Sem regulação, mercados de previsão viram desafio no Brasil

Apostas I 07.07.26

Por: Magno José

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Bets regulamentadas solicitam bloqueio de Polymarket e Kalshi à Secretaria de Prêmios e Apostas
Governo bloqueou 27 plataformas como Kalshi e Polymarket em abril de 2026 e debate regulamentação no país

Fora das atenções que focam em publicidades de bets e regulamentações, os chamados mercados de previsão, que cresceram globalmente nos últimos anos, se tornaram um desafio para as autoridades brasileiras, registra reportagem da agência Deutsche Welle reproduzida pela Folha de S.Paulo.

O governo brasileiro bloqueou 27 plataformas de mercados de previsão em abril de 2026 e discute a criação de uma legislação específica para regulamentar o setor. As plataformas americanas Kalshi e Polymarket estão entre os sites impedidos de operar no país.

Os mercados de previsão funcionam como uma espécie de “bolsa de apostas” sobre eventos futuros. Os usuários compram e vendem contratos baseados em perguntas sobre acontecimentos variados, de guerras e eleições a reality shows e casamentos de celebridades. Diferentemente das casas de apostas tradicionais, as negociações ocorrem entre os próprios usuários, e a plataforma lucra por meio de comissões sobre cada transação.

Apesar do bloqueio, brasileiros encontram brechas para acessar os sites. O uso de VPNs é um dos caminhos. Outro fator que dificulta o controle é que essas plataformas operam principalmente com criptomoedas, enquanto o governo tem concentrado esforços no rastreamento de transações via Pix para coibir bets ilegais. A DW identificou quatro plataformas funcionando de forma irregular no país. Outras chegaram a veicular anúncios no Instagram nas semanas anteriores à publicação desta reportagem.

Questionada sobre a presença de publicidade dessas plataformas em seu aplicativo, a Meta informou que “anunciantes que desejam promover jogos de azar ou jogos online precisam solicitar permissão por escrito e fornecer provas de que as suas atividades estão licenciadas por um regulador ou estabelecidas como legítimas nos territórios nos quais desejam veicular esses conteúdos”. A empresa acrescentou que órgãos governamentais podem solicitar a remoção de conteúdos que violem leis locais.

Copa do Mundo como vitrine

Com a Copa do Mundo em curso, os mercados de previsão ampliam sua presença. Além de apostas convencionais, como artilheiro e campeão do torneio, as plataformas oferecem contratos personalizados, como a possibilidade de apostar se Neymar entraria em campo ou se Cristiano Ronaldo choraria em público durante a competição. A casa de análises Bernstein estimou, no início do torneio, uma movimentação de US$ 10 bilhões (R$ 51,72 bilhões) em apostas nessas plataformas ligadas à Copa. Só no mercado do campeão, a Kalshi já havia movimentado cerca de US$ 850 milhões (R$ 4,39 bilhões) no começo de julho.

O setor ganhou tração global após as eleições americanas de 2024, quando uma disputa judicial autorizou a Kalshi a aceitar apostas sobre o resultado do pleito. Desde então, as plataformas acumulam polêmicas; altos volumes apostados vinculados a ações militares dos EUA no Irã e na Venezuela levantaram suspeitas de uso de informações privilegiadas.

Maioria dos usuários perde dinheiro

Um estudo recente sobre a Polymarket revelou concentração extrema nos ganhos; 1% dos usuários detém 76,5% dos lucros. Charles Martineau, professor da Universidade de Toronto e um dos autores da pesquisa, avaliou à DW que “é muito difícil de ganhar dinheiro apostando em esportes. É possível lucrar com algumas sequências de apostas, mas para a pessoa comum, apostar muitas vezes resultará em prejuízo.”

Martineau foi mais específico sobre as plataformas de maior volume. “Em plataformas como Kalshi e Polymarket, nas quais as apostas esportivas têm um alto volume de negociações, constatamos que os preços são tão eficientes que é praticamente impossível lucrar”, declarou. O professor também afirmou que “uma coisa é certa; a introdução dos mercados de previsão levará algumas pessoas a desenvolver uma crescente dependência de jogos de azar”.

Debate regulatório

Para a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), a oferta dessas plataformas no Brasil exigiria licenças específicas, nos mesmos moldes das casas de apostas que operam regularmente desde 2025. Sem regulamentação, o bloqueio aos sites é a resposta imediata do governo.

Plínio Lemos Jorge, presidente da ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias), avaliou positivamente a decisão. “Estava havendo ofertas inclusive de mercados ilegais, como eleições. O governo agiu rápido em excelente momento, antes que o tema escalasse”, disse.

Leonardo Henrique Roscoe Bessa, sócio do Betlaw e consultor do Conselho Federal da OAB, classificou o movimento como uma “resposta rápida”, voltada sobretudo a barrar apostas em eleições, que já são proibidas para as bets. Com o período eleitoral encerrado e a popularidade crescente do setor, Bessa projeta que o debate sobre regulamentação deve retornar à agenda. Um dos pontos mais delicados, segundo ele, é o uso de informações privilegiadas; nas bets, a legislação veda a participação de árbitros, jogadores e comissão técnica nas apostas; nos mercados de previsão, esse controle é mais frágil. “Quem tem informações, sai na frente”, resumiu.

 

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