O vício é o prêmio

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Caxias do Sul A aura de diversão e adrenalina que envolve as casas de bingo e caça-níqueis oculta um problema social ignorado por muitos: jogadores compulsivos que trocam a família, o trabalho e o patrimônio pelo jogo. Percorrer os estabelecimentos de Caxias do Sul que vendem a sorte por dinheiro é vivenciar de perto sentimentos como euforia, negação e sofrimento.
São histórias como a de uma bordadeira que começou a jogar aos 18 anos, incentivada por amigos, e que só se descobriu viciada aos 23. Ou o drama vivido por uma mãe e filhos, abandonados pelo pai que fugiu para se livrar de dívidas adquiridas em jogos. E o dia-a-dia de um comerciante que admite ter perdido mais de R$ 50 mil nos últimos oito anos, mas que ainda compromete a aposentadoria e bens pessoais para saciar o vício.
Se por um lado há jogadores compulsivos que mergulham num mundo ilusório, de outro estão os especialistas que alertam para uma doença de que pouco se sabe, mas que corrói as relações familiares e o convívio social quando tratada com preconceito. No meio de tudo isso, estão as casas de bingo, que se especializam cada vez mais na arte de atrair clientes.
– Os nomes de jogadores usados na reportagem são fictícios
Para detectar o problema
O que é o jogo compulsivo?
– Existem variadas interpretações a respeito do jogo compulsivo. Um jogador compulsivo é descrito como uma pessoa cujo jogo tenha causado contínuos e crescentes problemas em quaisquer aspectos de sua vida. A definição profissional é a de jogo patológico.
A doença
– As pessoas oprimidas por esta doença criam muitos problemas aparentemente insolúveis. Os problemas financeiros também aparecem, porém, são mais freqüentes os problemas matrimoniais, legais e de emprego.
A aposta
– O jogo compulsivo é uma enfermidade oculta. Para jogadores compulsivos o simples fato de fazer uma aposta é visto como uma solução, muito mais do que a causa de seus problemas.
O dano financeiro
– Das dificuldades criadas pelo jogo compulsivo, o problema monetário é o mais fácil de solucionar.
Como reconhecer se você é um jogador compulsivo?
– Só você pode tomar essa decisão. Deve existir o reconhecimento de que sua vida é ingovernável devido ao jogo.
Religião como saída
A bordadeira Carla, 29 anos, ainda lembra dos detalhes de uma tarde quente em que entrou numa casa de bingo e mergulhou em intermináveis partidas em busca de prêmios e emoções. Eram 14h. Na bolsa, dinheiro para o pagamento de contas. Na mente, o incontrolável desejo pelo jogo. Fisgada pelo clima do ambiente fechado e repleto de fumaça de cigarro, Carla entrou em transe. Ganhou algumas partidas, mas perdeu tudo. Quando saiu do bingo percebeu que já eram 4h. Estava sem dinheiro, com fome e com todas as contas para pagar e o reconhecimento que precisava de ajuda. Começava ali uma longa e dolorosa jornada para acabar com o vício que mantinha desde os 18 anos.
– Me sentia muito mal. Não tinha noção do que estava fazendo. Gastava dinheiro que era para pagar a luz, a água, o mercado… Acabei sujando meu nome na praça e arrumando brigas em casa – conta Carla.
O apoio partiu do marido e da família. Apegou-se à religião evangélica. Para preencher o vazio que ficou, começou a bordar roupas. Por muitos meses, a jovem evitou passar em frente aos bingos, porque sentia falta das apostas. Mas resistiu e hoje já não sente necessidade de jogar.
– No começo todo mundo dizia que era bom jogar. Até ganhei bastante dinheiro. Infelizmente, quanto mais se ganha mais se quer, e é aí que se perde tudo – alerta a bordadeira.
Sucessão de empréstimos
O comerciante Antenor, 56 anos, é casado e pai de quatro filhos. No início da década de 1990, era proprietário de um depósito de vinhos em Caxias do Sul. Tinha uma bela caminhonete e uma renda que garantia conforto e estabilidade para a família. Em 1997, ingressou no mundo dos jogos. Virou um viciado. Começou ali uma fase destrutiva que resultou em prejuízos que ultrapassam R$ 50 mil em oito anos de apostas.
No início, o comerciante gastava apenas o dinheiro que arrecadava na empresa. Mas era pouco para saciar o apetite voraz pelo jogo. Então, pegou empréstimos. Não conseguiu saldar a dívida com os bancos e vendeu a caminhonete. Em poucos meses perdeu o depósito de vinho. Há seis anos, aposentou-se com um salário de R$ 1,5 mil, mas não se aposentou dos jogos. As dificuldades financeiras se transformaram em brigas constantes com a mulher e filhos.
Recebeu um ultimato e, ao mesmo tempo, apoio dos familiares para abrir uma lancheria (que tem até hoje). Prometeu que iria parar com os jogos, mas não consegue porque sente falta da adrenalina e do prazer de apostar. Há três semanas, a mulher dele viajou, e Antenor aproveitou para pegar emprestado R$ 5 mil em uma financeira. Gastou todo o dinheiro em quatro dias no bingo. A dívida desse último empréstimo está sendo paga em intermináveis parcelas de R$ 300, descontadas diretamente de sua aposentadoria.
– Minha mulher não imagina que peguei esse empréstimo. Não consigo parar. Sei que o jogo é ilusão, mas sou viciado mesmo. Pelo menos ainda não estou deixando faltar dinheiro em casa. Gostaria de parar, mas não sei como – desabafa.
