Empresários lotéricos cobram Caixa por regulamentação do WhatsApp nas vendas digitais

Lotérica I 10.04.26

Por: Magno José

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Empresários lotéricos cobram Caixa por regulamentação do WhatsApp nas vendas digitais
Painel da BiS SiGMA revelou que 90% das transações ocorrem fora do balcão tradicional em operações que já dependem do aplicativo usado por metade das 13 mil lotéricas do país; setor pede fim da zona cinzenta e oficialização do canal

Empresários do setor lotérico apresentaram dados que revelam transformação no modelo de negócio durante painel realizado na quarta-feira (9/4) no evento BiS SiGMA. O debate reuniu Ricardo Amado, presidente da Febralot, Valdir Marques, da Todos Querem Jogar, Amilton Nobre, da Hebara, Alessandro Montenegro, da Loteria Aldeota, e Marco Taurisano, da Croupier Consultoria.

Os participantes discutiram estratégias de digitalização, diversificação de produtos e aprimoramento da relação com a Caixa Econômica Federal. O painel ‘Lotérica do Futuro: Do Balcão ao Digital — Omnicanalidade e Novos Modelos de Receita’ concentrou-se na urgência de adaptação ao comportamento digital dos consumidores.

Os especialistas concordaram que o modelo tradicional de atendimento presencial, baseado em filas e transações no balcão, não oferece mais sustentabilidade. A rede lotérica enfrenta necessidade de reinvenção para preservar relevância no mercado diante da mudança de hábitos de consumo. Segundo dados da Febralot, o Brasil conta atualmente com cerca de 13 mil lotéricas em operação, distribuídas por todo o território nacional, formando uma das maiores redes de varejo do país.

Números revelam abandono do balcão tradicional

Alessandro Montenegro apresentou dados que dimensionam a transformação em curso no setor. O empresário, conhecido como Rei do Bolão, revelou que nove em cada dez vendas de sua operação ocorrem fora do balcão tradicional.

Ricardo Amado reforçou a tendência ao apresentar números de sua própria operação. Ele revelou que 65% do seu faturamento com bolões já ocorre fora do ambiente físico da lotérica. Os dados evidenciam que o modelo centrado no atendimento presencial perdeu protagonismo.

Amado afirmou que as filas nas lotéricas não retornarão. O presidente da Febralot defendeu que o setor precisa adotar a omnicanalidade, estabelecendo presença nos canais onde o cliente se encontra.

A transformação digital deixou de ser opção estratégica para se tornar requisito de sobrevivência. A integração entre atendimento físico e ferramentas digitais surge como caminho para manter relevância comercial. O setor lotérico movimenta anualmente cerca de R$ 20 bilhões em apostas, segundo estimativas da Caixa Econômica Federal, demonstrando o potencial econômico dessa rede de distribuição.

Empresários cobram oficialização do WhatsApp

A oficialização do WhatsApp como canal de vendas emergiu como demanda prioritária durante o debate. Montenegro destacou que o aplicativo tornou-se ferramenta de sobrevivência para os lotéricos.

Montenegro e Ricardo Amado solicitaram que a Caixa Econômica Federal regularize e oficialize o uso do WhatsApp. A demanda considera que metade da rede já utiliza o aplicativo por necessidade. A realidade mostra que grande parte da rede adotou a ferramenta para manter contato com clientes.

Os painelistas explicaram que os lotéricos enfrentam riscos e burocracias ao utilizar o WhatsApp sem regulamentação oficial. A formalização desse canal permitiria operações mais seguras e estruturadas.

A ausência de regulamentação obriga lotéricos a operarem em zona cinzenta. Os empresários enfrentam burocracia e assumem riscos desnecessários em prática que se tornou questão de sobrevivência comercial. Vale destacar que as lotéricas são responsáveis por gerar aproximadamente 65 mil empregos diretos no país, segundo dados da Febralot, reforçando a importância social e econômica da regularização dessas práticas comerciais.

Críticas à lentidão da Caixa na criação de produtos

Valdir Marques defendeu que falta cumplicidade por parte da Caixa Econômica Federal em relação à rede lotérica. A criação de novos produtos acontece de forma lenta, limitando as possibilidades de diversificação de receita.

Amilton Nobre declarou que, embora o casamento entre Caixa e lotéricos seja de longa data, a rede precisa de novos produtos para expandir suas fontes de faturamento. Nobre e Amado enfatizaram que o portfólio atual é insuficiente para as necessidades do setor.

A dependência de produtos tradicionais e serviços bancários não oferece mais sustentabilidade adequada. A diversificação do catálogo de produtos é fundamental para que os lotéricos possam competir em mercado cada vez mais digitalizado e competitivo.

A Caixa precisa ampliar a oferta de produtos além dos três principais que dominam 85% do mercado, permitindo que o lotérico tenha mais opções para atrair o público e gerar receita. A relação com a Caixa Econômica Federal recebeu críticas adicionais quanto à burocracia estatal.

