CPI da Manipulação de Resultados vai refazer passos da investigação de esquema descoberto em Goiás

Apostas I 29.05.23

Por: Magno José

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Repercussão positiva sobre proposta de tributar os sites de apostas esportivas
Comissão inicia os trabalhos nesta terça-feira, dia 23, e convocações de investigadores e de cartolas deverão ser aprovadas. Confira as principais reportagens sobre manipulação de resultados publicadas na grande mídia neste final de semana

A CPI da Manipulação de Resultados vai começar refazendo caminhos percorridos pelo Ministério Público de Goiás (MP-GO) em busca de novas frentes de investigação sobre o esquema de apostas revelado pelos promotores de Justiça. O plano de trabalho e as primeiras deliberações deverão ser votados na primeira reunião do colegiado, marcada para a tarde desta terça-feira, dia 23, na Câmara dos Deputados.

A pauta da sessão de abertura dos trabalhos tem dez requerimentos de deputados do União Brasil, Republicanos e Patriotas. Alguns tratam dos mesmos temas. A expectativa é a de que sejam aprovados pedidos de acesso à íntegra da investigação realizada pelo MP-GO e das convocações do presidente do Vila Nova, Hugo Jorge Bravo, e do promotor de Justiça Fernando Cesconetto, responsável pela chamada Operação Penalidade Máxima.

Em entrevista ao Estadão, Cesconetto contou que os promotores estão focados em detalhar a lavagem de dinheiro por meio da manipulação de jogos para faturamento com apostas e buscar outros intermediários e financiadores do esquema.

Major da Polícia Militar de Goiás e presidente do Vila Nova, Hugo Bravo foi quem iniciou uma investigação própria e a entregou ao Ministério Público. Ele apresentou as primeiras informações e nomes sobre o aliciamento a jogadores de futebol em esquema de apostas.

A CPI foi proposta pelo deputado Felipe Carreras (PSB-PE), relator da comissão. Ele protocolou o pedido dias depois de a primeira fase da operação ter sido deflagrada. A comissão deve avançar sobre o funcionamento das casas de apostas esportivas no Brasil, que se tornaram o principal financiador do futebol brasileiro.

“Vamos ouvir todos os atores, desde quem organiza as competições até as empresas. Têm casas de apostas idôneas, mas também tem as com suspeição em cima delas”, afirmou ao Estadão. O presidente da CPI, deputado Júlio Arcoverde (Progressistas-PI), tem um encontro marcado nesta terça com o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL) para tratar do assunto. (O Estado de S.Paulo)

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Globo Online – Máfia das apostas: rebaixado, Juventude foi time com mais atletas envolvidos

Nenhum jogador atua mais pelo clube gaúcho. Dois foram denunciados, um fez acordo e mais dois estão apenas citados

Ligação para apostador direto do vestiário, um jogador que aliciava colegas para a quadrilha e um cartão amarelo tomado apenas cinco minutos de jogo. Todas essas situações, reveladas em mensagens obtidas pela Operação Penalidade Máxima, aconteceram no Brasileirão de 2022 com o Juventude, que terminou a competição na última colocação com apenas 22 pontos — a quarta pior campanha da história dos pontos corridos. Um mapeamento do escândalo das apostas feito pelo GLOBO a partir da análise das 2.686 páginas da investigação do Ministério Público de Goiás (MPGO) revela que o alviverde é o time envolvido em mais jogos com suspeitas de manipulação: a máfia das apostas fez acordos com atletas da equipe gaúcha em cinco partidas diferentes da Série A somente entre setembro e novembro de 2022.

O levantamento, que deu origem a um mapa interativo sobre o escândalo das apostas disponível no site do jornal, também revela que o Juventude é um dos clubes com mais atletas envolvidos no esquema de apostas ilegais: cinco jogadores que atuavam pela equipe de Caxias do Sul — Gabriel Tota, Paulo Miranda, Moraes, Vitor Mendes e Pará — foram aliciados pelos apostadores para tomarem cartões amarelos. O Sampaio Corrêa, que terminou o ano na 14ª colocação da Série B, também teve cinco atletas cooptados pela quadrilha. Na ferramenta, os leitores podem conferir os resultados, o resumo das apostas feitas, os jogadores aliciados e as equipes envolvidas em cada uma das partidas suspeitas.

