Concorrência põe jogo do bicho em crise no Paraná

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Criado em 1892, o jogo do bicho enfrenta a pior crise de sua história. A concorrência desleal com os jogos governamentais e particulares legalizados, fez com que o tradicional coletor de apostas, conhecido como cambista, se tornasse raro no mercado.
Atualmente, comerciantes, operários e donas-de-casa que quiserem arriscar a sorte num dos 25 bichos que compõem a loteria mais antiga do país, são obrigados a se deslocar até as lojas de apostas, precariamente instaladas em alguns pontos da cidade.
De tão decadente, o jogo, proibido por lei desde 1944, já não atrai a atenção nem mesmo das autoridades. “Combater o jogo do bicho é desempregar centenas de aposentados, deficientes físicos e pessoas recusadas pelo mercado de trabalho”, observa um “banqueiro”, que disputa o mercado local com cinco outros concorrentes.
A reportagem de O DIÁRIO saiu às ruas para entender o que aconteceu com o jogo do bicho e comprovou que apenas pessoas na faixa etária acima dos 30 anos de idade e incluídas na chamada classe “C” (média salarial em torno de R$ 300,00) ainda acreditam e investem neste tipo de jogatina.
São trabalhadores que não almejam grandes lucros e arriscam poucos centavos para tentar ganhar entre R$ 50,00 e R$ 1.000,00, quantia suficiente para bancar um final de semana regado a cerveja, refrigerante e churrasco.
A forma de pagamento, sempre à vista, é o que mais atrai os apostadores.
“Já acertei várias vezes e sempre me pagaram certinho”, diz o ajudante Jonas R.S., 32, que pediu para não ser identificado. Jonas conta que aprendeu a jogar com o pai, já falecido, o qual classificou como apostador inveterado. “Bastava ele sonhar com alguma coisa e logo pela manhã fazia a “fezinha” (aposta), contou.
Caça
Em Maringá, o jogo do bicho foi introduzido em 1956 pelo comerciante conhecido como Geara, dono de uma casa de snooker em frente ao extinto Cine Maringá. Vítima de perseguição policial, Geara desistiu do jogo depois de ser preso várias vezes.
No início da década de 60, Tavares e Abel, ligados ao meio jornalístico, assumiram o controle do negócio, mas além da polícia, tiveram de enfrentar a fúria dos donos de casas lotéricas, que passaram a pressionar o então prefeito João Paulino, exigindo o fim da jogatina. Iniciou-se, então, uma verdadeira caça às bruxas, com prisões de donos das bancas, funcionários e apostadores. Apesar das perseguições, o jogo do bicho resistiu, mesmo durante o período ditatorial.
Os sorteios, que aconteciam apenas nas terças, quartas, sextas e sábados, dias de extrações das loterias gaúcha, federal e estadual, passaram a ser diários a partir de 1977, época do lançamento da chamada Paratodos, tipo de extração comandada por um pool de “banqueiros” do Rio de Janeiro e São Paulo.
Os resultados – válidos para todo país – eram repassados aos estados através de programas de rádios ou telefones.
Alguns jornais da época também divulgavam as extrações, mas para evitar complicações com a polícia e a Justiça, infiltravam as milhares sorteadas nos cinco primeiros horóscopos do zodíaco como sendo “números da sorte”.
Poucas pessoas conheciam o esquema. Algumas autoridades até sabiam, mas não se arriscavam a se indispor com os donos dos jornais.
Passado o período de caça às bruxas, o jogo do bicho foi se acomodando e ampliando suas áreas de atuação. Os “acertos” firmados com autoridades fizeram com que os cambistas passassem a atuar de forma mais escancarada, preenchendo jogos em calçadas e praças.
Propina
Prisões e bancas estouradas só aconteciam quando a propina deixava de ser paga em dia.
Apesar de concentrar um grande volume de apostas, Maringá nunca assistiu cenas de violência ligadas ao jogo do bicho, como registrado em outras cidades do país. A explicação para isso é simples: o não envolvimento com drogas e bandidos.
Um “banqueiro” maringaense explica que a violência ocorrida na década de 80 em São Paulo e Rio de Janeiro começou depois após a morte dos lideres do jogo. Os filhos assumiram o comando e passaram a formar máfias organizadas, investindo parte dos lucros em drogas e na contratação de pistoleiros para tomar pontos dos concorrentes. O que se viu foi um banho de sangue sem precedentes na história do jogo do bicho.
O clima só mudou após o assassinato, em pleno centro do Rio de Janeiro, do ex-policial civil Mariel Mariscot, que depois de ser expulso da Polícia Civil, passou a trabalhar para um conhecido “banqueiro” carioca, tomando pontos de apostas e eliminando concorrentes.
Houve, no Paraná, uma tentativa frustrada de aliar o jogo do bicho ao tráfico drogas. Em dezembro de 1991, por ordem do governador Roberto Requião, as polícias Civil e Militar do Paraná realizaram a chamada “Operação Grande Festa”. Todas as bancas do Estado foram invadidas e fechadas simultaneamente, mas nada que comprometesse o jogo foi encontrado.
