Bets: estamos discutindo o problema de forma correta e honesta?

Sempre que vejo uma nova rodada de postagens e matérias sobre o mal que as bets causam à sociedade, me pego fazendo a mesma pergunta: as pessoas realmente se preocupam com o bem-estar da sociedade ou estão falando tanto delas porque o tema virou moda, que gera manchete, engajamento e palanque?
Antes que alguém torça o argumento: os problemas ligados às apostas existem e são sérios. Dependência, perda de controle, endividamento, famílias desestruturadas. Tudo isso merece prevenção, regulação firme e política pública de verdade. Não é disso que discordo.
O que me incomoda é esta indignação seletiva, a proporção do debate e, principalmente, a ausência de comparação.
O tamanho das bets
Em 2025, primeiro ano completo do mercado regulado, as bets faturaram R$ 37 bilhões no Brasil — esse é o GGR, a receita bruta das operadoras depois do pagamento dos prêmios, segundo dados da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. Foram 25,2 milhões de brasileiros apostando no mercado legal.[1]
E não vamos tapar o Sol com a peneira: apostas online geram problemas. Entre 2023 e 2024, dados do III LENAD estimam que aproximadamente 1,4 milhão de pessoas apresentavam padrão compatível com transtorno do jogo. O levantamento trata de jogos e apostas em geral (Mega-Sena, Jogo do Bicho e outros), não exclusivamente de apostas esportivas online.[2]
Mas também vale lembrar que, entre 2023 e 2024, o mercado não era regulado. Não apenas isso, estimativas apontam que entre 41% e 51% das apostas esportivas no Brasil ainda estão no mercado ilegal, enquanto pesquisa do Instituto Locomotiva indica que 61% dos apostadores afirmaram ter utilizado ao menos uma plataforma ilegal em 2025. Nesse ambiente, não há as mesmas exigências de controle, monitoramento, limites, autoexclusão e proteção ao jogador impostas às empresas autorizadas.
Portanto, ao analisar os danos associados às apostas, é fundamental separar o mercado regulado do ilegal.[3][4][5]
O álcool
A Euromonitor estimava em aproximadamente 14,9 bilhões de litros o mercado brasileiro de cerveja em 2025. Aplicando, como hipótese de cálculo, um preço médio de R$ 7 por litro, chegaríamos a aproximadamente R$ 104,3 bilhões gastos em cerveja em 2025, e não estou contabilizando destilados, vinho ou o mercado ilegal.[6]
Um estudo da Fiocruz estimou que, somente em 2019, o consumo de álcool esteve associado a 104,8 mil mortes no Brasil — aproximadamente 12 mortes por hora —, sendo que o problema não se resume a doenças hepáticas: o álcool está associado a doenças cardiovasculares, diversos tipos de câncer, doenças digestivas e neurológicas.[7]
Além disso, o álcool está associado a acidentes, agressões e outras causas externas para as mortes, sem contar os inúmeros casos de acidentes e violência não fatais e não registrados.[8]
O álcool também produz perdas de produtividade decorrentes de mortes prematuras, licenças médicas, afastamentos, aposentadorias precoces e perda de dias de trabalho. Em 2025, a Previdência Social concedeu 12.758 benefícios por incapacidade temporária com diagnóstico classificado no CID-10 F10, referente a transtornos mentais e comportamentais decorrentes do uso de álcool.
Esse número, contudo, representa apenas os afastamentos em que o álcool aparece diretamente como diagnóstico registrado. O dado não captura os afastamentos decorrentes de doenças, acidentes e outros agravos nos quais o consumo de álcool tenha atuado como fator causal ou contributivo, não havendo uma estatística oficial que permita quantificá-los com precisão.[9]
Os dados da Previdência também não abrangem afastamentos de até 15 dias nem afastamentos de servidores vinculados a regimes próprios de previdência.[10]
O tabaco
Uma estimativa construída a partir dos volumes de consumo e dos preços médios disponíveis sugere que o gasto dos consumidores com cigarros pode ter ficado na ordem de R$ 30 bilhões no mercado legal em 2025. A estimativa parte de cerca de 117,4 bilhões de cigarros consumidos, segundo levantamento da KPMG, e dos preços médios estimados pelo Ipsos/Ipec para o mercado legal, de aproximadamente R$ 8 por maço. Trata-se de uma estimativa de mercado, e não de um dado oficial de faturamento.[11]
Segundo a estimativa do INCA, divulgada em 2025, o tabagismo provoca aproximadamente 174 mil mortes por ano no Brasil, quase 20 por hora. Já o estudo econômico mais recente, baseado em dados de 2022, estimou em R$ 153,5 bilhões por ano o custo das doenças relacionadas ao tabagismo para o país: R$ 67,2 bilhões em custos médicos diretos e R$ 86,3 bilhões em custos indiretos, decorrentes principalmente da perda de produtividade por mortes prematuras, incapacidade e cuidado informal. Em resumo, mostra que para cada R$ 1 de lucro bruto da indústria do tabaco, o Brasil incorre em aproximadamente R$ 5,10 em custos relacionados ao tabagismo.[12][13]
Outros agentes
É possível fazer o mesmo tipo de análise em relação ao uso excessivo de telas e da internet. No Brasil, a média é de 9 horas e 13 minutos por dia conectado, das quais cerca de 3 horas e 37 minutos são dedicadas às redes sociais.[14]
Uma pesquisa do Instituto Cactus com a AtlasIntel indica que 43,5% das pessoas que apresentam sintomas de ansiedade afirmaram utilizar as redes sociais por três horas ou mais por dia.[15]
Sobre drogas, ao fim de 2023, quase 200 mil pessoas estavam presas por crimes previstos na Lei de Drogas. Aplicando a esse contingente o custo médio de aproximadamente R$ 1.800 mensais por preso, estimado em estudo do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), teríamos cerca de R$ 4 bilhões por ano apenas com custódia. Essa conta não é paga apenas pelo usuário de drogas: é rateada por toda a sociedade.[16][17][18]
Além disso, há uma infinidade de outros problemas de ordem social, gigantescos e amplamente conhecidos por todos.
