Sobre o jogo e a hipocrisia.

Opinião I 08.03.04

Por: sync

Compartilhe:

Tudo que o Homem cria, produz, inventa, tenta sobre a terra, desde que o homem é homem, gera benefícios e malefícios. Todas as instituições, todas as atividades, sejam quais forem produzem ‘bens’ e ‘males’. Podemos sempre olhar para qualquer ato humano e ‘ver’ seus defeitos ou suas qualidades. Isso depende mais da nossa forma de ver do que do fato em si.

 

O jogo, o transporte por meio de veículos motorizados, o sistema financeiro, a alteração do meio ambiente, as instituições familiares, a guerra, as regras que regem o trabalho humano, as instituições governamentais e tudo, literalmente tudo, pode ser visto positiva ou negativamente. E tem mais: é impossível coibir ou impedir certas atividades, certas formas de vida, certas maneiras de trabalhar, consumir ou se divertir. Quanto mais complexa for a estrutura social, mais intrincadas serão as relações entre suas partes, mais todas as coisas estarão ligadas a todas as coisas, mais tudo dependerá de tudo. Não se elimina, coíbe ou impede algo sem mexer, queiramos ou não, na estrutura toda. Algo do que digo parece um tanto abstrato, mas não é. Estou falando do concreto, da nossa sociedade, do nosso dia-a-dia, do nosso sistema legal e da maneira de criá-lo, dos governos que se sucedem no comando do Estado. Estou falando dos interesses de pessoas e grupos e dos conflitos entre esses interesses. Isso tudo ainda parece muito abstrato?

 

Vamos a alguns fatos. Falemos sobre o jogo. Sobre essa antiga forma de lazer, sobre o prazer que o Homem encontra, sempre encontrou, em brincar com o acaso, com a sorte, com o aleatório, com a fortuna e, aqui, fortuna no seu duplo sentido: sorte e riqueza. Jogo é uma das mais antigas e mais arraigadas formas de lazer, ousaria dizer, em praticamente todas as culturas.

 

Mas cada cultura tem lá suas características, suas qualidades, seus defeitos. Cada cultura encara, considera o jogo ou, de modo mais geral, as atividades de lazer, de maneira diferente. Pode vê-lo de maneira positiva, negativa ou neutra. Na nossa cultura, nos últimos dois mil anos, estabeleceu-se uma separação entre atividades de trabalho e atividades de lazer. O tempo do Homem é dividido em um tempo de trabalho e um tempo ‘livre’, um tempo para o lazer. Há ainda uma valoração: o trabalho é visto como uma atividade positiva que deve ser incentivada; o lazer, como uma atividade negativa que pode ser, no máximo, tolerada. Isso poderia ser ‘explicado’: como surgiu, por quê é assim etc. Não é isso que pretendo fazer aqui nem agora. Quero me ater a certos fatos, somente a isso. Expô-los.

 

As atividades de lazer sempre foram vítimas de restrições por parte de detentores de algum poder: Estados, Igrejas, defensores da ‘moral’ e dos ‘bons costumes’, guardas de rua, leões de chácara. Só para nos referirmos a culturas e leis próximas às nossas lembramos que baralhos e dados já eram proibidos nas Ordenações do Reino, a legislação portuguesa e, por extensão, das colônias como o foi o Brasil por mais de 300 anos. Muita água passou sob a ponte e muitos dados rolaram até que em 1946, durante o governo Dutra, o jogo foi proibido no Brasil. Nem vou falar da burrice e dos danos causados por tal medida. O fato é que foi proibido. Mas, por outro lado, não é simplesmente uma proibição que elimina do mapa uma antiga e arraigada atividade humana. Uma lei, por mais rigorosa que seja, e nunca o é tanto, convenhamos, uma lei, dizia, não é suficiente para extinguir uma atividade. Exemplos, se fosse citá-los, encheriam as próximas páginas.

 

Mas o que acontece, sempre acontece, quando uma atividade com sólidas raízes culturais é proibida? Ainda aqui, devo lembrar, não estou fazendo suposições, reporto-me somente a fatos. Quando se proíbe uma atividade que é parte integrante de uma certa cultura ela simplesmente continua a existir, mas agora na clandestinidade, sem a tutela do Estado. E, se não tem mais a tutela do Estado, terá que criar suas própria leis, seus próprios tribunais, sua própria economia paralela. E tudo isso viverá, não há outra maneira, em simbiose com as instituições do Estado. Eis então que surge ‘o crime’ e logo ‘a corrupção’. A ‘Lei Seca’ nos Estados Unidos é um ótimo exemplo e está longe de ser o único.

 

Junto com a proibição e seus subprodutos, o crime e a corrupção, surge também um velho hábito, um velho fantasma da nossa cultura: a hipocrisia.

 

Há que se fingir que as coisas não ocorrem dessa maneira. Quando se descobre o ‘crime’ ou a ‘corrupção’ há o ‘escândalo’. Isso não poderia acontecer no nosso governo, a lisura, a honestidade, as demissões, as ameaças de CPIs, os discursos moralistas, o uso político, os discursos indignados e ‘estarrecidos’, o festival completo de baboseiras para o consumo miúdo.

 

Tudo que diz respeito ao jogo no Brasil vai por esse caminho, ferve no mesmo caldeirão ou, dito de outra maneira, é fritado na mesma frigideira. O Estado inventa ou mantém a proibição, o jogo continua a existir, como sempre existiu, sob as mais diversas formas e fantasias, mas como ‘atividade criminosa’ e, na necessária simbiose entre ‘atividades criminosas’ e Estado, permanece também como sempre permaneceu, a assim chamada ‘corrupção’.

Em poucas palavras: eliminem-se certas proibições e desaparecem o ‘crime’ e a ‘corrupção’. Sem hipocrisia.

 

(*) Luiz Angelo Pinto é editor da Revista Games News e assinante do BNL.

BRLot - Sorte Online - 728 x 90 1BRLot - Sorte Online - 728 x 90

Compartilhe: