Cassino ainda tenta sair da ilegalidade.
No dia 30 de abril de 1946, um mundo de glamour e de fortunas efêmeras ruiu. Nessa data, o presidente Eurico Gaspar Dutra assinou um decreto que proibiu os cassinos no Brasil. O jogo passava, então, para a clandestinidade. Nas décadas seguintes, tramitaram no Congresso pelo menos 100 projetos para a legalização desse tipo de estabelecimento, mas nenhum obteve êxito. Um dos últimos foi do senador Leonel Pavan (PSDB-SC), que apresentou propostas de regulamentação de cassinos e de bingos, mas as retirou há duas semanas. O senador foi prefeito do balneário catarinense de Camboriú, onde há muitos bingos e máquinas de caça-níqueis. Procurado pelo Jornal do Brasil, não deu retorno às ligações. Em 1994, a proposta do ex-deputado José Fortunati (PT-RS) para a legalização dos cassinos chegou perto de ir a plenário no Senado, mas ficou estagnada na Comissão Assuntos Sociais (CAS) por duas legislaturas e acabou sendo arquivada. O senador Édison Lobão (PFL-MA) foi relator, à época, da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que aprovou o projeto. Lobão conta que o projeto de lei veio da Câmara aprovado terminativamente (quando não há votação em plenário), numa compilação de todas propostas anteriores. – Foi aprovado também na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), mas o então senador José Serra, ao lado de Eduardo Suplicy, era contra. O presidente Fernando Henrique também tinha dúvidas quanto à volta dos cassinos – lembra Lobão. O senador condena os bingos que, atualmente, contam com 30 projetos de legalização apenas na Câmara. No entanto, faz muitos planos para os cassinos legalizados. Segundo ele, esses estabelecimentos poderiam gerar cerca de 200 mil empregos e incentivar o turismo. – Hoje, os brasileiros gastam US$ 2 bilhões em apostas no exterior e boa parte desse contingente passaria a jogar no Brasil, único país da América do Sul onde os cassinos não são permitidos. As multinacionais que operam em Las Vegas poderiam vir para cá e empregar brasileiros. Em funcionamento há oito anos, o maior cassino da América Latina, o Conrad, em Punta del Este, no Uruguai, é destino de muitos brasileiros. Na alta temporada, 290 mil pessoas visitam o Conrad, quando circulam U$S 70 milhões pelas roletas, carteados e caça-níqueis. O Conrad paga US$ 5,3 milhões em taxas para o governo. Assim como o gigantismo do cassino uruguaio, os argumentos dos detratores da atividade são igualmente impactantes. Walter Maierovitch, presidente do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone, que estuda a criminalidade transnacional, condena a figura do banqueiro e do explorador do jogo, por temer a infiltração das “máfias empresariais”. – Legalizar os cassinos é admitir a exploração empresarial e as conseqüências da infiltração da criminalidade organizada. O dinheiro de Fausto Pellegrinette, traficante de cocaína colombiana, entrou no Brasil no negócio das máquinas de caça-níqueis. As máfias são multinacionais da delinqüência que atuam em atividades como tráfico de drogas, cassinos legais ou clandestinos, tráfico de armas, exploração de seres humanos. O juiz aposentado ressalta que os cassinos do Uruguai, Panamá, Paraguai e Aruba foram construídos com o dinheiro da Máfia siciliana. – Uma das formas de lavagem de dinheiro é comprar uma ficha de US$ 1 milhão em Las Vegas, colocá-la no bolso e descontar a ficha na bilheteria do cassino de Monte Carlo – finaliza.D. Pedro II jogava. O historiador Milton Teixeira conta que os cassinos chegaram ao Brasil durante o Império e eram freqüentados até pelo imperador D. Pedro II. Passaram para a clandestinidade em 1917, depois de consolidada a República. – O presidente Getúlio Vargas liberou os cassinos em 1934. Segundo o que se comentava à época, o empresário Joaquim Rolla, dono dos cassinos da Urca, Atlântico, Icaraí (Niterói), Quitandinha (Petrópolis), seria o testa-de-ferro de Benjamin Vargas (irmão de Getúlio), o que nunca foi provado. Dizia-se que os cassinos funcionavam como caixa dois de Getúlio – lembra. Segundo Teixeira, os cassinos eram fábricas de sucessos, pois todos os grandes artistas das décadas de 30, 40 e 50 surgiram em seus palcos. – Eles foram fechados porque houve uma reação conservadora da sociedade e da Igreja. Apesar do lobby da bancada do jogo e de alguns empresários, os cassinos nunca mais voltaram à legalidade. Para Walter Maierovitch, os velhos jogadores desses estabelecimentos não foram atraídos pelos bingos, permitidos em 1993 pela Lei Zico. – Em São Paulo, há os chamados cassinos pinga-pinga, explorados pela dupla Noal (notório bicheiro) e Bueno (notório organizador de cassinos móveis). O nome pinga-pinga decorre do fato de permanecerem pouco tempo no mesmo imóvel – explica. Jornal do Brasil – Adriana Freitas


