Na terceira tentativa, Lotex é concedida em leilão sem disputa

Depois de duas tentativas frustradas, o governo conseguiu ontem entregará iniciativa privada a concessão dos serviços da Lotex, braço de loterias instantâneas da Caixa Econômica Federal, conhecidas como raspadinhas. O Consórcio Estrela Instantânea, o único a apresentar proposta, levou o contrato de 15 anos com uma oferta de R$ 96,9 milhões pela parcela inicial de outorga, o valor mínimo exigido no edital.
O consórcio vencedor é formado pelas duas maiores empresas do ramo no mundo: a Internacional Game Technology (IGT), sediada em Londres, e controlada pelo grupo italiano DeAgostini, e a Scientific Games Internacional (SGI), dos EUA. As duas têm ações negociadas na americana Nasdaq e terão 50% cada do negócio brasileiro.
Segundo Roberto Quattrini, diretor da IGT no Brasil, as duas empresas controlam hoje 80% das vendas de loterias instantâneas no mundo. Só na Itália, a raspadinha operada pelas duas empresas movimenta o equivalente a R$ 45 bilhões por ano. Em 2018, a IGT faturou US$ 4,8 bilhões, mas teve prejuízo líquido de US$ 86,4 milhões, enquanto a SGI faturou US$ 3,4 bilhões e fechou o ano com perdas de US$ 352,4 milhões, segundo balanços das companhias.
Parcelamento maior
Para tornar o leilão mais atraente, depois das tentativas frustradas por falta de interessados em maio e junho deste ano, foram feitas adaptações no edital. O valor mínimo da outorga foi reduzido de R$ 1 bilhão para R$ 542 milhões. Com o pagamento em oito parcelas anuais corrigidas pela projeção do IPCA — sete de R $103 milhões e o lance inicial de R $96,9 milhões —, o valor total chegará aR $817,9 milhões. No edital anterior, eram quatro parcelas. Além disso, a receita mínima anual exigida dos grupos para poderem participar da concorrência foi reduzida de R$ 1,2 bilhão para R$ 560 milhões.
Wesley Cardia, secretário do Programa de Parcerias de Investimento (PPI) disse que o fato de a Lotex não ter tido interessados em dois leilões anteriores estava “engasgado na garganta” e era uma “pedra no sapato” do programa.
De acordo com projeção do plano de negócios feito pelo BNDES, devem ser arrecadados entre R$ 115 bilhões e R$ 120 bilhões com a raspadinha nos 15 anos de concessão. Desse total, 65% serão pagos em prêmios, 18,3% ficarão com os operadores e 16,7% são repassados ao governo. Quattrini não quis revelar planos de produtos ou investimentos, mas disse que o plano de negócios do BNDES é factível.
Se essa projeção se confirmar, o governo deve receber cerca de R$ 19 bilhões de repasse das empresas, em valores presentes, nos 15 anos de concessão. Após o leilão, realizado ontem na Bolsa de São Paulo, a B3, Alexandre Manoel Angelo, secretário de Planejamento, Energia e Loteria do Ministério da Economia, afirmou que a expectativa é que a raspadinha renda aos cofres públicos de R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões ao ano.
—Desses recursos, 90% serão destinados à segurança pública. Quanto mais as empresas arrecadarem, maior o repasse ao governo. É a abertura desse mercado de loterias à iniciativa privada, quebrando um monopólio de 58 anos, que acontece num momento de retomada da economia —comemorou Angelo.

Novo produto em 2020
A raspadinha federal foi encerrada pela Caixa em 2015, e o máximo que o banco conseguiu arrecadar foi R$ 215 milhões ao ano. A nova raspadinha deve chegar às lotéricas e outros pontos de venda em junho ou julho de 2020, após a homologação do contrato.
No exterior, as duas empresas do consórcio vencedor operam, além da raspadinha física, uma versão virtual, pela internet. O governo espera que a operação privada eleve os pontos de venda dos atuais 13 mil locais para 65 mil, já que o mercado de loterias no Brasil é considerado ainda pouco desenvolvido, bem distante da média mundial.
— O sentimento é de missão cumprida. Acreditamos desde o início no plano de negócios. Mesmo com um participante, o leilão foi um sucesso — afirmou Guilherme da Rocha, chefe do Departamento de Desestatização do BNDES. (Com informações do O Globo – João Sorima Neto)


