Separação entre a parte de crédito e a de bets é ‘bastante necessária’, diz Campos Neto

Questionado sobre o tema das “bets”, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, afirmou nesta quarta-feira que a separação entre a parte de crédito e a das apostas esportivas “é bastante necessária”. Disse ainda que “não faz sentido banco ter bet. Na nossa interpretação, é uma coisa que não deveria existir. Mas acho que é uma política do governo, o governo está debruçado sobre isso”.
Em evento promovido pela Aurum Wealth Management & Multi Family Office e Veedha Investimentos, ele ressaltou que a autoridade monetária não faz política pública em cima do tema das bets, mas olha como pode ser o impacto na inadimplência, informa o VALOR.
Segundo ele, o tema tem sido estudado, inclusive a experiência de outros países.
“O que o mundo hoje não permite de forma geral, eu não conheço nenhum país que seja diferente, e nós precisamos ter atenção aqui, é não permitir que exista uma empresa que faça o crédito e dê linha de crédito para o sujeito apostar em bets.”
O presidente do BC disse que, olhando a Europa e o resto do mundo, o que é mais comum é alguma restrição na parte de propaganda e na interseção entre crédito e bets. Segundo ele, há um trabalho acadêmico de um professor da Universidade de Califórnia (UCLA) que compara os Estados americanos que permitiram e não permitiram bets e “vê claramente um efeito na inadimplência, um efeito principalmente na camada mais baixa”.
Campos Neto disse que o tema das apostas esportivas é relevante para a autoridade monetária porque pode gerar inadimplência. “Estava parecendo que estava indo para um caminho de gerar inadimplência nas classes mais baixas da população.”
Ele disse que o estudo feito pelo BC era uma forma de ajudar no debate e dar transparência para o tema. O estudo mostrou que beneficiários do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões a empresas de bets via Pix apenas em agosto. Campos Neto disse que o que é possível ver é o que foi transferido.
“Teve uma grande confusão entre o que é transferido e o que é perdido e a gente não consegue ver o que é perdido, porque tem dinheiro que está parado na conta das bets. Importante dizer que esse é um estudo preliminar, o número é bastante grande, mas a gente precisa se aprofundar nesse estudo”, disse.
Campos Neto falou sobre bets ao ser questionado durante o evento, em que fez palestra sobre o cenário econômico. Em sua apresentação, afirmou que a inflação no Brasil tem convergido para a meta, mas ressaltou que há preocupação para o futuro. Ele citou um “tema de alimentos que vem da seca” e a economia trabalhando “acima do potencial”.
Citou que alguns números de inflação de curto prazo têm saído melhores, “inclusive de núcleos”. Segundo ele, o BC tem olhado a parte de serviços intensivos em mão de obra e o último número “foi um pouquinho melhor na margem”.
No entanto, ressaltou que, olhando para a frente, “a gente enxerga uma piora”. Além do tema de alimentos, citou que há um questionamento sobre o quanto é possível ficar com inflação de serviços baixa com mão de obra pressionada. “A gente tem um crescimento que está forte, um crédito que está forte, um desemprego que está superbaixo e, quando a gente olha indicadores antecedentes, e o trabalho do Banco Central é tentar se antecipar a isso, a gente vê que a economia está trabalhando acima do seu potencial.”
Sobre a condução da política monetária, ressaltou que a escolha do Comitê de Política Monetária (Copom) foi não dar “guidance” (orientação) sobre próximos passos. “Como tem muita incerteza, é importante olhar no curto prazo e ver o que está acontecendo.”
Campos Neto ainda falou sobre o cenário fiscal no Brasil. Disse que nos momentos em que o país foi capaz de trabalhar com juros mais estáveis foram os momentos em que houve um “choque positivo no fiscal”, citando pontos como a aprovação da reforma da Previdência e o arcabouço fiscal.
Nesse sentido, afirmou que é difícil pensar que vai ser possível trabalhar com juros mais baixos de foram mais estável sem ter perspectiva de convergência da dívida. “A gente acha que nesse momento o Brasil precisa passar algum tipo de mensagem nesse sentido.”