A primeira partida identificada pelo MP-GO em que atletas do Juventude foram aliciados foi o empate em 1 a 1 contra o Avaí, em 3 de setembro. Na ocasião, o nome do zagueiro Vitor Mendes — hoje afastado pelo Fluminense — apareceu numa lista de combinações de apostas compartilhada num grupo de apostadores na véspera da partida. Mendes, de fato, foi punido com cartão amarelo aos 44 minutos do primeiro tempo. Depois do jogo, o nome do zagueiro foi novamente mencionado, dessa vez numa lista de jogadores a quem a quadrilha devia dinheiro: o jogador teria aceitado participar do esquema em troca de R$ 50 mil. Naquela rodada, a quadrilha teve lucro de R$ 730 mil.

‘Trago vários pra você’

O sucesso motivou uma nova rodada de apostas para a rodada seguinte — e os apostadores, inicialmente, contavam com Mendes. “Ele operou semana passada com nois (sic). Vai receber essa semana a outra parte! Resumo: ele foi titular e fez no primeiro tempo! (sic)”, afirmou Bruno Lopez, o BL, apontado pelo MP-GO como chefe da quadrilha, aos comparsas. A investigação também obteve uma conversa entre Vitor Mendes e BL, em que os dois fazem planos para a a próxima rodada. “Você tem que trazer jogador pra mim. Ganha uma comissão por fora também”, disse Bruno. Mendes respondeu: “Você tem que me quitar que aí irmão trago vários pra você”.

A quadrilha, entretanto, acabou desistindo de fechar com Mendes para o jogo seguinte, contra o Palmeias. “Adicionar ele não tá mudando a liquidez”, afirmou Thiago Chambó, um dos apostadores, no dia da partida. Ele se referia ao retorno das apostas após descontados os custos com o pagamento dos jogadores. Mas o Juventude ainda tinha outro jogador na lista de acordos da quadrilha para a rodada: o lateral-esquerdo Moraes, que começou o jogo no banco de reservas, entrou aos 22 minutos do segundo tempo e tomou cartão amarelo cinco minutos depois. A equipe gaúcha perdeu a partida por 2 a 1.

“Eficiente o menino, já tomou com cinco minutos de jogo”, comemorou Victor Coimbra, um dos apostadores, no momento em que Moraes foi punido. “Carai, esse moleque é brabo mesmo hein, é dos nossos!”, respondeu Guilherme Alpino.

Na rodada seguinte, o Juventude jogaria contra o Fortaleza — e atletas do clube seguiram em contato com a quadrilha. Após a mulher de BL fazer uma transferência de R$ 35 mil para uma conta em seu nome, Vitor Mendes voltou para a lista de apostas que seriam feitas pelo grupo e ainda indicou um jogador para participar do esquema: o meia Max Alves, do Colorado Rapids (EUA), time da MLS. “Mendes é jogador nosso. Já quitamos ele e pagamos sinal. Ele que trouxe esse da MLS pra nós. Ele é responsa Já fez com nois uma vez. Confiança!”, escreveu BL.

Outro jogador do Juventude aliciado para o jogo contra o Fortaleza foi o zagueiro Paulo Miranda. Segundo a denúncia do MP-GO, a quadrilha prometeu R$ 60 mil para que ele tomasse um cartão amarelo, sendo que R$ 5 mil foram efetivamente pagos. O depósito foi feito na conta de outro atleta do elenco, o meia Gabriel Tota, que também era próximo dos apostadores. Vitor Mendes e Paulo Miranda levaram cartões, respectivamente aos 19 minutos do primeiro tempo e aos 41 da segunda etapa.

