, o total subiu para 82. O maior pico ocorreu em 3 de julho, com 176 anúncios disparados em um único dia.
Entre as empresas analisadas, a Betnacional liderou em volume, com 492 anúncios ativos em 2026. A Esportes da Sorte ficou em segundo lugar, com 170, seguida da Superbet, com 108. As demais bets pesquisadas foram Betano, Bet365, Sportingbet, 7Games, EstrelaBet, VaideBet e Onabet, todas legalmente autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda.
O setor opera em um mercado de grande porte. Dados do Ministério da Fazenda indicam que a receita bruta das bets legalizadas chegou a R$ 37 bilhões em 2025, ano em que o Brasil se tornou o quinto maior mercado global do segmento, segundo estimativas da consultoria Regulus Partners. Nos primeiros quatro meses de 2026, o faturamento das empresas legalizadas atingiu R$ 12,2 bilhões, conforme a Secretaria de Prêmios e Apostas. O Ministério da Fazenda aponta ainda a existência de ao menos 25 milhões de apostadores cadastrados no país, equivalente a pouco mais de 10% dos cerca de 210 milhões de habitantes.
Vazio de dados
A Biblioteca de Anúncios da Meta divide os registros em dois tipos: anúncios comuns, usados por qualquer anunciante privado, e anúncios classificados como de “temas sociais” ou políticos. Neste segundo grupo, que inclui órgãos públicos, partidos e organizações não-governamentais, a plataforma disponibiliza informações como valor pago, tamanho do público-alvo, número de visualizações e distribuição geográfica por estado. Algumas empresas privadas também optam por essa classificação de forma voluntária, como faz a Heineken em determinadas campanhas. As bets pesquisadas não adotaram essa prática.
Posição das empresas e do governo
As entidades representativas do setor ofereceram respostas distintas à BBC News Brasil. O Instituto Brasileiro do Jogo Responsável (IBJR), que representa três das bets analisadas, declarou por e-mail que não poderia responder pelos anúncios de seus membros, mas que “recomenda aos associados que cumpram a legislação vigente”. A Associação Nacional do Jogo Legal (ANJL) afirmou que a decisão sobre divulgar os dados cabe às próprias empresas e que parte deles seria “estratégicos do negócio”, não podendo ser repassados à concorrência.
A ANJL rebateu ainda a associação entre aumento de publicidade e impactos negativos. “É natural que haja um crescimento, mesmo que acentuado, da publicidade via redes sociais diante da proximidade ou do início da Copa, o maior evento esportivo do mundo”, disse a entidade, acrescentando que “trata-se de um comportamento natural, diante de um previsível aumento de interesse pelas apostas no contexto da Copa do Mundo”. A associação comparou o fenômeno à publicidade de chocolates na Páscoa e de cervejas no Carnaval.
A Esportes da Sorte afirmou, em nota, que os investimentos em mídia digital “seguem o planejamento estratégico anual da companhia, que foi iniciado em janeiro de 2026” e que a verba alocada para essas plataformas “tem se mantido regular ao longo de todo o ano, sem qualquer variação significativa ou intensificação deliberada”. Betano, Betnacional e 7Games não responderam aos questionamentos. A Superbet informou que adotava o mesmo posicionamento da ANJL.
A Meta declarou que anunciantes de jogos de azar precisam comprovar licenciamento nos territórios onde pretendem veicular campanhas, mas não respondeu diretamente sobre a não divulgação dos dados financeiros e demográficos das bets. A Senacon informou que intensificou o monitoramento da publicidade de apostas durante a Copa. O Ministério da Fazenda disse acompanhar o mercado regulado, mas que ainda não consegue estimar se houve aumento no volume de apostas no período; os dados serão divulgados “assim que houver informações consolidadas”.
A disputa em torno da publicidade das bets na Copa também gerou um desdobramento institucional. A Secretaria de Prêmios e Apostas abriu, nesta terça-feira (30/6), processo administrativo contra empresas que veicularam anúncios na CazéTV com dicas de apostas, probabilidades de retorno e recomendações sobre resultados, práticas proibidas pelo Conar. As multas podem chegar a R$ 2 bilhões. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, sinalizou, no final de junho, que o governo estuda obrigar as bets a incluir em sua publicidade alertas de risco similares aos exigidos de fabricantes de tabaco e bebidas alcoólicas.
O Ministério da Saúde classificou o cenário como “um desafio crescente de saúde pública” e informou que, desde março, seu programa de teleatendimento para pessoas com problemas de jogo compulsivo registrou 6.912 cadastros. A pasta não informou se houve aumento na procura pelo serviço durante o período da Copa.


