Comsefaz estima ‘perda’ das famílias com bets em R$ 62,5 bi, mas metodologia é falha e ignora dados oficiais da SPA

Apostas I 29.07.26

Por: Magno José

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Comsefaz estima 'perda' das famílias com bets em R$ 62,5 bi, mas metodologia é falha e ignora dados oficiais da SPA-MF
O valor é 69% superior à receita bruta oficialmente declarada pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda para o mesmo ano que foi de R$ 36.9 milhões. Setor medido não é “apostas” e envolve uma categoria ampla de Artes, Cultura, Esporte e Recreação

O número circula em redações, fóruns de política pública e discursos parlamentares: R$ 62,5 bilhões em “perdas” das famílias brasileiras com apostas esportivas em 2025. A cifra saiu do 3º Update do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, elaborado pelo Comsefaz (Comitê Nacional de Secretários de Fazenda) em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, e foi amplamente reproduzida pela imprensa sem a ressalva que os próprios autores do documento registraram: trata-se de uma estimativa de ordem de grandeza, não de uma medição causal precisa. Na verdade, mais um estudo duvidoso agraciado com o Selo Narrativa BNLData.

A diferença entre o que o boletim estima e o que os dados oficiais registram é de 69%. Para o mesmo ano de 2025, a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda – SPA-MF registrou uma receita bruta de R$ 36.959.783.379,70 declarada pelos operadores licenciados. A discrepância revela não apenas uma diferença de escala, mas um problema metodológico de base.

Como o número foi construído

A estimativa do Comsefaz não parte de dados declarados por casas de apostas. Ela é derivada de transferências via Pix de pessoas físicas para pessoas jurídicas classificadas pelo Banco Central na categoria “artes, cultura, esporte e recreação”, uma denominação do sistema Estatísticas de Pagamentos por Atividade Econômica – EPAE, que vai muito além do universo das bets. Academias, clubes esportivos, produtoras de eventos, cinemas e plataformas de streaming integram a mesma classificação da Seção R* das Seções da Classificação Nacional de Atividades Econômicas – CNAE. (confira no final do texto)

O rótulo “artes, cultura, esporte e recreação” no sistema de estatísticas de pagamentos do Banco Central (EPAE) não corresponde exclusivamente a casas de apostas. A categoria abrange também academias, clubes esportivos, produtoras de eventos, cinemas, plataformas de streaming e outros negócios sem qualquer relação com bets. O modelo atribui às apostas todo o crescimento anormal do agregado dessa categoria a partir de 2025 — não isola estatisticamente o componente específico de apostas dentro do setor. Qualquer expansão orgânica de outros segmentos dessa categoria no período (por exemplo, recuperação do setor de eventos e turismo pós-pandemia, ou crescimento do streaming) seria automaticamente contabilizada como “efeito bets”.

O procedimento metodológico descrito nas páginas 38 a 40 do boletim funciona assim: os pesquisadores treinaram um modelo ARIMA com dados até agosto de 2024, antes da entrada em vigor da regulamentação das bets em janeiro de 2025, para projetar qual seria o comportamento “normal” da série de pagamentos nessa categoria. Tudo o que superou essa projeção foi atribuído ao mercado de apostas. O problema é imediato: qualquer expansão orgânica de outros segmentos da mesma categoria no período, como a recuperação do setor de eventos pós-pandemia ou o crescimento do streaming, seria automaticamente contabilizada como “efeito bets”.

Há ainda uma complicação adicional na própria escolha do ponto de corte. Os autores reconhecem que a série já apresenta inflexão a partir de agosto de 2024, meses antes de a regulamentação entrar em vigor, atribuindo esse movimento a empresas que anteciparam adequações às novas regras. Isso significa que o período usado para “treinar” o modelo já pode conter parte do fenômeno que se pretendia isolar, o que tende a inflar artificialmente o efeito medido a partir de janeiro de 2025.

Quatro equívocos que distorcem o debate

A análise da metodologia aponta pelo menos quatro problemas que comprometem a comparabilidade do número com os dados oficiais.

O primeiro é a imprecisão da categoria de dados. A classificação “artes, cultura, esporte e recreação” reúne uma variedade de atividades além das casas de apostas, e o modelo não isola estatisticamente o componente específico de apostas dentro do agregado. Qualquer crescimento em outras frentes do setor infla o número atribuído às bets.