Acordo não funciona

No dia 16 de outubro, a poucos minutos do Juventude entrar em campo para enfrentar o Atlético-GO, jogadores da equipe gaúcho fizeram uma chamada de vídeo com os apostadores. “Ó, o homem que dá dinheiro pra nós tá aqui”, teria dito Gabriel Tota segundo o relato de BL aos comparsas. Prints da ligação foram obtidos pelo MP-GO. Nos dias que antecederam a partida, os apostadores haviam fechado um acordo com Tota para que ele tomasse um cartão amarelo. No entanto, como o meia foi informado que não seria titular, ele indicou um colega, Pará, para tomar o cartão. Como ambos não entraram em campo, o acordo não funcionou nessa rodada.

Os contatos entre a quadrilha e os jogadores do Juventude foram retomados em novembro, antes do jogo contra o Goiás. Moraes e Paulo Miranda aceitaram receber R$ 50 mil cada para tomar cartões amarelos. O meia recebeu adiantamento de R$ 20 mil e o zagueiro, de R$ 10 mil, que foram depositados na conta de Gabriel Tota. O time entrou em campo matematicamente rebaixado, e os dois atletas cooptados foram punidos logo aos cinco minutos.

Como o site de apostas inicialmente não computou o cartão amarelo de Paulo Miranda, os apostadores ficaram preocupados. “Qual a fita do PM?”, perguntou BL a Tota logo após o apito final. “Ele tomou, tá na súmula. Antes do intervalo, nós fomos perguntar certinho”, respondeu o jogador. O cartão, de fato, foi computado.

Gabriel Tota e Paulo Miranda — ambos atualmente sem clube — foram denunciados e são réus na Justiça de Goiás. Moraes, hoje na Aparecidense-GO, fez um acordo com o MP e é testemunha no processo. Vitor Mendes e Pará (Santo André) foram apenas citados nas conversas. O Juventude disputa a Série B do Brasileiro. (O Globo – Esporte)

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Globo Online – Ceará e Cuiabá: partida do Brasileirão teve aliciados pela máfia das apostas dos dois lados do campo

Fato aconteceu no Campeonato Brasileiro de 2022, na partida entre Ceará e Cuiabá

Num jogo do Campeonato Brasileiro do ano passado, a máfia das apostas conseguiu aliciar jogadores dos dois times envolvidos para levarem cartões amarelos. Documentos que fazem parte da Operação Penalidade Máxima revelam que, nos dias que antecederam a partida entre Cuiabá e Ceará, no Castelão, a quadrilha de apostadores conseguiu cooptar dois atletas de cada lado: Igor Cariús e Denilson Alves, do Dourado, e Nino Paraíba e Richard, do Vozão. Segundo mensagens extraídas dos celulares dos apostadores, os jogadores sabiam que seus adversários também faziam parte do esquema — e, durante o jogo, todos foram punidos com cartões. O confronto terminou empatado em 1 a 1.

A situação inusitada veio à tona no mapeamento do escândalo das apostas feito pelo GLOBO a partir da análise das 2.686 páginas da investigação do MPGO. O levantamento deu origem a um mapa interativo sobre o escândalo das apostas, disponível no site do jornal. Na ferramenta, os leitores podem conferir os resultados, o resumo das apostas feitas, os jogadores aliciados e as equipes envolvidas em cada uma das partidas suspeitas.

O lateral Igor Cariús, um dos atletas aliciados na partida, foi um dos 15 jogadores denunciados pelo MP e atualmente é réu na Justiça de Goiás. Na véspera do jogo, o nome de Cariús, que era do Cuiabá e hoje atua pelo Sport, estava numa lista de jogadores enviada, via WhatsApp, a um grupo de apostadores por Bruno Lopez, o BL, apontado pelo MP como chefe da quadrilha. Junto aos nomes dos jogadores que fariam parte do esquema, Lopez escreveu: “Operação FDS (fim de semana), lista fechada”.

Logo em seguida, o apostador encaminhou ao grupo um comprovante de transferência bancária no valor de R$ 5 mil. O MPGO descobriu que a conta que recebeu a quantia — um adiantamento pago pelos apostadores como parte do acordo — pertence a um primo da esposa de Cariús.