Centrais
O clima de passividade em Maringá perdura até hoje. Há cerca de um ano os seis “banqueiros” da cidade resolveram se unir em grupos para reduzir custos. As apostas coletadas nos pontos de venda vão para duas centrais (endereços mantidos em sigilo) e controladas por representantes escolhidos a dedo.
Ao todo, o jogo do bicho emprega 800 pessoas, todas com registro em carteira, seguro de vida e plano de saúde. “A união possibilitou que todos saíssem ganhando, já que os custos para manter as bancas funcionando são muito alto”, observou um dos “banqueiros”.
A reportagem não conseguiu apurar a arrecadação mensal, mas descobriu que entre 53% e 77% do dinheiro coletado é pago em apostas. É a loteria que mais paga no país, o que justifica a atração das pessoas por este tipo de jogo.
Ainda de acordo com o “banqueiro”, a atual tolerância das autoridades em relação ao jogo do bicho está ligada ao aspecto social. Segundo ele, juízes, promotores e delegados sabem que o jogo emprega pessoas sem chances no mercado de trabalho, como deficientes físicos e aposentados que utilizam suas comissões para complementar o pouco que recebem do governo.
“Tenho cambistas que só conseguem comprar alimentos e medicamentos graças ao que ganham com as comissões”, cita. A população sabe disso e sente uma certa repulsa ao ver um cambista ou apostador sendo detido e levado para a delegacia. A pena para este tipo de contravenção varia entre três e seis meses de prisão simples.
A história do Jogo do Bicho
O Barão João Baptista Vianna Drummond, o “Barão de Drummond”, diretor da Companhia de Ferro-Carril de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, passa por dificuldades financeiras e resolve organizar um prêmio diário para manter seu Jardim Zoológico, montado na encosta da serra do Engenho Novo.
No dia 3 de julho de 1892, o barão reúne um séqüito de convidados especiais para um coquetel e anuncia o novo sorteio, direcionado a todos os freqüentadores do zoológico.
A premiação consistia na escolha aleatória de um dos 25 animais do parque. O nome do bicho era anotado num papel, posteriormente dobrado e colocado dentro de uma gaiola, que permanecia erguida durante todo o dia à vista das pessoas, de forma a evitar fraudes.
A gaiola era recolhida todo fim da tarde e o nome do bicho anunciado. O frequentador que possuía ingresso com o mesmo animal receberia de prêmio o equivalente a vinte vezes o valor pago na entrada. “Grande festa hoje no Jardim Zoológico. Inaugura-se uma empresa de divertimentos públicos, com rifas em que se pode tirar até 40:000$000. Uma fortuna”, anunciou o Diário do Commércio na sua edição do dia 3 de julho de 1892.
“Às 5 horas desceu a caixa que continha a figura do animal que dominava o dia, de acordo com o programa.
O avestruz foi o animal vencedor e que deu aos donos dos bilhetes respectivos os 20$ de prêmio”, confirmou o Diário de Notícias. “Venceu ontem o gato. A empresa pagou prêmios na importância de 1:420$000. O jardim foi visitado por 1350 pessoas”, voltou a destacar o Diário do Commércio na edição do dia 11 de julho do mesmo ano.
Críticas
Ainda no mesmo mês de seu lançamento, o sorteio ganhou sua primeira crítica. Na edição do dia 23 de julho, o jornal O Tempo, do Rio de Janeiro, trouxe em uma de suas páginas um alerta ao chefe de polícia. “…posta em prática essa diversão, se verifica que tem ela o alcance de verdadeiro jogo, manifestamente proibido.
Os bilhetes expostos à venda contém a esperança puramente aleatória de um prêmio em dinheiro. Esta diversão, prejudicial aos interesses dos incautos, que com a esperança enganadora de um incerto lucro, se deixam ingenuamente seduzir. É precisamente um verdadeiro jogo de azar, porque a perda e o ganho dependem exclusivamente do acaso e da sorte”, completa. “Quem nasceu para dez réis nunca chega a vintém – a verdade que nenhum caipora é capaz de contestar. Outro dia joguei no peru e saiu pavão, galináceo como aquele e tão raivoso como o seu parente, mas com a diferença de que um me daria vinte mil réis e o outro fez-me perder mil réis.
Comprei uma entrada com o gato e perdi nas garras do tigre.
Para maior dos pecados, quando contava desforrar-me com o elefante, cuja corpulência e força devia arrasar com tudo, caiu da caixinha a estampa corcunda do camelo. Os bichos fogem do caipora como o demo da calderinha. Caso singular: perco sempre na mesma”. Artigo publicado pelo jornalista Maximo Job na edição de 23 de julho de 1892 no jornal O Tempo.
Em Pernambuco, em 1895, o vendedor de passagens da estação de trens, Virgilio Campello, já completava sua renda familiar revendendo a “Loteria do Barão de Drummond” aos moradores das cercanias do bairro de Casa Forte, em Recife. Em 1979 é criada a AVAL – Associação dos Vendedores Autônomos de Loterias –autorizada a administrar o Jogo do Bicho em Pernambuco. RS
O Diário de Maringá – Paraná – Roberto Silva

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