Debatedores defendem mais investimento e melhor uso de dados para ampliar impacto econômico do esporte

O esporte pode ir muito além da competição e do lazer. Em audiência pública realizada nesta terça-feira (07), a Comissão do Esporte debateu o papel do setor na geração de empregos, no fortalecimento da indústria nacional e na dinamização de diferentes cadeias produtivas. Ao longo da reunião, convidados e parlamentares defenderam mais investimento, melhor organização dos dados do setor e políticas públicas de longo prazo para ampliar esse potencial.
Autor dos requerimentos da audiência, o deputado Luiz Lima (Novo-RJ) afirmou que o debate busca mostrar o esporte “como vetor estratégico de geração de empregos, fortalecimento da indústria nacional e dinamização de diversos setores produtivos do país”. Ao longo da reunião, ele também destacou que o esporte tem capacidade de unir pessoas e de produzir resultados econômicos que vão além das arenas.
A presidente do Instituto Sou do Esporte, Fabiana Bentes, apresentou os dados mais recentes do estudo sobre o Produto Interno Bruto do setor. Segundo ela, o esporte respondeu por R$ 183,4 bilhões da economia brasileira em 2023, o equivalente a 1,69% do PIB, com mais de 3,3 milhões de empregos gerados. Para Fabiana, esses números ajudam a mudar a forma como o tema é tratado no país. “A palavra do esporte precisa ser investimento”, afirmou. Em outro momento, reforçou: “Inclusão é consequência do investimento”.
Ao defender essa mudança de visão, Fabiana observou que o esporte ainda é comunicado principalmente pelo viés social, quando também deveria ser visto como atividade econômica. Segundo ela, a cadeia esportiva alcança mais de 20 setores, entre eles turismo, saúde, mídia, comércio, tecnologia e serviços. A pesquisadora também chamou atenção para a necessidade de maior transparência e produção de dados, para que os investimentos públicos e privados sejam melhor direcionados.
Pelo Instituto de Pesquisa Inteligência Esportiva, João Moretti seguiu a mesma linha e defendeu que o esporte seja tratado como área intersetorial. Ele citou, por exemplo, a existência de 330 mil empregos formais diretos, 180 mil escolas e 46 milhões de estudantes matriculados, além de milhares de empresas ligadas ao turismo esportivo e aos clubes sociais. Para ele, “a gente precisa valorizar o esporte como um todo” e consolidar sistemas de informação que permitam medir melhor a demanda, a oferta e os resultados das políticas públicas.
Moretti apresentou ainda uma nova plataforma integrada de inteligência esportiva, que reúne dados de 14 áreas. A proposta é aproximar informações de educação, saúde, turismo, vulnerabilidade social e financiamento, para apoiar decisões mais precisas. Segundo ele, sem base técnica e sem integração entre sistemas, fica mais difícil justificar investimentos e corrigir falhas da gestão.
Representando o Comitê Olímpico do Brasil, Matheus Bacelo de Figueiredo afirmou que o setor precisa avançar na capacidade de mostrar ao mercado e ao poder público o impacto real do esporte. “Formalizar o impacto do esporte e mostrar isso pro mercado” foi, segundo ele, um dos grandes desafios apontados pela audiência. Matheus destacou iniciativas do COB nas áreas de governança, formação, inovação e articulação institucional, além da necessidade de linhas estruturadas de financiamento, com participação do poder público e de parceiros privados.
Ele também citou a recente entrega da revitalização da pista de atletismo do Ibirapuera, em São Paulo, e defendeu maior aproximação entre esporte e educação, para ampliar a formação de treinadores, professores e jovens atletas. Na avaliação do representante do COB, esse tipo de integração pode gerar resultados esportivos, sociais e econômicos ao mesmo tempo.
O consultor Ricardo Paolucci, por sua vez, detalhou o avanço da Lei de Incentivo ao Esporte. Ele lembrou que o mecanismo saiu de 20 projetos protocolados em 2007 para 6.664 em 2024 e que a captação chegou a cerca de R$ 1,4 bilhão no ano passado. Para ele, a tendência é de crescimento, com possibilidade de o volume se aproximar de R$ 2 bilhões já nos próximos anos. Paolucci avaliou que ainda há espaço para ampliar a participação de empresas e pessoas físicas, já que boa parte desse potencial continua subutilizada.