A ironia é que, enquanto o Estado gasta bilhões nesse combate, há manifestações públicas de artistas que normalizam ou celebram o consumo de drogas em músicas, vídeos, shows e redes sociais, muitos dos quais constantemente aparecem na mídia criticando as bets.
É curioso perceber que o mesmo artista que seria execrado por anunciar uma bet licenciada e regular sequer é lembrado por fomentar e tratar como inofensivo o consumo de um produto que financia facções, prejudica a saúde das pessoas de inúmeras formas e está diretamente ligado à violência.
O ponto
Não estou defendendo as bets. Estou defendendo coerência.
Se uma atividade causa danos à sociedade, que se meçam esses danos e que ela seja regulada à altura. Se a justificativa para uma política pública é o dano social, precisamos medir esse dano de forma consistente e comparar magnitude, prevalência, causalidade e externalidades.
A régua precisa ser a mesma para todos. Se o critério é medir qual produto gera mais gastos, mais mortes, mais custos indiretos, mais comportamentos compulsivos e assim por diante, devemos colocar todas as indústrias citadas, e outras, na discussão.
Falando apenas da perda direta, nas bets, a aposta perdida gera perda de dinheiro; já no caso das bebidas e do tabaco, a perda decorre da compra de produtos nocivos.
Há ainda uma ironia que costuma passar despercebida: pagamos duas vezes: no consumo e no combate às consequências.
Nada disso torna o álcool, o cigarro etc. “iguais” às bets. São fenômenos diferentes entre si, com mecanismos diferentes, que exigem políticas públicas diferentes. A pergunta é outra: por que uma atividade é tratada como emergência nacional, enquanto outras — responsáveis, segundo diferentes estudos e metodologias, por centenas de milhares de mortes e por custos sociais que chegam a centenas de bilhões de reais — estão tão entranhadas em nossa cultura que simplesmente deixamos de enxergá-las?
Talvez porque seja mais fácil apontar o dedo para o vilão novo. O álcool está na mesa do jantar. O cigarro acompanha a sociedade há mais de um século. O celular está na mão de todo mundo, inclusive na de quem escreve — e na de quem lê — este texto.
Alguns artistas que hoje criticam as bets já ganharam muito dinheiro com propaganda de cerveja. O próprio presidente da República prometeu, em campanha, que o brasileiro iria voltar a ter dinheiro para comprar sua cervejinha.
O problema não é discutir as bets. O problema é discutir apenas as bets e esquecer todos os outros problemas, como se não existissem ou como se, por já estarem inseridos na sociedade, fossem aceitáveis, ou como se seus danos, por já estarem “contabilizados”, fossem, portanto, toleráveis.
A sociedade brasileira precisa de mais coerência — em todos os campos, diga-se. Precisamos nos preocupar menos com likes, cliques e compartilhamentos e trazer as discussões sobre assuntos relevantes para um patamar mais elevado, fundamentado e marcado por isenção crítica, sem agenda política, sem partidarismo e sem a necessidade de parecer moralmente superior, atacando apenas o problema da moda.
(*) Artur Rezende é Advogado especialista em Direito Empresarial, iGaming e Legal Ops, membro da Comissão de Jogos, Apostas e Jogo Responsável da OAB-SP
Nota metodológica: os números apresentados não são diretamente comparáveis entre si. Foram produzidos em anos diferentes, por instituições diferentes e mediante metodologias distintas. Alguns representam dados administrativos; outros são estimativas epidemiológicas ou econômicas; e alguns valores de mercado são cálculos derivados de volume e preço médio. A comparação, portanto, serve para dimensionar a ordem de grandeza dos fenômenos e demonstrar a necessidade de proporcionalidade no debate público, e não para afirmar que uma atividade produz exatamente X vezes mais dano que outra.