Outro jogador do Cuiabá também estava na lista de jogadores da “Operação FDS”: Denilson Alves. O meia entrou no esquema graças à indicação de um amigo, o equatoriano Léo Realpe, do Bragantino. Como não seria titular naquela rodada, Realpe passou o nome de Denilson à quadrilha, como Bruno Lopez contou a seus comparsas: “O Realpe foi pro banco, certo? Só que ele mesmo indicou esse Denílson Alves, tá ligado? Aí esse Denílson Alves pediu mais cinco mil de sinal, eu vou mandar aqui agora, certo?”.

Do lado do Ceará, a quadrilha aliciou Nino Paraíba e Richard. O lateral, atualmente sem clube, foi um dos primeiros “confirmados” na lista de acordos fechados pelos apostadores para aquele final de semana: “Nino é ponta firme, eu falo com ele direto, irmão, eu deposito direto na conta da mãe dele, os depósitos, pode ver ó, tudo no CPF da mãe dele, entendeu? Tudo quente”, disse BL num áudio enviado aos comparsas.

Já Richard, de acordo com as mensagens, também fechou um acordo com a quadrilha na véspera do jogo. “E agora acabei de fechar o Richard, entendeu? Cerejinha no bolo, seis jogadores, vamo pra cima, essa é a lista do final de semana rapaziada”, disse Bruno aos demais apostadores. No entanto, apenas 15 minutos depois, o grupo decidiu tirar o volante, afastado do Cruzeiro, da lista por suspeita de vazamento do acordo: o retorno da aposta num cartão amarelo levado por Richard estava diminuindo vertiginosamente, o que acendeu o alerta de BL e seus comparsas.

“Esse Richard aí é um sem vergonha. Não sei se é ele, se é empresário, quem que vocês tá entrando em contato aí. É um pilantra, um safado, um sem vergonha mano, porque já bateu nos cara aqui”, disse, num áudio enviado ao grupo, um dos apostadores, identificado como Guilherme Alpino. Richard chegou, inclusive, a ser questionado pela quadrilha, e negou ter vazado que tomaria um amarelo. “Durante a semana veio uns três nego (sic) querendo fechar algo comigo e não fecho com ninguém a não ser você. Sou papo reto, bagulho não é brincadeira. Mas se o man (sic) aí não quiser mais é isso mesmo”, escreveu o jogador. Apesar de citados nas conversas, Richard, Nino Paraíba e Denilson Alves não foram denunciados pelo MPGO.

Enquanto a partida acontecia, os apostadores comemoravam os cartões que haviam combinado previamente. “Igor tomou”, escreveu um. “Denilson também”, respondeu outro. Aos 6 minutos do 2º tempo, quando Igor Cariús levou o segundo cartão amarelo e foi expulso, um dos integrantes da quadrilha ironizou: “Foi expulso o Igor. Levou a sério o bichão, o cara é doido”. Quatro minutos depois, foi a vez de Nino Paraíba ser punido. “Esse é brabo, só puxou”, comentou um apostador. Mesmo sem ter fechado com a quadrilha, Richard também levou um cartão.

Depois do jogo, BL revelou aos comparsas que contou aos jogadores cooptados que seus adversários também integravam o esquema. “Cê não viu nos primeiros lances, parça, ele já largou a mão no Nino. Eu pus dois que ia bater de frente, eu dei um toque né? Falei pro Nino e falei pro Igor. Falei: ‘Ó, o Nino é nosso se for bater de frente na marcação e quiser arrumar confusão com ele, arruma!’ Falei pro Igor a mesma coisa: ‘Ó, o Igor é nosso, bate de frente com ele, se quiser arrumar, arruma’. O Igor no começo já queria ciscar, bicho é doido mesmo”, disse o chefe da quadrilha.

A investigação do MPGO também descobriu que, apesar de os acordos terem sido cumpridos, os jogadores não foram pagos na semana seguinte — o que motivou cobranças dos atletas. “Pra cobrar vocês são um leão, pra pagar um gatinho”, escreveu Igor Cariús a um dos apostadores em 27 de outubro de 2022. (O Globo – Esporte)

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VEJA – Máfia das apostas: jogador confessa fraude contra São Paulo e Flamengo

Com declaração de Nino Paraíba, chega a dez o número de jogos da Série A de 2022 manipulados

O lateral-direito Nino Paraíba, atualmente sem clube depois que foi dispensado pelo América-MG, assinou um acordo de cooperação com o Ministério Público de Goiás, no âmbito das investigações que apuram condutas e responsabilidades de atletas e empresários que manipularam jogos esportivos para obter ganhos financeiros em sites de apostas. Conhecida como “máfia das apostas”, a prática criminosa resultou em alterações de dez partidas da Série A do Brasileirão do ano passado. O número é maior do que os oito jogos divulgados até então devido às confissões de Nino Paraíba.

