Psiquiatras criam critérios para diferenciar apostador patológico de recreativo

Apostas I 30.07.26

Por: Magno José

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Especialistas definem perda de controle, prejuízo financeiro e isolamento social como pilares da dependência; TST pode estender proteção atribuída a alcoolismo

Psiquiatras estabelecem critérios clínicos para diferenciar o apostador recreativo do dependente de bets. Perda de controle sobre o hábito, prejuízo financeiro concreto e redução progressiva da vida social a atividades de jogo são as três dimensões centrais da dependência, segundo especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo.

Entre o jogador ocasional e o dependente clínico existe um terceiro perfil, identificado pelo psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, responsável pelo Ambulatório de Tratamento de Dependências de Comportamentos do Proad (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes) da Unifesp: o chamado “investidor iludido”. Trata-se de quem acredita ter descoberto uma estratégia capaz de garantir ganhos consistentes com apostas. Vieira Júnior, que trata jogadores compulsivos há cerca de 30 anos, afirma que esse perfil “também cria problemas, também pode ter critérios para um diagnóstico de transtorno de jogo, mas não necessariamente é um dependente”.

O debate ganha contornos jurídicos no Tribunal Superior do Trabalho (TST), que discute se as regras aplicadas a casos de alcoolismo devem valer também para a ludopatia em processos de demissão. Em súmula consolidada em 2012, o TST estabelece que a dispensa de trabalhador com doença estigmatizante presume discriminação e pode levar à reintegração ao emprego. Uma ala de ministros avalia estender essa proteção às demissões vinculadas ao vício em apostas.

O ministro Alexandre Agra Belmonte, coordenador nacional do Programa Trabalho Seguro do TST, sintetizou o dilema: “É preciso diferenciar, com critérios técnicos, o que é um comportamento reprovável e o que é uma condição clínica que exige proteção.”

O que define a dependência

O DSM-5, versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais publicada em 2013, lista nove critérios para o diagnóstico de transtorno do jogo, definido como comportamento “problemático persistente e recorrente” com sofrimento ou comprometimento clinicamente significativo. O diagnóstico se confirma com a presença de pelo menos quatro deles:

⇒ Necessidade de apostar quantias crescentes para atingir a excitação desejada;

⇒ Inquietude ou irritabilidade ao tentar reduzir ou interromper o hábito;

⇒ Esforços repetidos e frustrados para controlar ou parar de jogar;

⇒ Preocupação frequente com o jogo, incluindo planejar apostas e buscar dinheiro para jogar;

⇒ Jogar com frequência em momentos de angústia;

⇒ Retornar ao jogo para tentar recuperar perdas;

⇒ Mentir para esconder o envolvimento com apostas;

⇒ Sofrer prejuízos em relacionamentos, emprego ou oportunidades profissionais por causa do jogo;

⇒ Depender de terceiros para saldar dívidas causadas pelas apostas.

Para Vieira Júnior, o diagnóstico se torna especialmente difícil nos casos que chegam à Justiça do Trabalho. “Os extremos são sempre fáceis de diagnosticar. Aquilo no meio do caminho é que vai dar mais trabalho para diagnosticar”, afirma. Nesses casos, o psiquiatra defende que o perito judicial realize avaliação aprofundada para distinguir indisciplina de patologia.

Jogo e alcoolismo; conexões clínicas

A comparação entre ludopatia e alcoolismo tem respaldo na biologia. Vieira Júnior argumenta que, no jogo, o cérebro desenvolve a mesma resposta dependente observada no uso de substâncias, sem que nenhuma droga seja ingerida. “A dependência é uma relação, não é um efeito que uma droga causa em você”, diz.

A psiquiatra Lívia Beraldo, do Hospital Sírio-Libanês, aponta que três em cada quatro jogadores patológicos têm ao menos um diagnóstico psiquiátrico associado. O álcool figura entre os mais frequentes e, junto ao tabagismo, forma o que ela denomina de tríade clássica do jogador. O abuso de álcool ocorre com maior frequência após sessões de jogo, como forma de lidar com a angústia das perdas ou facilitar o sono.

Em amostras clínicas, cerca de 50% das pessoas com transtorno do jogo relatam abuso de substâncias. Entre as que buscam tratamento para o jogo, até 63% já tiveram, em algum momento da vida, um transtorno por uso de substâncias, segundo Beraldo. Estudos de neuroimagem apontam um circuito neural compartilhado entre os dois quadros.

A aproximação farmacológica também é relevante. A naltrexona, medicamento já aprovado para o tratamento da dependência de álcool, tem demonstrado eficácia na redução da fissura por apostas, segundo Beraldo. A droga trata o transtorno do jogo de forma ampla, categoria que inclui as bets, mas não se limita a elas.

Essa convergência clínica levou o DSM-5, em 2013, a realocar o transtorno do jogo da categoria de transtornos do controle dos impulsos para a de dependências, ao lado dos transtornos por uso de substâncias. A mudança refletiu evidências de semelhança na fenomenologia e na biologia entre os dois grupos; pessoas com transtorno do jogo relatam fissura antes de apostar e experimentam redução de ansiedade e euforia comparáveis aos efeitos de substâncias psicoativas.

A escala do problema no Brasil é crescente. O Ministério da Saúde registrou 6.157 atendimentos presenciais no SUS relacionados a apostas em 2025, valor próximo ao dobro dos 3.490 atendimentos de 2024. A pesquisa TIC Domicílios 2025, do Cetic.br, aponta que cerca de 30 milhões de brasileiros com mais de 10 anos já apostaram online, o equivalente a aproximadamente um em cada cinco usuários de internet no país. A prática é mais frequente entre homens (25%) do que entre mulheres (14%).

 

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