[1] Secretaria de Prêmios e Apostas / Ministério da Fazenda; GGR e 25,2 milhões de apostadores em 2025. Referência: Poder360. URL: https://www.poder360.com.br/poder-sportsmkt/bets-tiveram-receita-de-r-37-bilhoes-em-2025/
[2] Fiocruz / III LENAD; dados sobre transtorno do jogo. URL: https://fiocruz.br/noticia/2024/11/estudo-da-fiocruz-consumo-de-alcool-custa-r-18-bi-por-ano-ao-pais-e-causa-12-mortes
[3] LCA Consultores / IBJR; estimativa de 41% a 51% do mercado brasileiro de apostas em ambiente não regulado. URL: https://ibjr.org.br/wp-content/uploads/2025/09/LCA_IBJR_Dimensionamento_Mercado_ilegal.pdf
[4] Instituto Locomotiva; pesquisa de 2025 indicando 61% dos apostadores com ao menos uma aposta ilegal. URL: https://ilocomotiva.com.br/estudos/mercado-ilegal-apostas-brasil-2025/
[5] Ministério da Fazenda; regras de controle, armazenamento e transmissão de dados dos operadores autorizados. URL: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/composicao/orgaos/secretaria-de-premios-e-apostas/apostas-de-quota-fixa/tire-suas-duvidas/dados-e-informacoes/quais-dados-devem-ser-armazenados
[6] Kirin Holdings / Global Beer Consumption Report; volume de consumo de cerveja no Brasil. O valor de R$ 104,3 bilhões é cálculo hipotético do texto. URL: https://www.kirinholdings.com/en/newsroom/release/2025/0123_01.html
[7] Fiocruz; estudo sobre o impacto do consumo de álcool no Brasil, incluindo 104,8 mil mortes em 2019. URL: https://fiocruz.br/noticia/2024/11/estudo-da-fiocruz-consumo-de-alcool-custa-r-18-bi-por-ano-ao-pais-e-causa-12-mortes
[8] Fiocruz; estudo sobre o impacto do consumo de álcool no Brasil, incluindo 104,8 mil mortes em 2019. URL: https://fiocruz.br/noticia/2024/11/estudo-da-fiocruz-consumo-de-alcool-custa-r-18-bi-por-ano-ao-pais-e-causa-12-mortes
[9] Ministério da Previdência Social; benefícios por incapacidade temporária por CID-10, incluindo F10 em 2025. URL: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202601/previdencia-social-concede-546-254-beneficios-por-incapacidade-temporaria-por-transtornos-mentais-e-comportamentais
[10] Ministério da Previdência Social; benefícios por incapacidade temporária por CID-10, incluindo F10 em 2025. URL: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202601/previdencia-social-concede-546-254-beneficios-por-incapacidade-temporaria-por-transtornos-mentais-e-comportamentais
[11] KPMG / Ipsos-Ipec; fontes utilizadas na estimativa de gasto com cigarros. A cifra de R$ 30 bilhões é estimativa, não faturamento oficial. URL: https://www.kpmg.com/br/pt/home.html
[12] Instituto Nacional de Câncer (INCA); estimativa de 174 mil mortes anuais por tabagismo. URL: https://www.gov.br/inca/pt-br/canais-de-atendimento/imprensa/releases/2025/aconselhamento-em-consultas-de-rotina-impulsiona-cuidado-integral-para-o-controle-do-tabagismo
[13] INCA; estudo econômico com dados de 2022: R$ 153,5 bilhões em custos, R$ 67,2 bilhões diretos, R$ 86,3 bilhões indiretos e relação de R$ 5,10 para cada R$ 1 de lucro bruto. URL: https://www.gov.br/inca/pt-br/canais-de-atendimento/imprensa/releases/2025/a-cada-r-1-de-lucro-da-industria-do-tabaco-brasil-gasta-r-5-com-doencas-do-tabagismo
[14] Digital 2024 / We Are Social; tempo de uso da internet e redes sociais no Brasil. Referência jornalística: Poder360. URL: https://www.poder360.com.br/poder-tech/brasileiros-passam-9-horas-por-dia-nas-redes-sociais-diz-estudo/
[15] Instituto Cactus / AtlasIntel; Panorama da Saúde Mental. URL: https://www.institutocactus.org.br/panorama-da-saude-mental/
[16] Ministério da Justiça e Segurança Pública; balanço de 2025, incluindo 1,44 mil toneladas de maconha e R$ 9,5 bilhões retirados do crime organizado. URL: https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias/balanco-do-mjsp-registra-r-9-5-bilhoes-retirados-do-crime-organizado-e-1-44-mil-toneladas-de-maconha-apreendidas
[17] SISDEPEN; dados de 31/12/2023 sobre pessoas presas por crimes da Lei de Drogas. URL: https://www.gov.br/senappen/pt-br/servicos/sisdepen
[18] Conselho Nacional de Justiça; referência de custo médio mensal de aproximadamente R$ 1.800 por pessoa presa. URL: https://www.cnj.jus.br/customedio-de-pessoa-presa-no-brasil-e-de-r-1-800-por-mes-aponta-estudo/


