Bicho, e o jogo do bicho?

Opinião I 11.03.04

Por: sync

Compartilhe:

Quando o PT imita os outros governos e, jogando a culpa nos críticos, abafa uma CPI caçando (e cassando) os bingos, promovidos a símbolos da "jogatina", cabe perguntar porque, afinal, perguntar não ofende: e o jogo do bicho, bicho? O que decepciona não é só a atitude defensiva, mas o moralismo raso da reação palaciana impingindo gato por lebre (ou coelho), para sermos fieis à velha invenção do Barão de Drummond. A questão é a seguinte: num governo eleito com compromissos sérios de transformar a realidade, por que não usar o escândalo Waldomiro para abrir uma discussão ampla e irrestrita, profunda e honesta, sobre o jogo em geral e, dentro deste quadro, sobre o jogo do bicho em particular? Será que o jogo do bicho, por ser exatamente uma velha e bem estabelecida loteria de animais, escapa da malha ética por se apresentar como um passatempo inocente? Teria o jogo do bicho simplesmente acabado, como gostam de propalar os seus donos, pois assim os bichos continuam soltos e a produzir dividendos? Será que esse jogo no qual números são animalizados e humanizados, como Elena Soárez e eu mostramos no livro Águias, Burros e Borboletas, não faz parte dessa tal "jogatina"? Ou será que interessa, sobretudo a alguns políticos e policiais não falar dele porque, afinal de contas, colocar o jogo do bicho na alça de mira do debate, transformaria os "águias" em "burros"? Eu não sei. Sei apenas que o "esquecimento" dessa loteria perde a oportunidade de corrigir uma das mais flagrantes contradições nacionais, fonte de um sistema de corrupção permanente. Pois o "jogo do bicho", inventado pelo Barão de Drummond, no fim do século 19 como um instrumento para angariar fundos para o seu zoológico, dentro do bairro que havia construído (uma Vila Isabel abolicionista, moderna e dotada de largas avenidas), exemplifica bem a nossa dificuldade de conjugar práticas sociais estabelecidas e regimes legais freqüentemente moralistas, escapistas e, conseqüentemente, insinceros. Leis que não ajudam a disciplinar e a gerenciar eficientemente o que existe, mas, muito pelo contrário, têm como objetivo mudar o gosto e, pior que isso, o modo pelo qual a sociedade imagina e faz certas coisas. Porque não há nada mais poderosamente popular do que essa loteria que de modo original e criativo associa bichos e números. Enquanto no mundo moderno os sonhos e os bichos são destruídos pelo capitalismo predador ou aprisionados pela psicanálise que os decifra e disciplina, colocando-os em jaulas desencantadas ou relicários zoológicos, o jogo do bicho liberta os sonhos e, por meio do velho palpite, abre aos não ricos a possibilidade de fazer "uma fezinha" e "acertar num milhar". Ora, essa junção de bichos com números por meio de palpites, que chegam com tudo que escapa da rotina e até mesmo pelas desgraças que são a parcela maior da vida dos destituídos, faz do jogo do bicho um dos maiores paradoxos brasileiros. Pois se trata de uma loteria socialmente aprovada, mas colocada na ilegalidade e, como tal, sujeita a correr em paralelo com a consciência de que há uma ligação direta entre proibição, ilegalidade e corrupção. Sobretudo quando a atividade é popular e o país é o Brasil. Tal como ocorre com a amizade que permite a nomeação do amigo para um alto posto onde ele eventualmente pratica o tráfico de influência, o jogo do bicho também junta o desejo de melhorar de vida com o menor esforço e um jogo de azar. Melhorar de vida é uma aspiração legítima. Jogar, porém é crime ou, valha o eufemismo hipócrita, "contravenção penal". O caso do ministro José Dirceu ilustra bem essa dualidade que permeia a vida nacional. Ele mostra como o conhecimento pessoal não supera o conflito de interesse, tanto quanto a legislação não suprime a fezinha no jogo colocado na ilegalidade. Mas quando ocorre um curto-circuito que junta as duas pontas da equação, temos o escândalo e a descrença em nós mesmos, precisamente porque ele denuncia o fosso entre a lei e o costume. É uma vergonha, falamos em coro, deixando que a bela borboleta de asas azuis da corrupção passe pelas grandes grades de nossa auto-ignorância que faz tapar o sol com a peneira. Por que, então, continuar usando a lei (que não pega) contra hábitos e costumes que são expressões da sociedade e do mundo em que vivemos? Em vez de fechar bingos, por que não abrir o debate sobre o jogo em geral? Ainda mais quando sabemos que as lotecas, as super-Sennas e as raspadinhas explodiram e relativizaram faz tempo a proibição de jogar, desmentindo o moralismo vazio e colocando em causa a nossa inteligência administrativa. A tal jogatina que vai da especulação na bolsa de valores às campanhas eleitorais (na qual as rodas da fortuna são construídas por marqueteiros) permeia o nosso estilo de vida. Não seria melhor e mais inteligente discipliná-la do que simplesmente reprimi-la? (*) Roberto Damata é antropólogo – Estadão


Compartilhe: