CEO Yduqs atribui queda em matrículas a apostas, mas dados da própria empresa e arrecadação contradizem

Apostas I 27.08.26

Por: Magno José

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Em reportagem do VALOR, Rossano Marques culpa “bets” por menor procura em cursos na Copa do Mundo de 2026, mas dados de GGR, arrecadação federal e Índice Blask não sustentam tese de desvio de renda para apostas esportivas no mundial

O CEO da Yduqs, Rossano Marques, declarou em teleconferência com analistas e investidores nesta quinta-feira (14/8) que “as bets consomem a renda e atrapalham o ensino superior”, atribuindo às apostas esportivas a menor procura por cursos registrada durante a Copa do Mundo de 2026. A fala, replicada pelo Valor Econômico na reportagem ‘Copa com liberação de apostas em ‘bets’ atrapalhou matrículas no vestibular de inverno’, vincula diretamente a liberação de apostas on-line no período do torneio, realizado entre 11 de junho e 19 de julho, à retração nas matrículas do vestibular de inverno. Os dados do próprio setor contradizem essa narrativa.

O que os números dizem

Segundo dados obtidos pelo BNLData via Lei de Acesso à Informação (LAI) junto à Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF), junho de 2026 registrou o menor GGR (receita bruta) do mercado regulado de apostas de quota fixa em todo o primeiro semestre: R$ 3,34 bilhões. O mês concentrou 19 dias de Copa do Mundo e 72 partidas, mas foi superado por todos os demais meses do período. O pico do semestre ocorreu em janeiro, com R$ 4,29 bilhões, antes de qualquer jogo do torneio ter sido disputado.

O crescimento do GGR no primeiro semestre de 2026 foi de 15,3% sobre o mesmo intervalo de 2025, ritmo moderado que não sustenta a hipótese de um boom de apostas capaz de desviar renda das famílias justamente no período de matrícula. A arrecadação federal reforça essa leitura: a Receita Federal registrou R$ 8,747 bilhões com apostas e jogos de azar entre janeiro e julho de 2026, com trajetória de crescimento consistente ao longo do ano, sem salto concentrado nos meses de junho e julho.

O Índice Blask, levantamento da plataforma de inteligência de mercado para iGaming, aponta crescimento de 13% na demanda por apostas no Brasil nas três primeiras semanas da Copa, comparando o período de 22 de maio a 10 de junho com 11 a 30 de junho. O número fica abaixo do registrado na Alemanha (+34%) e na Argentina (+30%), posicionando o Brasil na faixa intermediária entre os 42 países monitorados, apesar de o país apresentar o maior volume absoluto de demanda da amostra.

A explicação que a própria empresa deu ao mercado

O que torna a fala de Marques ainda mais problemática é o contraste com o documento formal da própria Yduqs. No release de resultados do segundo trimestre de 2026, divulgado em 13 de agosto, um dia antes da teleconferência, a companhia atribui a queda na base de alunos do ensino a distância (EAD) a uma causa distinta e explícita: as restrições do novo marco regulatório do setor, que veda a captação de novos alunos em cursos de Engenharia, Saúde e Licenciaturas na modalidade EAD, somada à migração de estudantes para o formato semipresencial. A base de EAD recuou 6,9% na comparação anual, de 1,092 milhão para 1,016 milhão de alunos; a graduação EAD, especificamente, caiu 18,3%. Estimativas de bancos citadas pelo mercado indicam que a captação de novos alunos em EAD despencou 51% no trimestre. Em nenhum ponto do documento oficial a companhia menciona apostas esportivas como fator.

A Cogna registrou trajetória semelhante: queda de 16,5% na captação no semestre, com a modalidade EAD respondendo por uma retração de 33,9%. O release da empresa aponta as mesmas causas estruturais, o novo marco regulatório e a migração para o semipresencial, cuja base cresceu 13,3%. O CEO da Cogna, Roberto Valério, adotou tom distinto do colega da Yduqs ao comentar o período. Em vez de transformar uma correlação em causalidade, ele reconheceu que a menor procura nos dias de jogo se deveu à atenção dos jovens voltada à Copa, “e não necessariamente porque destinaram renda para as apostas on-line“, e admitiu que “ainda não é possível definir o quanto os estudos estão perdendo para as bets.”

Hipótese não quantificada como afirmação categórica

A diferença de postura entre os dois executivos que descrevem o mesmo fenômeno de mercado expõe o problema central da afirmação verificada. Valério reconhece a ausência de dado que sustente uma conclusão; Marques apresenta como fato uma narrativa causal que seu próprio documento oficial, publicado 24 horas antes, não corrobora.

Os dados da SPA/MF e do Índice Blask não mostram uma explosão de apostas concentrada no período da Copa capaz de sustentar a tese de desvio de renda. A causa verificável da retração nas matrículas do vestibular de inverno de 2026, aquela registrada nos releases formais de Yduqs e Cogna, é regulatória: as restrições à captação de novos alunos em EAD impostas pelo novo marco do setor. A afirmação de que as bets “consomem a renda e atrapalham o ensino superior” como explicação para essa retração é falsa.

 

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