Deputados do PL ‘culpam’ as casas de apostas e pedem a suspensão até a regulamentação

Apostas I 21.06.23

Por: Magno José

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Os deputados Wellington Roberto (PL-PB), Marcelo Álvaro Antônio (PL-MG), Yury do Paredão (PL-CE), Luciano Vieira (PL-RJ) e Mauricio do Vôlei (PL-MG) da CPI-FUTE que culpam as casas de apostas pela manipulação de resultados são do Partido Liberal (PL), o mesmo do presidente Jair Bolsonaro, que se omitiu ao longo de quatro anos em não regulamentar a modalidade a pedido de deputados evangélicos

O comportamento de alguns deputados durante o depoimento do jogador Marcos Vinícius Barreira, o Romário, à CPI-FUTE sobre Manipulação no Futebol serve como indicação de como o parlamento vai se comportar frente as propostas (medida provisória e/ou projeto de lei), que será enviado pelo Executivo para o Congresso Nacional. Tudo indica que haverá resistência da bancada conservadora e evangélica.

O problema é que um grupo de parlamentares tem um entendimento enviesado sobre a questão da manipulação de resultados por um grupo de bandidos para ganhar dinheiro nessas plataformas. Eles estão convencidos que a culpa é das casas de apostas. Pensam exatamente igual aquela velha piada do marido traído que flagrou a esposa fornicando no sofá e tomou a “drástica providência” de vender o sofá.

Curiosamente, os parlamentares da CPI-FUTE que têm o entendimento de que o problema da manipulação de resultados são das casas de apostas são do Partido Liberal (PL), o mesmo do presidente Jair Bolsonaro, que manteve a modalidade na zona cinzenta durante quatro anos ao se omitir em não regulamentar a modalidade a pedido de deputados evangélicos.

Requerimentos dos deputados Wellington Roberto (PL-PB), Marcelo Álvaro Antônio (PL-MG), Luciano Vieira (PL-RJ), Yury do Paredão (PL-CE) e Mauricio do Vôlei (PL-MG) comprova o sentimento de focar nos depoimentos dos representantes das casas de apostas e das carteiras, além dos pedidos de quebra de sigilo dos meios de pagamentos e de alguns representantes de plataformas.

Síndrome do sofá

Ao ser perguntado pelo deputado Yury do Paredão (PL-CE) sobre quais as medidas o jogador acreditava que seriam necessárias para prevenir a corrupção no futebol e proteger a integridade das competições, o jogador Romário disse “Para mim, eu acho que deveria tirar as casas de apostas para jogador. Eu acho que é melhor assim: tirar as casas de aposta”.

O deputado Wellington Roberto (PL-PB) comentou que iria reproduzir em suas redes sociais a afirmação do jogador Romário, que como jogador profissional e que está dentro do futebol, que o maior problema hoje são as casas de apostas.

“É um jogador que está sofrendo na pele e deixou claro que o maior problema hoje são as casas de apostas. Eu vou registrar essa fala sua nas minhas redes sociais, nos meios de comunicação de todo o Brasil, porque o problema está aí, sim. Se não tivessem entrado essas casas de apostas no futebol há 6 anos, nós não estaríamos passando por isso, sentenciou.

O deputado Mauricio do Vôlei (PL-MG) comentou que o culpado não era o jogador, mas as casas de apostas.

“Aqui, o culpado não é você. Você é uma peça nesta investigação que nós estamos fazendo aqui. Mas os verdadeiros culpados são as casas de apostas esportivas. Estas, para mim, são as verdadeiras culpadas, porque, se não existissem, você não passaria por esse constrangimento e estaria jogando futebol, fazendo aquilo que você ama fazer”, comentou.

Apostas em jogos de cassino

Em tom de denúncia o deputado Marcelo Álvaro Antônio (PL-MG) que as plataformas de apostas operam também jogos de cassino.

“Sabemos que a Lei nº 13.756, de 2018, dá amparo às apostas esportivas, embora esteja na zona cinzenta ainda aguardando uma regulamentação. Nós temos vários sites utilizando-se do subterfúgio de apostas esportivas, utilizando-se de atividades ilegais no nosso País, como, por exemplo, o cassino. E é escancarado. Podem acessar o site que está lá: cassino”.

O parlamentar citou a reportagem da Domingo Espetacular da Rede Record contra a Empresa Blaze. Segundo ele, “o proprietário da empresa, o holandês Nick Van Gorsel, zombou da cara do povo brasileiro. Essa empresa se utilizou de vários influenciadores digitais no Brasil, investiu pesado nisso. Existem denúncias, e precisamos apurar, de que esses influenciadores ganhavam dinheiro contratualmente na perda do apostador de cassino. Foram 3 bilhões de acessos a esses sites em 1 ano. Estima-se que 12 bilhões de reais são movimentados por ano por essas empresas. E também, pelo que me parece, é uma informação não confirmada, 70% desse recurso, desse volume de dinheiro movimentado, vem exatamente dos cassinos — atividade ilegal no nosso País. Sabemos que muitas vezes esses sites, como, por exemplo o Blaze, de Nick Van Gorsel, têm sede — sabem onde? — em Curaçao”.