Além de levar um cartão amarelo no duelo entre Ceará (clube que ele defendia) e Cuiabá, em outubro de 2022, o atleta recebeu as mesmas advertências contra o São Paulo, em 18 de setembro, e contra o Flamengo, duas semanas antes. Para o “combo”, Nino levou da quadrilha 180.000 reais.

Como confessou os crimes e está disposto a falar mais do que disse até então, Nino Paraíba foi agraciado com a proposta do MP goiano para não ser processado e se livrar de uma ação penal. Para isso, pagará uma multa de 160.000 reais, parcelada em vinte prestações de 8.000 reais.

O caso

Em março passado, o Ministério Público de Goiás ofereceu uma nova denúncia contra uma quadrilha que manipulava jogos de futebol para obter ganhos financeiros em sites de apostas esportivas. Além do homem apontado como líder do bando, Bruno Lopez, o BL, outras dezesseis pessoas estão na mira dos promotores e se tornaram rés.

Na nova denúncia, feita com base em análises de conversas em grupos de aplicativos de mensagens, após apreensão de equipamentos e perícias, os promotores conseguiram mapear a atuação de todos os atores nos respectivos jogos. Os pagamentos variavam e se referiam a atitudes como cartões amarelos e vermelhos, além do cometimento de pênaltis.

Na ocasião, VEJA mostrou com exclusividade as conversas do jogador Eduardo Bauermann, do Santos, entre outras que envolveram a quadrilha.

Em novembro do ano passado, Bauermann foi chamado no WhatsApp por um dos integrantes do bando. A oferta: levar cartão amarelo no jogo contra o Avaí. Como “entrada”, o jogador recebeu 50.000 reais. No entanto, não houve a punição de advertência, o que deixou a quadrilha apreensiva e gerou as primeiras ameaças.

No jogo seguinte, como forma de recuperar a credibilidade junto à organização criminosa, segundo os investigadores, Bauermann aceitou a segunda proposta: contra o Botafogo, ele deveria ser expulso. De fato ele levou cartão vermelho, mas depois que o juiz apitou o final da partida. A segunda “pisada na bola” rendeu uma ampla discussão entre as partes. (VEJA – Coluna Maquiavel)

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UOL Esporte – Jogadores combinavam manipulação e apostas em grupo chamado ‘Lula 13

Jogadores do Sampaio Corrêa do Maranhão usavam um grupo do WhatsApp chamado “Lula 13” para falar de apostas e da manipulação de jogos da Série B

Cinco jogadores do Sampaio Corrêa usavam um grupo do WhatsApp chamado “Lula 13” para falar de apostas e da manipulação de jogos da Série B. O grupo foi criado em novembro do ano passado, dias depois das eleições para presidente.

Os prints com as mensagens do grupo foram encontrados no celular do lateral Mateusinho, um dos membros mais ativos. Nas mensagens, ele é elogiado pelos colegas por ter cometido um pênalti na partida Sampaio 2 x 1 Londrina na última rodada da Série B. “Me deu uma missão pra mim matar… ou mato ou morro, mano. Não tinha jeito mano. Eu falei: ‘Ihh, alguém vai se fud… aí, porque eu vou dar o carrinho”, disse o lateral, hoje no Cuiabá, da Série A.

Segundo o MP, o pênalti tinha sido encomendado pelos empresários que fraudavam partidas pra lucrar com apostas. Os jogadores do grupo “Lula 13” comemoram o pênalti, mas lamentaram que outra aposta na mesma rodada deu errado, o que causou prejuízo ao esquema.

