A arte dentro e fora dos cassinos

Quando se pensa em cassinos logo surge a imagem de jogos, grandes apostas, possibilidade de ganhar muito dinheiro, risco inerente, mas existe outro aspecto que costuma ser negligenciado, cassinos são uma parte da cultura popular, a maior parte das pessoas – pelo menos as mais jovens e quem nunca viajou para o exterior –, nunca pisou num cassino, mas todo mundo sabe como eles são, afinal o estereótipo do ambiente está cravado no imaginário de todos. Todos sabem sobre Las Vegas, ou já viram filmes como “Cassino” de Martin Scorsese, ou se “Beber não case” em que quatro amigos vão conhecer a cidade que nunca dorme e têm a noite mais louca de suas vidas até conseguirem muito dinheiro no poker.
Mas Las Vegas não é famosa só pelo jogo, mas também pela grande oferta de entretenimento, com destaque para os shows de cantores e bandas famosas, os sete espetáculos do Cirque du Soleil.
Outro destaque são os imensos shows mágicos famosos, que fizeram de Las Vegas seu lar. Vários ilusionistas se apresentaram e ainda o fazem até hoje nos cassinos de Las Vegas como David Copperfield, Criss Angel e Mat Franco. A famosa dupla dos já falecidos “Siegfried and Roy”, mantiveram seus shows regularmente envolvendo truques com animais como elefantes, tigres e cobras.
O senso comum não costuma enxergar cassinos como fonte de empregos, mas eles sempre deram oportunidades a profissionais procurando onde trabalhar. “cassinos são, na verdade, uma ótima opção pra geração de emprego e renda, não só para músicos, como também para diversos profissionais, como bailarinas, cozinheiro, copeiro, segurança etc.,” revele Heráclito de Souza Macedo músico por paixão que se apresenta nas noites de Vitória, no Espírito Santo. Em suas passagens pelo Uruguai teve a chance de constatar as oportunidades para artistas que os cassinos geram. Essas casas de jogos são alguns dos pontos mais procurados pelos turistas e servem para os artistas se tornarem mais conhecidos. Alguns cassinos ficam abertos 24 horas por dia.
No passado dos cassinos americanos, durante o Século 19, o estabelecimento era ligado à música do velho oeste, de fato filmes de faroeste são famosos por possuírem cenas no Salon onde os cowboys apostavam muito dinheiro, como o clássico “Sartana”, que conta a história de um pistoleiro cínico e manipulador que adora jogar cartas. No começo do Século 20 foi a vez do jazz brilhar no local. Em lugares como Nevada, quando o jogo foi mais aceito pela sociedade, músicos do naipe de Frank Sinatra fizeram shows nos cassinos recém-inaugurados. Nos anos 60 o estilo clássico voltou a moda e foram contratadas orquestras para o público da elite, que frequentava os locais. Quando os músicos se tornaram mais caros foi a vez de passar a música pré-gravada nos salões de jogos.
O caso de Frank Sinatra talvez seja o mais emblemático, o cantor começava a entrar em decadência nos anos 50, quando virou uma atração regular em Las Vegas em 1951, ao fazer isso uma relação simbiótica foi criada entre o artista e a cidade, o local se tornou uma atração de cunho mundial, uma ex-governadora de Nevada teria dito: “ele foi a faísca que transformou Vegas de um faroeste empoeirado em algo glamoroso”. Sem Sinatra Las Vegas não entraria no imaginário popular, e sem a cidade a carreira de do cantor teria acabado bem antes.
A associação entre Las Vegas e o grupo de músicos liderados por Sinatra, conhecidos como Rat Pack, era tanta que os cantores foram chamados para protagonizar a primeira versão do filme “11 homens e um segredo”, que mostrava um grupo de ladrões tentando roubar um cassino. A relação de Sinatra com o jogo era mais do que puramente empregatícia, o cantor gostava muito de frequentar os cassinos, seu jogo favorito era o blackjack que continua popular entre os apostadores hoje em dia.
Sinatra não foi o único cantor que teve uma passagem pelos cassinos, situação similar aconteceu com Carmem Miranda no Brasil. Na Década de 30, Carmem ainda não era tão famosa, mas já era considerada a cantora de rádio mais popular do país quando começou a se apresentar no Cassino da Urca no Rio de Janeiro, lá conheceu em 1939, o Dramaturgo Marc Connelly e a atriz Sonja Henje, que a convidaram para desenvolver sua carreira nos Estados Unidos.
Outra celebridade associada ao Cassino da Urca era o lendário diretor Orson Welles, em 1942 ele veio ao Brasil filmar o documentário “É tudo verdade”, como parte da política da boa vizinhança, alimentada entre o presidente americano Franklin Roosevelt e o brasileiro Getúlio Vargas. Welles acabou usando o tempo para se divertir e frequentar o Cassino.
Cassinos sempre estiveram ligados a cultura no Brasil e grandes artistas, além de Carmem Miranda, começaram suas carreiras nestes estabelecimentos e foram um ambiente para o enriquecimento cultural do país. Os cassinos eram bem cobiçados pelos artistas e intelectuais, celebridades do calibre de Albert Einstein, Janis Joplin, Orson Welles e Walt Disney frequentaram os cassinos do Rio. O Gigantesco Cassino Atlântico acabou virando cenário do filme “Alô Alô Carnaval”, uma grande peça da cultura nacional por ter sido o único filme protagonizado por Carmem Miranda no Brasil, que sobreviveu até os dias de hoje.
Hoje em dia não se faz essa associação entre cassinos e cultura pois com a proibição do jogo para preservar os princípios morais se formou um tabu em volta do entretenimento e se costuma observar apenas os aspectos negativos, mas naquela época, em que os estabelecimentos estavam legalizados no país, eram grandes centros do melhor da cultura brasileira até a primeira metade do Século 20.
Mesmo no Século 17, quando os primeiros cassinos apareceram em Veneza, os visitantes eram entretidos com espetáculos de música e dança. Não só a música e a mágica, mas também a arquitetura brilhou nos estabelecimentos, O Palace Cassino de Poço de Caldas em Minas Gerais era considerado um dos prédios mais majestosos do país na época e hoje é patrimônio histórico da cidade.
Esse crescimento cultural que os cassinos promovem no exterior poderia acontecer novamente no Brasil? É possível que sim, se ocorrer a liberação dos estabelecimentos em território nacional, os artistas e profissionais poderiam dispor desse novo ambiente para trabalhar. Alguns países sul-americanos como Chile, Argentina e Uruguai impulsionaram muito a sua economia através dos cassinos. O Chile foi eleito um dos melhores destinos turísticos do mundo pela World Travel Awards 2019. Num momento como esse em que a economia está desaquecida pela pandemia e pelo mau momento que o país atravessa, a liberação poderia ser um estímulo ao crescimento econômico e para a cultura. (Carlos André de Oliveira Esberard)


