Descrição romântica de Las Vegas.

Cassino I 07.08.03

Por: sync

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Quando Italo Calvino desembarcou na ilha de Manhattan em 9 de novembro de 1959, aos 36 anos, levava na mala a sua trilogia de novelas fantásticas "Os Nossos Antepassados" (Companhia das Letras), um volume de fábulas italianas reescritas por ele no início dos anos 50 e uma idéia mais ou menos abstrata da América. Escrito ao longo dos cinco meses que passou nos EUA, este diário, de que o Mais! apresenta uma seleção, registra o confronto entre esses dois mundos: o imaginado a distância, desde a "Velha Europa", e o vivido nas ruas de Nova York, Chicago, San Francisco, Los Angeles, Las Vegas e algumas cidades do Sul profundo. CHEGADA A NOVA YORK ENTUSIASMOU O AUTOR DE "CIDADES INVISÍVEIS", QUE, NA ÉPOCA COM 36 ANOS, PASSOU CINCO MESES VIAJANDO PELOS EUA E FAZENDO ANOTAÇÕES
A VISÃO MAIS ESPETACULAR DA TERRA

Em Las Vegas se sente que os pioneiros deram forma a esta absurda cidade do deserto

LAS VEGAS
Chego a Las Vegas de avião, tarde da noite de sexta. Na cidade toda feita de hotéis e motéis não há nenhum quarto livre. O feriado de três dias (segunda, 22 de fevereiro, é o Washington’s Birthday) fez com que todos os lugares estivessem reservados com um mês de antecedência, não só por gente de Los Angeles, mas também de todas as partes do país, porque uma temporada na capital do jogo é obrigatória para cada americano, como uma viagem a Meca. […] O jogo segue ininterruptamente, 24 horas por dia e praticamente em todos os lugares, porque cada local público é um cassino e só há locais públicos; e, onde não há roletas ou mesas de bacará, há filas e filas daquelas famosas maquininhas a manivela, do tempo dos pioneiros, sobre as quais há filas de gente agitada e ansiosa, como operários numa fábrica (observação de Piovene que capta perfeitamente a idéia). Como vocês sabem, Nevada é o único Estado em que o jogo de azar é permitido, as prostitutas legalizadas, o divórcio possível após seis semanas de convivência, o casamento possível a qualquer momento, basta você jurar que não é casado. Chego, subo num táxi com um senhor de Washington, empregado da Navy e fanático por shows, e o taxi driver nos leva por todos os motéis, mas em toda a parte se lê o letreiro luminoso No vacancy, e assim ele termina por nos alugar um quarto de sua casa, uma habitação modesta, que divido com o funcionário de Washington, e estou feliz pela rara ocasião de poder ver de perto a vida do americano médio. É uma pessoa séria e comedida, joga pouquíssimo e com prudência, evita sair com garotas que aqui custariam os olhos da cara, mas sua máxima aspiração é ver o maior número de [teatro de] revistas possível, veio de avião justamente para isso, passa praticamente três noites em claro para ver três espetáculos por noite, e sabemos como são chatos os shows tipo Folies Bergères, e de cada lugar manda um programa aos amigos e colegas de escritório para que eles vejam quantas coisas bonitas ele viu. […] Devo dizer que Las Vegas me agrada -gosto de verdade. Nada a ver com as cidades-cassino européias; aliás, completamente diferentes, por sua natureza plebéia, western, nada a ver com lugares como Pigalle. Aqui há uma grande saúde física, uma sociedade produtiva, endinheirada e vulgar, que de fato se diverte coletivamente, entre um avião e outro, e aqui se sente que o pioneiro, o caçador de ouro etc. deram forma a esta absurda cidade do deserto. […] Mais! – Folha de SP

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