Além de Mateusinho, faziam parte do grupo os zagueiros Paulo Sérgio e Allan Godoi, o volante André Queixo e o atacante Ygor Catatau. Todos foram denunciados por manipulação de evento esportivo. Outros dois participantes do grupo, um goleiro e um jogador de pôquer, não foram denunciados e, por isso, seus nomes não serão publicados.

O MP encontrou um comprovante de depósito de R$ 10 mil na conta de Paulo Sérgio, o que seria um adiantamento aos jogadores pelo pênalti. Questionados pelos promotores, os atletas negaram o crime e disseram que apenas falavam no grupo sobre apostas legalizadas, pôquer e videogame.

Por que esse nome pro grupo?

Não há no processo o motivo pelo qual os jogadores escolheram o nome do atual presidente para o grupo. Entre as mensagens que tratam de apostas há duas que mencionam Lula.

1ª referência a Lula: depois de Mateusinho postar uma figurinha de si mesmo segurando um maço de dinheiro, o goleiro do grupo manda uma figurinha de Lula com a frase “Já pode roubar?”

2ª referência a Lula: no dia 13 de novembro, Mateusinho escreve “Hoje o Lula tem que ganhar, pra gente ficar bem.” Nesse dia não havia eleições — o segundo turno já tinha acontecido, em 30 de outubro. Mas era a última rodada da Série A. Em seguida, os participantes do grupo combinam as apostas que fariam na rodada.

Jogadores cobram valores devidos pelo pênalti

O grupo “Lula 13” foi criado no dia 3 de novembro, três dias depois de Lula ser eleito. No dia 5 de novembro, na última rodada da Série B, o Sampaio enfrentou o Londrina, e Mateusinho cometeu um pênalti. Depois do jogo, ele foi celebrado no grupo pelos amigos.

Segundo o MP, os empresários que fraudavam os jogos tinham combinado pênaltis com os jogadores do Sampaio e do Vila Nova, que também jogou naquela rodada. Os atletas do Sampaio fizeram sua parte, mas os do Vila desistiram, o que causou prejuízo aos apostadores. Como os jogadores do Sampaio não receberam sua parte do combinado, eles passaram a cobrar dos apostadores.

O MP descobriu a existência de um segundo grupo, que tinha como nome um emoji de óculos escuro. Nele, os cinco atletas do time maranhense “debatem sobre a expectativa de recebimento de valores, a existência da dívida e forma de cobrança, externando, por mais de uma vez, que teriam cumprido com sua parte no esquema — leia-se, cometimento do pênalti — e esperavam receber todo o valor prometido”, escreveram os promotores da “Penalidade Máxima”.

O que os jogadores dizem

Segundo a defesa de Paulo Sérgio, o zagueiro não conhece o jogador de pôquer com quem trocava mensagens no WhatsApp e nunca fez negócio com ele relacionado a futebol. Ele também não conhece outros envolvidos no esquema. O advogado Servigaldo Cobel relembrou que o zagueiro sequer jogou na última rodada da Série B do ano passado.

Sergivaldo Cobel também defende o goleiro e o jogador de pôquer que fazem parte do grupo “Lula 13”, mas ambos não viraram réus no processo e não tiveram seu nome citado no texto desta reportagem. Como os promotores mencionam a dupla nos interrogatórios, Cobel acrescentou que vai representar contra os membros do MP. Segundo ele, o processo está em segredo de Justiça e os vídeos não deveriam ter sido divulgados à imprensa.

A defesa do jogador André Queixo, por sua vez, disse que o processo ainda está em fase embrionária. Os advogados aguardam a citação do seu cliente pela Justiça para que possam esclarecer os fatos.

Mateusinho não atendeu aos pedidos de contato da reportagem, feitos através de seu perfil no Instagram, e por uma assessoria que aparece conectada à sua página. As defesas de Allan Godoi e Ygor Catatau não foram encontradas pela reportagem. Veja os diálogos do “Lula 13”. (UOL Esporte)

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Terra Notícias: Escândalo das apostas mancha futebol brasileiro

Falta de regulamentação do mercado de apostas esportivas e baixos salários nas divisões inferiores estão na origem do problema, dizem especialistas. Quebra de confiança afeta relação entre torcedores e jogadores. Uma carreira chegou ao fim na sala fria e insípida de um tribunal nesta segunda-feira (22/05): o Tribunal de Justiça Desportiva do Rio Grande do Sul (TJD-RS) condenou o lateral Nikolas Farias, do Novo Hamburgo, a 720 dias de suspensão.

