BNLData aponta erros em comparação de perdas de apostas e isenção de IR

A comparação entre as perdas de brasileiros em apostas esportivas e os ganhos com a isenção do Imposto de Renda, divulgada nesta quinta-feira (20/8) pela coluna de Thais Bilenky no UOL, não resiste a um exame técnico dos conceitos que usa. A análise do BNLData aponta dois erros estruturais na nota: a equiparação entre receita bruta setorial e renda disponível líquida de famílias, e a comparação entre grupos populacionais distintos.
A coluna afirma que as “perdas” de brasileiros com bets em 2025, de R$ 37 bilhões, seriam maiores que o ganho líquido das famílias com a isenção do IR para quem recebe até R$ 5 mil mensais, de R$ 31 bilhões. A conclusão apresentada é que uma política “anularia” a outra. Os números de origem estão corretos, mas o raciocínio que os conecta não fecha.
O que é o GGR
Os R$ 37 bilhões citados pela coluna correspondem ao GGR (Gross Gaming Revenue, ou receita bruta de jogos) do setor. Segundo dados preliminares do Ministério da Fazenda obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI), as bets licenciadas receberam R$ 220,6 bilhões em depósitos ao longo de 2025. Desse total, R$ 183,7 bilhões retornaram aos apostadores em prêmios e bônus sacáveis. A diferença de R$ 36,9 bilhões é o GGR, a receita bruta das operadoras antes de impostos.
GGR é faturamento bruto de um setor econômico, não dinheiro que desaparece da economia. Do total de R$ 36,9 bilhões, uma parcela relevante circula de volta ao Estado e à cadeia produtiva: a contribuição de 12% sobre o GGR, vigente em 2025 e destinada parcialmente a segurança pública, esporte e saúde; os tributos corporativos tradicionais, como IRPJ, CSLL e PIS/Cofins, que somados elevaram a arrecadação federal do setor a cerca de R$ 9,9 bilhões a R$ 10 bilhões no ano; e os custos operacionais das próprias empresas, folha de pagamento, marketing e tecnologia, que também circulam na economia formal.
Comparar esse faturamento bruto setorial com os R$ 31 bilhões que ficariam nas mãos das famílias beneficiadas pela isenção equivale a equiparar dois conceitos econômicos distintos com a mesma unidade de medida. O resultado é uma equivalência artificial.
Populações diferentes
O segundo erro está em quem é afetado por cada política. A isenção de IR alcança todo trabalhador formal com renda de até R$ 5 mil mensais, base que engloba dezenas de milhões de contribuintes. O GGR de R$ 36,9 bilhões, por outro lado, foi gerado por cerca de 25,2 milhões de CPFs que realizaram ao menos uma aposta em 2025, conforme dados da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF). São universos de tamanhos distintos e apenas parcialmente sobrepostos.
A própria coluna cita o pesquisador Lauro Gonzalez, da FGV, reconhecendo esse limite: “Provavelmente tem uma intersecção grande entre quem se beneficia da política pública e quem aposta. Não total, mas tem.” A ressalva é descartada no texto como “irrelevante do ponto de vista macroeconômico”. Para o BNLData, é exatamente essa ressalva que inviabiliza a comparação direta entre os dois totais. Apresentar a diferença entre eles como precisão aritmética, e afirmar que as perdas seriam “20% maiores que o benefício”, confere falsa exatidão a uma comparação que é, no melhor cenário, ilustrativa.
Turnover e o volume real apostado
A coluna usa corretamente a diferença entre depósitos (cash in) e prêmios devolvidos (cash out) para calcular o GGR. Ao não mencionar o conceito de turnover, porém, cria a impressão de que os R$ 220,6 bilhões em depósitos representam o total apostado pelos brasileiros em 2025. Turnover é o volume total apostado, incluindo o rejogo de prêmios e bônus dentro da própria plataforma, sem novo depósito. Por isso, o volume efetivamente apostado é sempre muito maior do que o depositado.
Dados obtidos pelo BNLData junto à SPA/MF via LAI, referentes ao primeiro semestre de 2026, registraram um GGR de R$ 20,07 bilhões no período, o que corresponde a uma taxa de retorno ao apostador (RTP) de 92,2%. O dado não altera o GGR de 2025 discutido na coluna, mas ilustra por que confundir cash in com turnover produz uma leitura distorcida do fluxo financeiro do setor.
O debate sobre endividamento associado às apostas é legítimo e a própria coluna o levanta a partir da fala de Gonzalez sobre o ciclo entre dívida e jogo. O problema está em ancorar esse debate numa conta que não fecha. Um jornalismo de dados rigoroso sobre apostas precisa distinguir, ao menos, cinco conceitos antes de cruzá-los com outras políticas públicas: turnover, GGR, cash in, cash out e saldo em conta do apostador, valores ainda não sacados que não representam nem perda nem ganho realizado. Sem essa distinção, a comparação confunde mais do que esclarece.
BNLData corrige Míriam Leitão sobre mercado de apostas e erros de análise


