Mercados de previsão querem conquistar Wall Street; veja como isso pode mudar os investimentos

A Kalshi, maior mercado de previsão dos Estados Unidos, avança para além das apostas em eleições e jogos esportivos. Grandes instituições de Wall Street e empresas de diferentes setores passaram a usar a plataforma como ferramenta de proteção financeira contra riscos de negócio, movimento que está transformando o setor de derivativos.
Reportagem do The New York Times mostra que a empresa contratou especialistas em negociação e firmou parcerias com instituições financeiras para atrair fundos de hedge, corretoras e outros investidores institucionais. A Kalshi movimentou US$ 17,9 bilhões em volume de negociações em maio de 2026, impulsionada principalmente por apostadores individuais, e captou US$ 1 bilhão em rodada recente, alcançando avaliação de US$ 22 bilhões, o dobro do valor registrado em dezembro do ano anterior.
“Eu acredito que uma nova Wall Street está sendo formada”, afirmou Tarek Mansour, fundador e CEO da Kalshi.
Pequenas empresas como pioneiras
O bar Jeffrey, em Nova York, foi um dos casos concretos de uso da plataforma para hedge. Antes do primeiro jogo das Finais da NBA deste ano, o estabelecimento prometeu pagar a conta de clientes caso o New York Knicks vencesse. Para se proteger, apostou US$ 5 mil na vitória do time. Com o resultado favorável, obteve um retorno de quase US$ 8 mil para cobrir cerca de US$ 9,5 mil em despesas com os clientes. “O hedge na Kalshi funcionou perfeitamente”, declarou Andrew Freedman, advogado corporativo e proprietário do bar.
A Game Point Capital, empresa que gerencia riscos financeiros ligados a bônus em contratos de atletas e treinadores universitários, também adotou a plataforma em 2026. O modelo funciona assim: se a empresa assumir a obrigação de pagar um bônus de US$ 1 milhão a um golfista caso ele vença o U.S. Open, ela faz uma aposta equivalente na Kalshi para compensar esse risco. Segundo Will Hall, fundador e CEO da Game Point Capital, milhões de dólares em operações de hedge já são estruturados pela Kalshi, que frequentemente oferece custos menores e mais flexibilidade do que seguradoras tradicionais organizadas em mercados como o Lloyd’s de Londres.
Interesse institucional em crescimento
A Susquehanna International Group, gigante do mercado financeiro, tornou-se a primeira formadora oficial de mercado da Kalshi em 2024 e desde então atua na promoção dos mercados de previsão para fins institucionais. “Isso pode acabar se tornando um dos maiores negócios derivados dos mercados de previsão”, afirmou Jeremy Maletz, chefe de negociação macro e mercados de previsão da Susquehanna.
Em abril de 2026, a Kalshi concluiu sua primeira operação em bloco, negociação acordada entre duas instituições fora da plataforma pública. A Greenlight Commodities intermediou a transação, com um contrato ligado a créditos de carbono para um fundo de hedge; a Jump Trading Group assumiu a contraparte. Entre os usos potenciais discutidos por executivos do setor estão a proteção contra riscos políticos, como eleições, e a cobertura de oscilações nos preços de chips de memória DRAM ou nos custos de transporte marítimo.
A porta-voz da Kalshi, Elisabeth Diana, informou que o volume institucional negociado na plataforma cresceu 800% desde novembro de 2025. A principal concorrente da empresa, a Polymarket, também busca posicionamento semelhante; vendeu uma participação para a controladora da Bolsa de Valores de Nova York.
Obstáculos regulatórios e limitações técnicas
O avanço enfrenta resistências. Alguns estados americanos contestaram a legalidade dos mercados de previsão em ações judiciais envolvendo contratos relacionados a apostas esportivas. Gary Gensler, ex-presidente da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC), órgão regulador do setor, questionou se a CFTC tem autoridade legal para supervisionar esses contratos. “Apostas esportivas raramente, ou nunca, têm como objetivo hedge”, afirmou Gensler em processo judicial envolvendo a Kalshi e o regulador de jogos de Ohio. A Kalshi e empresas de negociação discordam dessa posição, citando decisões judiciais favoráveis. O presidente Donald Trump também compartilha a visão da empresa; seu filho Donald Trump Jr. atua como conselheiro tanto da Kalshi quanto da Polymarket.
Outro ponto de atenção é a ausência de alavancagem nos contratos tradicionais da plataforma. Ao contrário dos mercados de commodities, em que investidores podem tomar recursos emprestados para controlar posições maiores, os apostadores da Kalshi precisam depositar o valor integral da aposta. Para avançar nessa limitação, a empresa lançou em sábado (29/6) seus primeiros contratos futuros perpétuos, os chamados perps, que permitem apostas alavancadas na alta ou na queda do preço de um ativo sem data de vencimento definida. O acesso foi restringido a investidores com maior capacidade financeira. Desde o lançamento, o volume nocional negociado nos perps alcançou US$ 5,5 bilhões, segundo Mansour.
Por enquanto, os contratos perpétuos estão vinculados apenas a criptomoedas. A empresa, no entanto, espera anunciar em breve novos contratos para uma gama mais ampla de ativos. “A infraestrutura que construímos para os contratos perpétuos permitirá uma expansão significativa daquilo que as instituições poderão proteger por meio da Kalshi”, afirmou Andy Ross, responsável pela divisão institucional da empresa.


