Bernardo Fridman: “A regulamentação do jogo pode gerar muita receita para ser aplicada, na saúde, educação, segurança e reduzir o desemprego”

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Bernardo Fridman é profissional da área da saúde (Imagem: Divulgação)

Em sua entrevista exclusiva à Tribuna da Imprensa Livre, o Dr. Bernardo Fridman, profissional da área da saúde, afirmou que a regulamentação de jogos de apostas em dinheiro administrados pela iniciativa privada no Brasil: “A pessoa que é viciada em jogos, vai jogar com o jogo estando proibido ou liberado. O fato do jogo não estar regulamentado é muito prejudicial nesse sentido, pois o Estado se isenta de criar políticas públicas para tratar essas pessoas.” O Doutor lembrou que: “O SUS deve aproveitar essa arrecadação para o desenvolvimento de políticas públicas para diversos vícios. Se o problema existe deve ser encarado.”

Luiz Carlos Prestes Filho: Uma das justificativas para o fechamento dos cassinos no Brasil, em1946, foi a ludopatia. Esta justificativa é científica? Quais são os sintomas desta doença, do ponto de vista da medicina?

Bernardo Fridman: A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a ludopatia como uma doença. Muitas vezes os principais sintomas são percebidos por pessoas próximas, já que quem está sofrendo desse transtorno dificilmente percebe certos comportamentos como: (1) Jogar mais tempo que o razoável; (2) prejuízo de outras atividades e de interação social; (3) problemas no rendimento profissional; (4) diminuição no tempo de sono devido a agitação; (5) aumento dos conflitos familiares; (6) irritação quando fica afastado do jogo (sinal de abstinência).

Prestes Filho: O jogo não regulamentado cria a invisibilidade dos viciados em jogos?

Bernardo Fridman: A pessoa que é viciada em jogos, vai jogar com o jogo estando proibido ou liberado. O fato do jogo não estar regulamentado é muito prejudicial nesse sentido, pois o Estado se isenta de criar políticas públicas para tratar essas pessoas.

Prestes Filho: Quais países tem programas especiais para atender esses jogadores? Como funcionam?

Bernardo Fridman: Os países mais desenvolvidos contam com esse tipo de apoio. Existem vários tipos de programa, o mais comum são as reuniões em grupo no estilo Alcoólicos Anônimos, onde as pessoas compartilham as suas experiências em troca de um apoio do grupo e de especialistas. Uma grande preocupação desses países também está voltada para o vício de crianças em jogos eletrônicos.

Prestes Filho: Seria importante investir parte da arrecadação tributária dos jogos regulamentados no Sistema Único de Saúde (SUS)? Desta maneira contribuir financeiramente para com o tratamento de viciados?

Bernardo Fridman: Sim, isso é fundamental. A regulamentação do jogo pode gerar muita receita para ser aplicada, na saúde, na educação, na segurança e reduzir o desemprego. O SUS deve aproveitar essa arrecadação para o desenvolvimento de políticas públicas para diversos vícios. Se o problema existe deve ser encarado.

O Sistema Único de Saúde (SUS) é a denominação do sistema público de saúde no Brasil. Foi instituído pela Constituição Federal de 1988, como forma de efetivar o mandamento constitucional do direito à saúde como um “direito de todos” e “dever do Estado”

Prestes Filho: De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a pessoa com um quadro patológico apresenta os seguintes sintomas: (a) necessidade de aumentar o risco e as apostas; (b) está todo o tempo preocupada com o jogo; (c) irritação e nervosismo se deixar de jogar; (d) usa o jogo para escapar de problemas; (e) mente para familiares e amigos para tentar esconder seu real envolvimento com o jogo; (f) tenta se controlar e parar de jogar, mas não consegue; (g) o jogo é uma ameaça para relacionamentos, oportunidades de trabalho e carreira. Você concorda?

Bernardo Fridman: Se você perceber são sintomas comportamentais. A pessoa que está viciada precisa de ajuda, e isso só vai ocorrer com a regulamentação do jogo. Como você mesmo disse em uma das perguntas a não regulamentação cria uma invisibilidade desse problema.

Prestes Filho: A religião é um elemento que determina se uma pessoa pode ou não jogar?

Bernardo Fridman: A religião católica é mais permissiva ao jogo, que a protestante ou evangélica, será que por isso existem mais jogadores patológicas católicos em países da América Latina e em alguns países europeus, como Espanha e Itália? Eu não sou especialista em religião, mas essa pergunta não diz respeito somente ao jogo, e sim ao peso que a religião ocupa hoje na sociedade. E o catolicismo me parece que se distanciou muito da sua base, ao contrário dos evangélicos, que se organizaram politicamente e constituem um bloco forte que ainda conseguem ditar condutas e normas a uma boa parte de seus fiéis. Realmente, não sei como se dá essa questão nos principais países católicos da Europa como Portugal, Espanha e Itália.

Prestes Filho: No Brasil, com o jogo regulamentado, é importante criar um sistema próprio sobre os benefícios do jogo? Pois, está comprovado que o jogo ajuda a combater a depressão e realiza a socialização de idosos?

Bernardo Fridman: Eu não tenho dúvida que uma regulamentação dos jogos seria muito benéfica ao país em diversos aspectos econômicos e sociais. Sobre os idosos, de fato alguns jogos ajudam a eles em diversos aspectos como o fortalecimento da memória, por exemplo. Em relação ao combate a depressão e a socialização, o espaço social do jogo pode ser muito divertido, ajudando aos idosos a se socializarem. Além disso, abre espaço para a cultura.

Lembro da minha mãe, quando me contava dos cantores que ela assistiu nos cassinos do Rio de janeiro. Boa parte da vida cultural brasileira se deu dentro dos cassinos até meados dos anos 40.

(Entrevista nº 14 da série especial ‘Regulamentação de Jogos’ coordenada pelo Diretor Executivo do jornal Tribuna da Imprensa Livre, Luiz Carlos Prestes Filho – Entrevista publicada nesta sexta-feira, dia 19 de fevereiro)

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