Galípolo aponta o real vilão do endividamento das famílias e não são as bets

Apostas I 25.08.26

Por: Magno José

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Enquanto setores da sociedade insistem em atribuir às apostas esportivas a responsabilidade pelo endividamento das famílias brasileiras, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, passou a manhã desta segunda-feira (24/8), na abertura da Febraban Tech 2026, detalhando as causas reais do problema — e nenhuma delas tem relação com apostas esportivas (Foto: Divulgação)

Na manhã desta segunda-feira (24/8), o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, dedicou boa parte de sua fala na abertura da Febraban Tech 2026 a detalhar, com números, as causas do superendividamento das famílias brasileiras. Cartão de crédito rotativo, consignado privado e linhas sem garantia foram os vetores que ele identificou. Apostas esportivas não foram mencionadas uma única vez.

O contraste é relevante porque, enquanto Galípolo apresentava seu diagnóstico no evento promovido pela Federação Brasileira de Bancos em São Paulo, o debate público insistia em outra direção: a de que as bets seriam responsáveis pelo endividamento crescente dos brasileiros. Os dados apresentados pelo presidente do BC não sustentam essa narrativa.

O tamanho real das bets na economia

O GGR (receita bruta das operadoras) do setor de apostas esportivas somou R$ 37 bilhões em 2025. Diante de um PIB estimado em cerca de R$ 12 trilhões no mesmo ano, as bets representam aproximadamente 0,3% da economia nacional. Para efeito de comparação, o saldo do crédito pessoal não consignado chegou a cerca de R$ 400 bilhões em maio de 2026, valor mais de dez vezes superior ao GGR anual de todo o mercado regulado de apostas.

Há outro dado que enfraquece ainda mais a tese: o apostador brasileiro está gastando menos, não mais. O tíquete médio mensal recuou de R$ 122,00 em 2025 para R$ 108,27 no primeiro semestre de 2026, retração superior a 11%. Se as apostas fossem motor do endividamento crescente, o movimento esperado seria o oposto.

O diagnóstico do BC: crédito caro sem garantia

Galípolo descreveu o que chamou de “paradoxo”: mesmo com renda mais alta e desemprego mais baixo, o endividamento e a inadimplência das famílias seguem batendo recordes. O índice de superendividamento está em 82%, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC). A explicação, para o presidente do BC, está nas linhas de crédito, não no lazer.

Os números apresentados por ele descrevem a escala do problema. São 96 milhões de brasileiros que usam cartão de crédito; desses, 52,8 milhões carregam dívida no rotativo ou em parcelamentos com juros, mais que o dobro da base de apostadores ativos no país. O comprometimento médio da renda das famílias com gastos no cartão saltou de 38,5% para 54%, com juros mensais de 15,1% no rotativo.

No consignado privado, a carteira mais que dobrou: de R$ 41 bilhões em março de 2025 para R$ 102 bilhões em maio de 2026. No crédito pessoal não consignado, a inadimplência avançou de 5% para 6,7% no mesmo período, enquanto a taxa de juros para o público de maior risco subiu de 40,9% para 57% ao ano.

Apostas apenas no Pix

Lembrando que as plataformas de apostas esportivas não aceitam apostas em cartões de crédito, apenas através de Pix. No mercado de apostas esportivas brasileiro, as regras de conformidade e regulamentação (especialmente as diretrizes da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda) proíbem expressamente o uso de cartões de crédito, boletos ou repasses de terceiros como métodos de pagamento.

A principal razão para essa medida é proteger as famílias brasileiras do endividamento. A ideia é evitar que os apostadores usem o limite do cartão de crédito ou outras formas de crédito para financiar suas apostas, o que poderia gerar um ciclo perigoso de dívidas

O consumo que não vira ativo

Galípolo sintetizou o diagnóstico em termos diretos: “O problema é estar endividado com alguma coisa que não está constituindo um ativo, é um consumo efêmero, especialmente com uma taxa de juros mais elevada ou com uma linha de crédito que não é adequada.”

A lógica causal também foi enunciada pelo presidente do BC de forma objetiva: “Se você promoveu, de alguma maneira, uma elevação do crédito, é normal você esperar que o endividamento também cresça.”

A expansão acelerada do crédito ao consumidor, com linhas caras e sem garantia, é o fio condutor do quadro descrito pelo regulador. A oferta crescente de parcelamentos sem juros aparentes, de crédito consignado privado e de rotativo de cartão criou uma estrutura em que o acesso fácil ao crédito precede o comprometimento da renda, não o contrário.

Uma narrativa conveniente, mas sem suporte nos dados

Atribuir às bets a responsabilidade pelo superendividamento das famílias é uma escolha retórica que encontra pouco respaldo nos números. O setor de apostas tem um alvo politicamente visível e desgastado, o que torna a narrativa atraente. Mas os dados disponíveis apontam para outro lugar: o sistema de crédito ao consumidor, com suas linhas de alto custo e baixa ou nenhuma exigência de garantia, é o vetor identificado pelo próprio regulador.

O tíquete médio decrescente dos apostadores e a dimensão ínfima do GGR diante dos saldos de crédito pessoal e consignado tornam difícil sustentar a equação causal. O endividamento cresce onde o crédito cresceu e onde os juros são mais altos. Essa é a conclusão que emerge dos dados apresentados por Galípolo na Febraban Tech 2026, e ela não passa pelas plataformas de apostas.

 

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