Bets na mira eleitoral: entre o discurso fácil e o risco de jogar fora a regulação junto com o “mercado cinza”

Apostas I 29.08.26

Por: Magno José

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Bets na mira eleitoral: entre o discurso fácil e o risco de jogar fora a regulação junto com o "mercado cinza"
Enquanto candidatos disputam quem promete acabar com as bets, operações recentes expõem o custo de seis anos sem regras do governo federal — não o fracasso dos 18 meses de mercado regulado

As casas de apostas se tornaram tema central nas campanhas para o governo de São Paulo e para a Presidência da República. A explicação não é só ideológica: pesquisas de opinião mostram um eleitorado majoritariamente hostil ao setor. A Latam Pulse Brasil, da AtlasIntel, aponta que a grande maioria dos brasileiros vê as apostas online como nocivas à sociedade, e mais da metade enxerga nelas “somente prejuízos”. Uma pesquisa da More in Common com a Ipsos-Ipec reforça o quadro: cerca de um quarto dos entrevistados diz que votaria com mais disposição em candidatos que defendem restringir as bets.

Segundo reportagem do Estadão, 86,7% dos brasileiros veem as bets como nocivas; isso empurra todos os pré-candidatos para discursos de restrição ou proibição total, com pouco espaço para nuance técnica.

Diante desse cenário, a corrida presidencial e a disputa em São Paulo passaram a girar em torno de quem “criou” o problema e quem promete resolvê-lo com mais dureza. Lula subiu o tom contra as empresas de apostas; Tarcísio de Freitas atribuiu o avanço das bets à regulamentação aprovada no governo Lula (por Fernando Haddad, então ministro da Fazenda); Haddad devolveu a responsabilidade ao governo Bolsonaro, que teria sido omisso enquanto o problema crescia. Romeu Zema promete acabar com as bets como primeiro ato de governo; Renan Santos foi na mesma linha, associando publicamente empresas do setor a lavagem de dinheiro; Ronaldo Caiado fala em “mão pesada” sem defender proibição total; Flávio Bolsonaro evita o tema diretamente, mas sua campanha sinaliza revisão da regulamentação.

O ponto cego do discurso: proibir não é o mesmo que resolver

A reportagem abre espaço para o argumento que sustenta a defesa do mercado regulado: as propostas mais radicais de proibição total aparecem, quase sempre, sem qualquer explicação sobre viabilidade prática ou efeitos colaterais — o que faz o próprio mercado de apostas classificá-las como populistas.

O contra-argumento técnico é conhecido, mas vale reforçar: existe demanda consolidada por apostas no Brasil, e uma proibição não elimina essa demanda — ela a empurra para o mercado ilegal, que opera sem qualquer controle, sem recolhimento de impostos e sem as salvaguardas que a regulação tentou instituir. Em 2025, primeiro ano do mercado regulado, a arrecadação do governo com o setor girou em torno de R$ 9 bilhões — recurso que desaparece caso o modelo seja simplesmente varrido do mapa em nome de um gesto político.

Uma possível proibição não elimina demanda, apenas a transfere para o mercado ilegal — sem arrecadação, sem controle, sem proteção ao apostador.

O economista Lauro Gonzalez, da FGV, oferece uma leitura útil para entender por que as bets “grudaram” na pauta eleitoral: elas funcionam como explicação simbólica para o descompasso entre indicadores macroeconômicos positivos (renda em alta, desemprego baixo) e a insatisfação persistente da população. Bets e superendividamento, na sua leitura, “jogam areia” nos dados positivos — o que é diferente de dizer que o modelo regulatório em si é o problema.

Jogo de Sombras: operação contra o passado, não contra a regulação

A Operação Jogo de Sombras, deflagrada contra duas das marcas conhecidas do setor, é o ponto mais sensível para quem defende o mercado regulado, porque é também o mais fácil de deturpar politicamente.

O detalhe essencial, destacado pela própria Receita Federal na coletiva sobre a operação, é o recorte temporal: as suspeitas de evasão de divisas, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro miram o período entre 2018 e 2024 — antes da regulamentação entrar em vigor, em janeiro de 2025. Nesses anos, as bets operavam num limbo jurídico criado pela lei de 2018 (sancionada por Michel Temer) e nunca regulamentado a tempo pelo governo Bolsonaro. Sem sede fiscal clara no Brasil, sem fiscalização efetiva e sem regras de tributação, floresceu o que a reportagem chama de “mercado cinza”.

Ou seja: a operação não comprova que a regulação falhou — ela expõe o custo de anos sem regulação nenhuma. É exatamente esse período de vácuo que o governo Lula tenta capitalizar politicamente como “herança maldita” deixada por Bolsonaro, ao mesmo tempo em que tenta se blindar da acusação de ser o “pai” das bets.

Mas essa narrativa oficial também tem fragilidades que merecem registro editorial: dentro da própria regulação do governo Lula, já houve concessão de licença a empresas ligadas ao jogo do bicho e a companhias que atuavam ilegalmente antes da autorização; a equipe de fiscalização do Ministério da Fazenda é enxuta; e as multas aplicadas até agora são inexpressivas diante do faturamento do setor.

O risco real: confundir os 6 anos de vácuo com os 18 meses de regulação

O maior risco apontado — ainda que de forma indireta — pelas três reportagens do Estadão é o de generalização. Das 85 empresas autorizadas a operar 188 sites hoje, boa parte tem histórico de atuação no período de “mercado cinza”, muitas com operações simultâneas dentro e fora do Brasil. Isso alimenta o temor, já sentido pelo mercado legal, de que novas operações policiais mirando o passado sejam lidas publicamente como prova de que a regulação atual fracassou — quando na verdade apuram exatamente o oposto: condutas anteriores a ela.

Esse é o núcleo do argumento a ser reforçado: separar o diagnóstico (endividamento, saúde pública, crimes financeiros ligados ao período sem regras) da solução defendida pelo mercado regulado (mais fiscalização, mais transparência, cumprimento efetivo da lei vigente) evita que o debate eleitoral — movido por pesquisas de opinião e disputa de narrativa entre Lula e a oposição — jogue fora, junto com a água suja do mercado cinza, o próprio modelo que tentou colocar ordem nesse mercado.

 

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