Estratégia para atrair público
O apelo visual e de estrutura proporcionado pelas casas de bingo é uma isca para o vício. Os jogadores, impulsionados pela simples diversão ou pelo comportamento compulsivo, lotam os estabelecimentos, que por sua vez usam artifícios como cortesias – café, água, refrigerante, bebida alcoólica, chocolates e outros artigos de caráter estimulante -, ambientes privativos, grandes somas em dinheiro e outros prêmios para fisgar os freqüentadores. Outro fator atraente é a possibilidade de se pagar os jogos à prazo.
Algumas casas mantêm cadastros de clientes que negociam cartelas com cheques pré-datados. Se você é cliente novo, pode pagar em até 10 dias o valor máximo de R$ 100. Se honrar o primeiro pagamento, o prazo é ampliado em 30 dias e o valor de apostas sobe para R$ 200.
Jogadores que acertam o prêmio principal de cada partida também são estimulados a retornar no dia seguinte, já que recebem cartelas grátis.
Dilema familiar
Por um ano, uma dona de casa viveu à sombra de uma dúvida cruel: o caminhoneiro, pai de seus dois filhos, estaria vivo ou morto? O dilema se iniciou em junho de 2002, quando o marido desapareceu após uma das diversas viagens de caminhão que fazia para fora do Rio Grande do Sul. Na época, embora não admitisse à família, o caminhoneiro já era viciado em jogos. O caminhão, pertencente a uma transportadora, foi encontrado abandonado no interior de Santa Catarina.
Temendo o pior, a família procurou a polícia, espalhou cartazes e fez buscas. Tudo em vão.
– Pensávamos que ele poderia ter sido morto ou seqüestrado por assaltantes. Daí começamos a receber telefonemas anônimos dizendo que ele estava vivo. Alguns colegas de profissão diziam ter visto ele em outras cidades – lembra a dona de casa.
A verdade veio à tona um ano depois, quando o caminhoneiro reapareceu na região de Criciúma (SC). Para a família, ele disse ter sido assaltado. Mas colegas de profissão contaram que o homem havia contraído dívidas em casas de jogos eletrônicos durante as viagens. Foi espancado pelos credores e precisou se esconder. O período em que ficou desaparecido, a mulher teve que improvisar para sustentar os filhos. O casamento terminou.
– Eu sempre dizia que ele iria trocar a família pelo jogos, mas ele nunca admitiu que precisava de ajuda. Ficamos abalados financeiramente, mas o pior que poderia ter acontecido foi a desestruturação de nossa família – resigna-se a dona de casa.
Três perfis de apostadores
Especialistas alertam que o jogo se transformou em uma epidemia que envolve três grupos. O primeiro e mais perigoso reúne pessoas que procuram diariamente as casas de bingo pelo prazer e emoção proporcionado pelas partidas (semelhante ao vício em drogas).
O segundo, forjado a partir de questões sociais, envolve jogadores que se apegam à sorte para resolver problemas financeiros e se afundam cada vez mais em dívidas. Freqüentadores esporádicos seriam os integrantes do terceiro grupo que buscam nas partidas apenas uma forma de distração.
Nem todas as pessoas são propensas ao vício, mas é preciso uma atenção especial às que procuram o bingo como uma alternativa de renda, pois em pouco tempo podem se render ao jogo. Para o psiquiatra Leonardo Prates de Lima, algumas pessoas mostram uma tendência mais acentuada em relação aos outros.
– O jogador patológico se foca em algum tipo de jogo. Quando não está jogando passa por uma espécie de crise de abstinência semelhante aos dos viciados em drogas, álcool ou cigarro. Isso acontece porque existe uma alteração na dopamina, que é um sistema que nos dá a sensação de recompensa (prazer) quando realizamos um desejo. Como há uma desregulagem no sistema, o indívíduo fica incontrolável e sucumbe ao desejo de jogar – explica Prates de Lima.
O psiquiatra lembra que, antes de tudo, é preciso entender o viciado e se esforçar para mostrar que existem alternativas além do jogo.
– A pessoa (viciado) fica numa situação embaraçosa, pois cria fama de mau-caráter. Esses preconceitos não correspondem a verdade, até porque muitos jogam por impulso e não por irresponsabilidade. É preciso procurar o tratamento adequado por terapia e outros meios – aconselha o especialista.
Uma doença progressiva
– O jogo compulsivo é uma doença progressiva. Existe muito mais a perder do que o dinheiro. O indivíduo desconhece que a maior parte do tempo de sua vida está sendo gasto com o jogo. O jogador é a última pessoa a se dar conta do problema.
– Se você possui alguém, algum amigo ou conhecido, com problemas de jogo, procure ajuda especializada.
Sinais perigosos
– Incapacidade para parar de jogar, constantes juramentos de abster-se.
– Intolerância aos familiares.
– Fantasias como: "Esta semana eu ganho", para sobrepor "a perda da semana passada" e sonhos de "maiores ganhos".
– O descuido das responsabilidades ao concentrar-se nas atividades do jogo.
– Enormes variações de humor.
– Fugas através de outras doenças (álcool, drogas, comida, etc.).
– A eterna exclamação: "não te preocupes com isto".
– Falta de interesse em situações sociais.
– Faltas e atrasos no trabalho.
– Antipatia com a idéia de parar de jogar e a crença de que a vida sem o jogo é impossível. (Adriano Duarte – Pioneiro/RS)

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