“Reis” dos bolões de loteria investem em estratégia e faturam prêmios no Brasil

Três personagens acumulam vitórias em bolões de loteria e se consolidaram como figuras de referência no segmento no Brasil: a ex-participante do Big Brother Brasil (BBB) Paulinha Leite, o empresário cearense Alessandro Montenegro e o sargento da Polícia Militar de Goiás Glacieu Andrade. Reportagem do Metrópoles traçou o perfil dos três e os bastidores de suas estratégias para ganhar na Mega-Sena, na Lotofácil e em outras modalidades.
Os chamados “reis e rainhas dos bolões” organizam grupos de apostadores para dividir o custo de cartelas com mais dezenas, aumentando as chances de acerto. A lógica matemática explica o apelo: uma aposta simples de seis números na Mega-Sena custa R$ 6 e tem probabilidade de uma em 50.063.860 de acertar o prêmio principal. Uma cartela de 15 dezenas, o máximo permitido pela Caixa Econômica Federal por volante, custa R$ 30.030 e reduz essa probabilidade para uma em 10.003.

Alessandro Montenegro
O empresário Alessandro Montenegro, dono da Loteria Aldeota, em Fortaleza, acumula dez vitórias em bolões como cotista apenas em 2026. Dois dias após ganhar pela segunda vez na Mega-Sena neste ano, ele venceu também na Lotofácil, o que lhe rendeu o apelido de “Rei do Bolão” e projeção nacional.
A Loteria Aldeota foi fundada em 2005. A primeira premiação expressiva veio 15 anos depois, em 2020, quando um bolão organizado pelo estabelecimento ganhou R$ 105 milhões na Mega-Sena. O prêmio foi dividido entre 35 apostadores, resultando em cerca de R$ 3 milhões por cota.
Alessandro atribui os resultados não à superstição, mas ao volume de dezenas apostadas e ao estudo das combinações. “Quando se faz uma aposta simples na Mega-Sena, a probabilidade de ganhar é de uma em 50 milhões. Se o apostador fizer uma cartela de 15 dezenas, semelhante à que fizemos no prêmio de agora, a probabilidade diminui, e muito, de uma em 10 mil”, disse.
O bolão entra como solução para viabilizar esse tipo de aposta. “Você consegue participar de uma aposta com mais dezenas, aumentando as possibilidades, sem precisar arcar sozinho com todo esse valor”, explica o empresário.
Para gerir a operação, Montenegro conta com uma equipe de 100 colaboradores que trabalham em rodízio para estudar estatísticas, preencher os volantes da Mega-Sena, da Lotofácil e da Quina e deixá-los prontos para venda. As combinações de números não mudam a cada concurso; os volantes permanecem com a mesma numeração ao longo do tempo.
“Meus bolões são estudados. Eu tenho um sistema próprio que desenvolvi e, desde 2019, trabalho com determinadas combinações de números que não ficam mudando a cada concurso. Os volantes já ficam preparados e, conforme o prêmio vai acumulando, eu aumento a quantidade de dezenas. Já são anos trabalhando com as mesmas combinações. Não existe uma dezena específica que eu possa dizer que é a minha preferida. O que existe é um estudo das combinações e a decisão de manter aquela numeração ao longo do tempo”, disse.
“Eu sempre digo que sou quem mais acredita nos nossos bolões, e não é à toa que participo deles. A sorte faz parte de qualquer loteria e ninguém controla o resultado de um sorteio, mas existe muito trabalho antes disso. São anos estudando as modalidades, trabalhando com matemática e probabilidade, e buscando montar bolões cada vez mais competitivos”, afirmou Alessandro.

Paulinha Leite
Paula Cristina de Souza Leite ficou conhecida ao participar da 11ª edição do BBB. Desde então, acumula premiações em loterias da Caixa. No confinamento, já ganhou um apartamento na Barra da Tijuca (RJ), um carro e três motocicletas. No dia seguinte a deixar o programa, comprou uma raspadinha e faturou R$ 10 mil.
A trajetória de Paulinha com bolões, porém, antecede o reality. Aos 10 anos, ela marcou uma cartela para a mãe em um bolão da família que acabou premiado. Pouco antes de entrar no BBB, faturou R$ 274 mil ao acertar a quina da Mega da Virada em outro bolão familiar.
Hoje, a roraimense de 39 anos gerencia a empresa Unindo Sonhos, especializada em organização de bolões. Estima-se que ela já tenha conquistado mais de 60 premiações com a empresa, incluindo quadras, quinas, Lotofácil e Mega-Sena. Por seis anos seguidos, ela ganhou o prêmio da Lotofácil da Independência junto a cotistas do bolão. A última vitória foi na Mega da Virada de 2025, quando acertou duas vezes a quina com um jogo de 20 números, o maior permitido, que custou R$ 232.560.
A empresa enfrenta, no entanto, contestação judicial. Desde 2022, a Caixa processa Paulinha por suposta exploração ilegal dos serviços de loteria na comercialização de bolões on-line. Ela se defende afirmando ser apenas uma intermediadora que adquire apostas em lotéricas oficiais, sem operar um serviço próprio de sorteios. Após derrota na primeira instância, conseguiu decisão da 11ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF da 1ª Região) que liberou o funcionamento provisório da empresa, com a restrição de não usar as marcas da Caixa e de deixar claro aos clientes a ausência de vínculo oficial com o banco.

Glacieu Andrade
O sargento Glacieu Andrade, da Polícia Militar do Estado de Goiás (PMGO), mobilizou mais de 2 mil apostadores para a Mega da Virada de 2025 e investiu R$ 13,2 milhões em apostas, faturando 45 quinas e mais de 2 mil quadras. Mesmo com esse volume de prêmios, o investimento não se pagou; os cotistas dividiram cerca de R$ 1 milhão, bem abaixo do capital aplicado.
O grupo apostou em 57 jogos com 20 números cada, ao custo individual de R$ 232,5 mil por cartela. As cotas de participação variaram entre R$ 900, R$ 1.956 e R$ 2.280, conforme o subgrupo. Na edição anterior, em 2024, o grupo acertou 10 quinas e 222 quadras, resultado semelhante em termos de prêmio. Ao longo de seis anos, o grupo acertou a quina da Mega da Virada 15 vezes e acumulou aproximadamente R$ 15 milhões em prêmios somados. Na Lotofácil da Independência, o grupo faturou R$ 4,9 milhões.
Glacieu idealizou o grupo há 13 anos, inicialmente com cerca de 50 cotistas, em sua maioria colegas da PM. Para otimizar as apostas, o sargento utiliza programadores de sistemas, inteligência artificial e modelos estatísticos de fechamento combinatório, além de organizar os participantes em subgrupos com diferentes modalidades, incluindo o formato conhecido como grupo dos “hunters” (caçadores).
Em maio deste ano, o nome de Glacieu apareceu em registros policiais. A secretária Claudiane Santos Silva o acusou de tê-la agredido fisicamente, junto com sua esposa, em uma cidade que ela visitava para ver a família. Segundo Claudiane, o sargento a teria levado para fora do alcance das câmeras de segurança e desferido socos em seu rosto, com a esposa também participando das agressões. Ela atribuiu a violência a divergências políticas do passado. Glacieu negou a versão, afirmando que Claudiane teria insultado verbalmente sua família e dado um tapa no rosto de sua esposa, e que a companheira apenas revidou.


