A formiga do vizinho e o elefante dentro de casa

Opinião I 09.09.26

Por: Magno José

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A formiga do vizinho e o elefante dentro de casa
Artigo de Thiago Iusim destaca por que a indústria regulada não pode usar o mercado ilegal (nem o tabaco, nem os bancos) como desculpa para ignorar seus próprios desafios ou problemas

É mais fácil ver a formiga do vizinho do que o elefante dentro de casa.

Poucas frases explicam tão bem o debate atual sobre a indústria de apostas no Brasil.

De um lado, parte do governo, da mídia e de outros setores da economia encontrou nas bets uma explicação conveniente para uma série de problemas que o país carrega historicamente: endividamento, perda de poder de compra, informalidade, falta de educação financeira, baixa capacidade de poupança, saúde mental fragilizada e consumo pressionado.

É claro que o mercado de apostas precisa ser regulado.

É claro que precisa ser fiscalizado.

É claro que operadores que não cumprem suas obrigações devem ser punidos.

Severamente.

Mas transformar a indústria de apostas na causa única, simples e confortável de problemas estruturais brasileiros é, no mínimo, uma forma covarde de não olhar para o próprio quintal.

As apostas não inventaram o endividamento das famílias.

Não criaram a precarização da renda.

Não produziram a falta de educação financeira.

Não são a origem da crise de saúde mental.

Não são responsáveis pelo baixo poder de compra.

Não explicam o descontrole financeiro de milhões de brasileiros.

Mas viraram um alvo fácil.

A formiga do vizinho.

Visível.

Conveniente.

O problema é que essa mesma lógica também aparece dentro da própria indústria de apostas.

O mercado regulado aponta, com razão, o tamanho do problema representado pelo mercado ilegal.

Essa crítica é correta.

Mas o mercado ilegal não pode servir como escudo para que o mercado regulado deixe de olhar para dentro.

Ter domínio .bet.br não basta.

Ter política de Jogo Responsável publicada no site não basta.

Exibir “aposte com responsabilidade” no rodapé da propaganda não basta.

A diferença entre o mercado regulado e o mercado ilegal precisa aparecer na prática.

Na operação.

Na prova de cuidado com o apostador.

Na identificação de sinais de risco.

Na adoção de medidas preventivas.

Na capacidade de demonstrar que a empresa viu, entendeu, agiu e documentou.

O mercado regulado tem razão quando cobra combate duro ao ilegal.

Mas reage mal a qualquer crítica sobre suas próprias falhas.

Não dá para exigir fiscalização contra quem está fora da lei e, ao mesmo tempo, tratar Jogo Responsável como assunto periférico dentro de casa.

Não dá para apontar o dedo para o site clandestino e ignorar a ausência de mecanismos efetivos de proteção ao apostador na operação regulada.

Não dá para pedir respeito institucional sem construir confiança operacional.

A crítica ao mercado ilegal é necessária.

Mas ela não absolve o mercado regulado de suas próprias obrigações.

E o mesmo vale para outras comparações convenientes.

“E a indústria do tabaco?”

“E a bebida alcoólica?”

“E o crédito rotativo do cartão?”

“E os bancos?”

Esse mecanismo tem nome: whataboutism.

Em vez de enfrentar a crítica, muda-se o foco para o problema do outro.

É claro que outros setores também têm seus elefantes.

A indústria do tabaco tem.

A indústria de bebidas alcoólicas tem.

O sistema financeiro tem.

Mas o fato de outros setores terem seus próprios problemas não diminui a responsabilidade da indústria que queremos construir.

O mercado de apostas precisa parar de usar comparações externas como anestesia moral.

A pergunta não é se outros setores também erram.

A pergunta é: o que nós estamos fazendo, agora, com o risco que já conhecemos?

Esse talvez seja o ponto mais incômodo.

A indústria regulada brasileira tem uma oportunidade de provar que é diferente.

Mas essa diferença precisa ser construída na prática.

Com operadores dispostos a assumir que Jogo Responsável não é custo, nem obrigação cosmética.

É parte central da licença social para operar.

O problema do vizinho pode até ser real.

Muitas vezes é.

Mas isso não torna menor o elefante dentro de casa.

E, quando o elefante é ignorado por tempo demais, não adianta culpar a formiga.

É ele que derruba a parede.


Thiago Iusim: A verdade que a indústria precisa saber contar sobre os R$ 22 bilhões do Tigrinho 1(*) Thiago Iusim é fundador e CEO da Betshield Responsible Gaming, empresa brasileira especializada em tecnologia para Jogo Responsável no mercado regulado de apostas. A Betshield desenvolve soluções de monitoramento comportamental para identificação precoce de sinais de risco, apoio a medidas preventivas e registro de evidências operacionais.

 

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