Bancos privados avaliam adesão restrita ao novo Desenrola Adimplentes

Os bancos privados devem aderir de forma restrita ao Desenrola Adimplentes, novo programa de crédito lançado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nesta segunda-feira (29/6). Até o momento, apenas as estatais Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil sinalizaram participação na iniciativa.
Conforme apurado pela Folha de S.Paulo, Bradesco, Itaú Unibanco e Nubank informaram, via assessoria, que ainda avaliam o programa. A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) foi direta ao avaliar as perspectivas: “o potencial de adesão das instituições financeiras tende a ser mais limitado”.
A entidade que representa as maiores instituições do país justificou a postura cautelosa. “Nesse contexto, a participação será uma decisão de cada banco associado, observadas as condições da nova linha, as políticas de crédito da instituição, suas estratégias de negócio e critérios próprios de avaliação de risco”, afirmou a Febraban em nota.
Resistência do setor privado
A ABBC (Associação Brasileira de Bancos) também foi reservada. A entidade reconheceu que “o programa pode contribuir para a reorganização financeira de parte restrita da população de trabalhadores autônomos”, mas apontou obstáculos concretos. “As regras de elegibilidade restringem o universo potencial de beneficiários e a efetiva implementação dependerá da superação de desafios operacionais relevantes, especialmente relacionados à integração e à validação das diferentes bases de dados necessárias para identificar os clientes elegíveis ao programa”, completou a ABBC.
Os bancos privados já haviam resistido a esta fase do Desenrola durante as negociações, argumentando que não faz sentido renegociar dívidas de quem está com os pagamentos em dia.
Como funciona o programa
O Desenrola Adimplentes é voltado para trabalhadores informais e autônomos com dívidas de até R$ 15 mil que estejam em dia ou com atraso de no máximo 90 dias. O governo federal estima que entre 1 milhão e 3 milhões de pessoas sejam beneficiadas.
O teto de juros da modalidade é de 1,99% ao mês, com garantia do FGO (Fundo Garantidor de Operações). O índice é expressivamente menor do que a média praticada atualmente; segundo dados do Banco Central, a taxa média do crédito pessoal estava em 7,15% ao mês no início de junho de 2026. Em abril, o total emprestado nessa modalidade somava R$ 400 bilhões.
Para participar, o contrato deve ser de crédito pessoal não consignado e ter pelo menos quatro parcelas já pagas. A prestação renegociada não pode ultrapassar 90% do valor da parcela original. O programa também permite a contratação de crédito adicional de até 50% do saldo devedor original, desde que a nova parcela permaneça dentro desse mesmo limite de 90%.
O prazo após a renegociação pode ser estendido conforme o tempo restante do contrato;
⇒ até um mês para dívidas com prazo remanescente de até seis meses;
⇒ até dois meses para dívidas entre seis e 12 meses;
⇒ até quatro meses para dívidas entre 12 e 24 meses;
⇒ até seis meses para contratos com mais de 24 parcelas restantes.
Quem aderir ao programa ficará impedido de apostar em bets por até seis meses.
Contexto e próximos passos
O Desenrola Adimplentes é a segunda fase de um pacote de crédito lançado pelo Planalto em 2026, às vésperas do período eleitoral. Na primeira versão do programa, voltada para endividados, o governo renegociou dívidas de 7,5 milhões de famílias, com R$ 17,5 bilhões renegociados e desconto médio de 80%, conforme divulgado nesta segunda-feira (29/6).
A medida não terá impacto primário no orçamento da União, pois não exigirá novo aporte do Tesouro no fundo garantidor.
Em nota, o Banco do Brasil afirmou que as medidas são relevantes “para o estímulo à adimplência, à promoção da inclusão financeira e ao fortalecimento da capacidade financeira das famílias brasileiras” e que oferecerá a modalidade. A instituição condicionou a operacionalização à publicação dos atos normativos de regulamentação; “A partir da publicação e vigência dos atos normativos de regulamentação dos programas, serão conduzidos os ajustes para operacionalização das linhas de crédito destinadas aos tomadores de crédito adimplentes, de acordo com os critérios e condições de elegibilidade e enquadramento, observando as avaliações técnicas e políticas operacionais para concessão de crédito do Banco do Brasil.”
Também nesta segunda-feira (29/6), o governo federal anunciou o uso do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) como garantia em empréstimos consignados CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), com teto de juros também de 1,99% ao mês. Pelas novas regras, o trabalhador poderá usar até 10% do saldo do FGTS se optar pelo saque-rescisão, além de oferecer 35% das verbas rescisórias ou até 100% da multa do FGTS como garantias adicionais.
André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, avaliou que o impacto da medida sobre os juros ainda é incerto. “O FGTS e a multa rescisória como garantias para as instituições financeiras tende a melhorar um pouco esse cenário de taxas muito elevadas para o trabalhador. Deve reduzi-las em alguma medida”, declarou o economista, ponderando que o atual cenário macroeconômico, com juros e endividamento elevados, limitará os efeitos.
O governo ainda deve anunciar nesta semana um programa de renegociação de dívidas para MEIs (microempreendedores individuais), com descontos de até 70%.


