Procomp é contratada para manutenção dos TFLs da rede lotérica

Mais de 50 mil terminais espalhados pelas 13 mil unidades da Rede Lotérica precisam de manutenção. Boa parte deles tem entre 11 e 13 anos de uso. E a conta para mantê-los em funcionamento acaba de chegar: R$ 116 milhões.
A Caixa Econômica Federal assinou, nesta quarta-feira (19/8), o Contrato de Serviços Contínuos nº 07740/2026 com a Procomp Indústria Eletrônica Ltda para a manutenção dos Terminais Financeiros Lotéricos (TFLs) instalados em toda a rede nacional. O acordo, publicado no Diário Oficial da União nesta sexta-feira (21/8), tem valor global de R$ 115.997.981,28 e vigência de 24 meses a partir de 20 de agosto. A Procomp venceu a Licitação Caixa nº 150/2026, vinculada ao Processo 0350/2026, gerenciado pela Centralizadora Nacional de Contratações do Ministério da Fazenda.
A Procomp Indústria Eletrônica Ltda. é uma empresa brasileira de tecnologia e automação que ficou amplamente conhecida no mercado nacional por sua atuação histórica com equipamentos de informática, automação bancária e comercial, e que hoje possui ligação com a Diebold Nixdorf.
A conta que mais que dobrou em treze anos
O valor chama atenção quando colocado em perspectiva histórica. Em 2013, a ATP Tecnologia e Produtos S.A. venceu o Pregão Eletrônico 043/7066-2013 com uma proposta de R$ 57.230.000,00 para atender 31.250 terminais pelo mesmo prazo de 24 meses e escopo de serviço equivalente. O novo contrato representa mais que o dobro desse valor em termos nominais, R$ 115,99 milhões contra R$ 57,23 milhões, para uma rede hoje estimada em mais de 50 mil terminais.
Parte dessa diferença pode ser atribuída à correção monetária acumulada entre 2013 e 2026. Outra parte, no entanto, levanta uma questão que a simples atualização do IPCA não responde; o custo crescente reflete o tamanho maior do parque, o volume de chamados técnicos, ou simplesmente o envelhecimento dos equipamentos?
Um parque que não foi renovado
A última grande substituição em escala dos TFLs ocorreu entre 2014 e 2015. Naquele ciclo, a Caixa trocou 25 mil terminais e, por meio de um aditivo de 25% ao contrato de compra original, ampliou a renovação para mais de 31 mil equipamentos até meados de 2015. Desde então, não há registro público de uma nova onda de substituição nacional, o que significa que parcela relevante dos terminais hoje em operação acumula entre 11 e 13 anos de uso.
Esse tempo está bem acima do ciclo médio de hardware bancário e de terminais de ponto de venda (POS), normalmente estimado entre 5 e 7 anos. A própria Caixa reconheceu essa lógica em comunicado institucional, ao afirmar que terminais com mais de cinco anos de uso entrariam em programa de renovação. Não há evidência pública de que essa substituição tenha avançado em escala nos anos seguintes.
Equipamentos envelhecidos geram mais falhas, exigem peças de reposição muitas vezes descontinuadas pelos fabricantes e, por isso, mais caras, além de demandar chamados corretivos com frequência crescente. Se esse padrão estiver em curso no parque atual, o contrato de R$ 116 milhões pode estar custeando a manutenção de uma infraestrutura tecnologicamente defasada, adiando uma renovação que, a cada ciclo, tende a se tornar mais inevitável e mais custosa.
O retorno da Procomp e o histórico de trocas
A Procomp não é uma estreante na Rede Lotérica. Até 2013, a manutenção dos TFLs era responsabilidade da Diebold Procomp. Naquele ano, a Caixa migrou o serviço para a ATP Tecnologia e Produtos S.A., transição descrita por lotéricos da época como turbulenta, marcada por despreparo técnico da nova empresa e demoras no atendimento às chamadas.
Em março de 2020, veio uma nova troca; a Wyntech Serviços em Tecnologia da Informação Ltda, sediada em Florianópolis (SC), assumiu o contrato nacional de manutenção. Uma circular interna da Caixa do período revelou que, durante aquela transição, chamados abertos antes da assinatura do novo acordo continuaram sendo atendidos pela Diebold e por prestadores regionais, evidência de que a convivência entre um contrato nacional e contratos residuais locais não é exceção no modelo operacional da rede.
Esse mesmo padrão se repete agora. Segundo apuração do BNLData, a manutenção dos TFLs está atualmente dividida entre pelo menos duas frentes; parte a cargo da Wyntech e parte da Diebold. Com a formalização do contrato com a Procomp, a expectativa é que a empresa assuma integralmente o serviço nacional, centralizando novamente a operação como ocorreu nas transições de 2013 e de 2020.
O contexto que envolve a assinatura
O contrato foi assinado em meio a um período de pressão sobre a Rede Lotérica. Nas semanas anteriores, lotéricos de todo o país enfrentaram crise de abastecimento de bilhetes e bobinas, problema grave o suficiente para levar a Febralot a montar um diagnóstico nacional. Em junho, uma falha no sistema paralisou o atendimento em todo o Brasil por duas horas. O reajuste anual das tarifas segue sem data ou percentual definidos desde agosto.
Nesse cenário, um contrato de manutenção de longo prazo tende a ser recebido pelos empresários como sinal de estabilidade operacional. A questão que permanece em aberto, porém, é se a estabilização do serviço de manutenção resolve o problema central ou apenas posterga a decisão mais estrutural; quando e como renovar um parque de terminais que o próprio tempo transformou no maior risco de continuidade da rede.