O segundo equívoco está na confusão entre bruto e líquido. O relatório produz duas cifras distintas para 2025: um volume bruto adicional de R$ 350,97 bilhões e uma transferência líquida de R$ 62,5 bilhões, definida como o valor que não retorna aos apostadores em forma de prêmios. A mídia chegou a tratar o valor bruto como se fosse a “perda das famílias”. O número comparável à receita bruta declarada à SPA-MF é o líquido; mas mesmo ele não é diretamente equivalente ao GGR (Gross Gaming Revenue) apurado pelos operadores licenciados.

O terceiro problema é estrutural: comparar um dado regulatório com uma inferência macroeconométrica como se fossem grandezas equivalentes. A receita bruta de R$ 36,96 bilhões reportada pela SPA-MF é um dado administrativo declarado por operadores licenciados, sujeitos a fiscalização e regras contábeis específicas. A cifra de R$ 62,5 bilhões é uma inferência estatística sobre fluxos agregados de pagamento, sujeita à especificação do modelo ARIMA, ao período de treinamento escolhido e à qualidade da série de dados do Banco Central. Misturar as duas sem qualificação equivale a comparar uma medição direta com uma estimativa indireta, ignorando as margens de erro inerentes a cada abordagem.

O quarto equívoco diz respeito à própria afirmação de causalidade. O boletim trata a diferença entre o observado e o contrafactual como uma transferência das famílias para o setor, mas um descolamento estatístico entre séries é, no máximo, uma associação temporal. Para sustentar causalidade seriam necessários dados administrativos das próprias casas de apostas, com entradas e saídas de prêmios, análise de hábitos individuais de consumo ou quase-experimentos que isolassem o efeito da regulamentação de outras variáveis coincidentes no mesmo período.

Lacunas que o boletim não responde

O documento não cita, em nenhum momento, os dados oficiais de arrecadação de 2025 divulgados pela SPA-MF. A ausência é relevante por duas razões. A primeira é que o confronto com os dados oficiais é justamente o que permitiria calibrar a estimativa. A segunda é que a discrepância de 69% entre os dois números é muito superior ao que se poderia atribuir ao mercado ilegal de apostas, cujo tamanho não comporta essa diferença, o que aponta para problemas na própria especificação do modelo.

O boletim também não apresenta testes de sensibilidade que permitiriam ao leitor avaliar a estabilidade do resultado: não há variações da janela de estimação, modelos alternativos, intervalos de confiança ou controles por sazonalidade. Sem essas demonstrações de robustez, não é possível saber se os R$ 62,5 bilhões resistiriam a escolhas metodológicas ligeiramente diferentes.

O problema não é a existência do estudo. Modelos estatísticos indiretos têm valor para compreender fenômenos ainda sem série de dados consolidada. O problema é a circulação do número sem as ressalvas que os próprios autores incluíram no documento, em um momento em que o debate regulatório sobre as apostas esportivas ainda está em curso e estimativas de impacto influenciam diretamente narrativas e decisões institucionais.


(*) A Seção R da CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas) do IBGE Concla é dividida em quatro grandes divisões (códigos 90 a 93):

Divisão 90: Atividades Artísticas, Criativas e de Espetáculos

Artes cênicas e espetáculos: Produção teatral, musical, dança e circo.

Serviços de infraestrutura: Atividades de sonorização e de iluminação para eventos.

Criação artística: Trabalho de artistas plásticos, jornalistas independentes e escritores.

Gestão de espaços: Administração de teatros, salas de espetáculos e centros culturais.

Divisão 91: Atividades Ligadas ao Patrimônio Cultural e Ambiental

Equipamentos culturais: Operação de museus e conservação de locais e prédios históricos.

Acervos e registros: Atividades de bibliotecas e arquivos de documentação.

Preservação ambiental: Operação de jardins botânicos, zoológicos e reservas ecológicas.

Divisão 92: Atividades de Exploração de Jogos de Azar e Apostas

Loterias e apostas: Exploração de jogos de azar autorizados e venda de bilhetes lotéricos.

Casinos e bingos: Operação de jogos de apostas físicas ou virtuais permitidas por lei.

Divisão 93: Atividades Esportivas e de Recreação e Lazer

Clubes e ligas: Gestão de clubes esportivos oficiais ou amadores e federações.

Instalações físicas: Operação de ginásios, estádios, quadras e piscinas.

Lazer e entretenimento: Discotecas, danceterias, parques de diversão e parques temáticos.

 


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