Isso é praticamente o fim da carreira de um jogador de futebol, porque depois de dois anos sem jogar é quase impossível retornar à ativa. Além disso, Nikolas ainda terá de pagar uma multa de R$ 80 mil.

O tribunal considerou provado que Nikolas cometeu um pênalti de propósito. Nem o jogador nem o advogado dele compareceram, ainda que fosse interessante conhecer o ponto de vista deles.

Também o Novo Hamburgo não enviou representante. O clube encerrou o contrato com o jogador no fim da temporada e aparentemente não quer ter mais nada a ver com a questão.

O caso é exemplar de como o futebol brasileiro lida com o escândalo do esquema de apostas, que produz manchetes em ritmo quase diário. Os clubes quase não se manifestam, as federações também preferem deixar tudo quieto.

Os atingidos são sobretudo jogadores com baixos salários de campeonatos menores, que, pelo jeito, conseguem dessa maneira melhorar seus rendimentos.

Pelo que se sabe até aqui, eles provocaram expulsões ou pênaltis, nos quais apostadores haviam apostado, em troca de parte do dinheiro ganho com as apostas. Ou apostavam eles mesmos usando nomes de terceiros. Mas também jogadores da segunda e da primeira divisão estão na mira dos investigadores.

Desconfiança generalizada

O historiador Derê Gomes, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), prevê tempos difíceis na relação entre torcedores e jogadores. “Esse escândalo já está gerando uma desconfiança generalizada entre os torcedores e os jogadores dos seus times de coração, especialmente entre jogadores de times de menor expressão, que pagam salários mais baixos”, diz.

Qualquer falha, por menor que seja, passa a ser vista não como um erro, mas com a suspeita de que o jogador possa estar recebendo algum dinheiro. “Somente após o total esclarecimento dessa polêmica e punição dos envolvidos, essa desconfiança generalizada poderá dar lugar a uma relação saudável entre jogadores e torcida novamente”, avalia Gomes.

CPI no Congresso

O esclarecimento do caso está agora com o Congresso. O deputado Felipe Carreras (PSB-PE), que é o relator da CPI das Apostas Esportivas, afirmou, em declaração à DW, que quer “jogar luz nesse escândalo”, que ele chamou de o maior do futebol brasileiro.

Segundo ele, o objetivo é não somente revelar as engrenagens desse esquema, como também punir exemplarmente os envolvidos e promover uma legislação que coíba esse tipo de crime. “Vamos atuar para acabar com essa chaga em todas as divisões e, se necessário, em outras modalidades”, declarou.

Falta de regulamentação

Mas também fora dos círculos políticos e da Justiça procura-se os motivos do escândalo. Gomes vê uma razão na “falta de regulamentação econômica das casas de apostas, o que permitiu um crescimento exponencial e desregulado de dezenas de empresas do ramo, que hoje até mesmo são a maioria dos patrocinadores dos clubes”.

Além disso, com exceção das estrelas de grandes clubes, a grande maioria dos jogadores brasileiros de futebol é mal paga. Nas divisões inferiores, muitos mal recebem o mínimo para sobreviver. “A condição financeira de jogadores e árbitros é um facilitador para o aliciamento dessas pessoas para que cometam as fraudes nas partidas”, diz.

Segundo os dados mais recentes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), de 2016, 80% dos jogadores profissionais assalariados recebem até R$ 1 mil. Diante dessa situação, quem tem uma família para sustentar pode balançar diante de propostas imorais.

“Aqui cabe uma responsabilização da própria CBF”, cobra Gomes. Para ele, a entidade faz pouco ou mesmo nada pelo desenvolvimento de um equilíbrio econômico – e isso apesar de o futebol ser “a grande paixão nacional e movimentar bilhões de reais”. (Terra Notícias)

 

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