Montenegro e Taurisano citaram processos lentos da instituição como obstáculo para a inovação e agilidade que o mercado demanda. A Caixa atua mais como reguladora distante do que como parceira efetiva no desenvolvimento do negócio lotérico, dificultando respostas rápidas às transformações do setor. A remuneração média dos lotéricos pela Caixa varia entre 6% e 8% sobre o valor das apostas, percentual que os empresários consideram insuficiente diante dos custos operacionais crescentes e da necessidade de investimentos em digitalização.

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Setor desaprendeu a vender jogos, aponta consultor

Marco Taurisano identificou lacuna crítica no conhecimento da rede sobre vendas de jogos. O consultor da Croupier Consultoria afirmou que o lotérico precisa de treinamento prático sobre gestão e vendas de jogos, indo além de tutoriais básicos.

Taurisano observou que a rede, em muitos casos, desaprendeu a vender o produto principal, que é o jogo. A acomodação pelo sucesso passado dos serviços bancários contribuiu para esse cenário.

O foco em serviços bancários, que garantiu receitas estáveis no passado, acabou desviando a atenção do core business do setor. A retomada do protagonismo dos jogos como produto principal exige requalificação e mudança de mentalidade dos empresários lotéricos. Dados do setor indicam que os serviços bancários chegaram a representar até 70% da receita das lotéricas em períodos anteriores, mas essa participação vem diminuindo gradualmente com a digitalização dos serviços financeiros.

Taurisano criticou a qualidade dos treinamentos atuais. Os programas atuais focam em tutoriais básicos sobre operação de sistemas.

Painel apresenta sete recomendações práticas

O debate resultou em conjunto de sugestões práticas para o setor. A primeira recomendação é a oficialização do WhatsApp pela Caixa, eliminando riscos e burocracias para empresários que já dependem da ferramenta.

A segunda proposta envolve reformulação completa do modelo de treinamento. Os tutoriais técnicos devem ser substituídos por programas de capacitação em gestão de negócios e técnicas de vendas.

A diversificação do portfólio de produtos aparece como terceira ação necessária. A ampliação da oferta pela Caixa permitiria aos lotéricos maior flexibilidade comercial diante da concentração atual em três produtos principais.

A quarta recomendação reforça a adoção omnicanal. A estratégia integra atendimento físico com digital e explora novos espaços comerciais além da dependência do fluxo na loja física.

A proatividade no relacionamento com clientes constitui a quinta sugestão prática. Montenegro citou métodos como ensinar o cliente a jogar, convidar para participação em bolões e realizar pós-jogo com análise e envio de resultados.

A proposta visa transformar a lotérica em centro de entretenimento, não apenas ponto de venda passivo. A estratégia busca criar vínculos que compensem a redução do contato presencial espontâneo. A Febralot estima que o tiquete médio de apostas nas lotéricas brasileiras gira em torno de R$ 15 a R$ 25, valor que pode ser ampliado com estratégias de relacionamento mais próximas e personalizadas com os apostadores.

O fortalecimento do diálogo com a Caixa aparece como sexta recomendação. A Febralot e lideranças do setor devem manter pressão e debate constante com a instituição para alinhar expectativas e reduzir burocracia.

A ação busca garantir que a Caixa atue como parceira real no desenvolvimento do negócio, não apenas como reguladora de processos. O objetivo é construir cumplicidade que os empresários consideram ausente na relação atual.

A sétima sugestão enfatiza foco em gestão de resultados. O empresário lotérico deve tratar a operação como empresa de varejo, monitorando métricas de venda e buscando eficiência operacional.

A recomendação exige saída da zona de conforto e profissionalização da gestão, independentemente das limitações impostas pelo modelo estatal. A sobrevivência do negócio depende de iniciativa do próprio empresário diante das transformações do mercado.

Otimismo cauteloso marca perspectivas do setor

Os painelistas manifestaram otimismo cauteloso quanto ao futuro. Os especialistas acreditam que, com a adaptação correta, a rede lotérica tem potencial para alcançar excelência nos próximos três anos.

O sucesso dependerá de como a Caixa Econômica Federal e os empresários lotéricos conduzirão a transição para modelo mais ágil, digital e focado no entretenimento. A necessidade de adoção da estratégia omnicanal foi consenso entre os participantes.

Montenegro e Amado destacaram que o digital representa questão de sobrevivência, não apenas modernização opcional. Alessandro mencionou que 90% de suas vendas ocorrem fora do balcão, e Ricardo citou 65%.

O painel encerrou com a mensagem de que a inovação não é opção, mas condição para a sobrevivência do setor. A rede lotérica enfrenta mercado cada vez mais competitivo e digitalizado, que exige respostas rápidas e eficientes. Com presença em mais de 5 mil municípios brasileiros, as lotéricas representam importante canal de inclusão financeira e acesso a serviços em regiões onde a presença bancária tradicional é limitada, reforçando a necessidade de modernização sem perder a capilaridade que caracteriza o setor.

 


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