O deputado Danilo Forte (União-CE) sugeriu que seja protocolada ação na Justiça para evitar apostas em jogos de cassino.

“A questão que o ex-Ministro Marcelo traz sobre os cassinos é muito grave. É outra suspensão que esta CPI tem que requerer à Justiça, seja a Justiça do Futebol, seja a Justiça Comum. É para suspender também essa operação, que representa mais de 70% dessas fraudes. Quando eu digo “fraude”, Presidente, é a questão da sonegação. Então, esta CPI tem que mostrar serviço. Vamos agir imediatamente mandando, através de qual Poder for — Judiciário ou Ministério Público —, suspender atividade das apostas do cassino, que representa 70% da receita dessas BETS. Vamos trazer cada proprietário de empresa ou representante de empresa, seja o que for, Diretor ou Presidente, para contribuir com os nossos trabalhos”, sentenciou.

Suspender as casas de apostas no país

O deputado Luciano Vieira (PL-RJ) apresentou sugestão radical de suspender todas as casas de apostas no país até que se resolva o problema da manipulação dos resultados.

“Temos o compromisso de fazer um documento protocolar que suspenda imediatamente não só a questão dos cassinos, mas também de todas as casas de apostas no nosso futebol, até que se resolva esse problema, que suspenda todo e qualquer tipo de aposta. Nós não podemos passar mais uma rodada do Campeonato Brasileiro correndo esse risco que estamos correndo hoje no futebol. Isso é uma realidade. Não tem ninguém inventando nada diferente do que está acontecendo. Estanca-se a sangria, suspendem-se os sites de apostas no País. Aí, vamos investigar, vamos fazer quebra de sigilo bancário, vamos pegar lavagem de dinheiro. E quem é certo, quem está trabalhando direito, vamos regulamentar. Nós temos a responsabilidade, nesta CPI, de, sim, ajudar as empresas que estão trabalhando corretamente. E quem não está, vai pagar essa conta”, sugeriu.

Apostas em condutas individuais

O Deputado Kiko Celeguim (PT-SP) sugeriu a suspensão de apostas que dependam da conduta individual de jogadores de futebol.

“Para mim, o cerne da questão está na oportunidade. Enquanto esta relação de individualizar as apostas, de permitir que o aliciador possa pegar o elo mais fraco da cadeia continuar, a gente vai ter esse tipo de fraude no esporte, de um modo geral. Em vez de esperarmos chegar ao fim da investigação, que nós sugeríssemos à Justiça e às casas de apostas que se cesse já esse tipo de aposta individual, se faça um termo de ajustamento de conduta, para que isso não prejudique o resultado das partidas, para que a oportunidade de aliciar os jogadores que estão no elo mais fraco da cadeia não continue pautando o Campeonato Brasileiro da Série A, Série B ou qualquer outro tipo de competição esportiva, porque isso é um patrimônio da nossa sociedade. Nós temos que sugerir isso rapidamente. Então, eu queria registrar isso”, disse.

O deputado Leur Lomanto Jr. (União-BA) teve o mesmo entendimento e sugeriu um diálogo com as a casas de apostas para exclusão imediata das individualizações de apostas por cartão e pênalti.

“Não sei se é possível, mas num diálogo com os presidentes das associações, das BETs, das casas esportivas, já excluirmos, porque estamos diante do Campeonato Brasileiro, da Série A, Série B, Série C, Série D, de campeonatos regionais. Existe alguma coisa que pode ser efetivamente já colocada dentro dessas casas esportivas, para excluirmos, de imediato, essas individualizações de apostas por cartão, por pênalti, enfim, essas que estão sendo alvos dessas investigações e desta CPI”, comentou.

O vice-presidente da CPI-FUTE, André Figueiredo (PDT-CE) registrou que esteve em uma missão oficial na Federação Francesa de Futebol e registrou que o país tem uma agência nacional de jogos on-line e que as apostas sem ser em resultados foram proibidas.

“Uma das questões que foram proibidas na França foram apostas sem ser em resultados, sejam eles parciais, do primeiro tempo, sejam finais, do jogo como um todo. Todas essas apostas de cartão amarelo, pênalti, laterais e escanteios, a Federação Francesa oficialmente não reconhece e não aposta. E a autoridade tem fiscalizado isso. Eu acho que é um dos produtos que vamos ter que tirar com certeza desta Comissão”, registrou.

Comento

Tenho certeza de que as apostas esportivas só foram aprovadas pelo Congresso Nacional, inclusive pela bancada evangélica e conservadora, devido ao nome utilizado na Medida Provisória nº 846, de 2018, que foi transformada na Lei 13.756/18. A estratégia de adotar o nome como ‘modalidade lotérica de apostas em quota fixa’ foi fundamental para a aprovação.

O problema é que agora os opositores já conhecem o nome e o sobrenome da modalidade aprovada junto com a revisão e aperfeiçoamento da destinação de percentuais para os beneficiários legais e payouts das Loterias Caixa.

 

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