Nesse ponto, Fabiana Bentes acrescentou que o esporte ainda precisa melhorar sua comunicação com o setor privado. Segundo ela, muitas empresas conhecem bem a Lei Rouanet, de incentivo à cultura, mas ainda não identificam com clareza as oportunidades abertas pela Lei de Incentivo ao Esporte, inclusive em reputação de marca, ativação e vínculo com projetos de impacto mais amplo.
O CEO da Ticket Sports, Daniel Krutman, apresentou um recorte do esporte de participação, com foco nas corridas de rua e em outros eventos de massa. Segundo ele, o número de praticantes de corrida no Brasil passou de 9 milhões, em 2022, para 14,6 milhões em 2026, um crescimento superior a 60%. Daniel afirmou que esse movimento é impulsionado por mudanças de comportamento, pela busca por bem-estar e por uma nova relação das pessoas com a prática esportiva. “Os eventos não ocupam as ruas, eles devolvem as ruas para as pessoas”, disse.
Krutman observou que essa economia se espalha por milhares de empresas, fornecedores e empregos temporários. Ele citou mais de 12 mil eventos esportivos de participação mapeados no país e afirmou que cada prova mobiliza uma rede de trabalhadores, prestadores de serviço e pequenos negócios. Ao mesmo tempo, defendeu mais diálogo entre o setor e o poder público, para evitar regras criadas sem escuta prévia dos organizadores e participantes.
Presidente da Confederação Brasileira de Atletismo, Wlamir Motta Campos sustentou que o Brasil precisa transformar esse potencial em agenda legislativa e regulatória mais consistente. Ele voltou a cobrar a análise de vetos à Lei Geral do Esporte e defendeu medidas como incentivos tributários, fortalecimento do Fundo Nacional do Esporte, parcerias público-privadas e maior integração entre esporte e educação básica.
Ao relatar experiências recentes do atletismo, o presidente da CBAt falou sobre acordo com a rede estadual paulista para capacitar professores e ampliar o miniatletismo nas escolas e também citou a já mencionada revitalização do estádio no Ibirapuera. E disse que a intenção da Confederação é fazer o mesmo com o estádio Célio de Barros, no Rio de Janeiro. “Então isso é um recorte importante e necessário, porque a vontade política que nós tivemos em São Paulo, nós não temos no Rio e seria importante nós fazermos isso”.
Para Wlamir, o setor precisa ser visto de forma mais ampla e planejada. “Compreender essa segmentação é essencial para direcionamento de investimentos e políticas públicas eficazes”, afirmou, ao defender uma visão que reúna infraestrutura, mídia, turismo, varejo, ciência e formação de base.
Outro ponto do debate foi apresentado pelo secretário da Secretaria Nacional de Apostas Esportivas e de Desenvolvimento Econômico do Esporte, Giovanni Rocco Neto, do Ministério do Esporte. Ele explicou que a secretaria foi estruturada em 2024 para tratar o esporte também como atividade econômica e apresentou ações em andamento nas áreas de empreendedorismo, inovação, qualificação profissional e articulação institucional. Entre elas, citou acordos com Sebrae, Embratur e Cade, além de iniciativas voltadas ao legado econômico da Copa do Mundo Feminina de 2027.
Ao resumir a lógica dessas políticas, Giovanni afirmou: “Se não tiver investimento, deputado, não tem resultado”. Segundo ele, o esporte deve ser tratado como política pública permanente, com capacidade de gerar inclusão produtiva, desenvolvimento regional e crescimento de longo prazo.
Durante a audiência, o deputado Luciano Bivar (MDB-PE) também contribuiu para o debate ao tratar dos efeitos econômicos da formação de atletas no futebol. Em sua avaliação, mudanças trazidas pela Lei Pelé enfraqueceram os clubes formadores e reduziram a capacidade de retenção de talentos no país. Bivar informou que apresentou proposta para rever esse modelo e afirmou que, sem fortalecer a base, o futebol brasileiro perde competitividade e capacidade de gerar valor.
Já o deputado Luiz Lima voltou a defender que o esporte seja preservado como espaço de convergência social. Ao comentar a fala de Daniel Krutman sobre a expansão do esporte de participação, disse que o setor deve permanecer “suprapartidário”, porque tem a capacidade de reunir pessoas com visões diferentes em torno de objetivos comuns.
A audiência também contou com participação remota de Renato Cohen, da Maratona do Rio de Janeiro, que acompanhou o debate como representante da organização do evento. Ao fim da reunião, Luiz Lima registrou ainda manifestação enviada pelo presidente do Comitê Brasileiro do Esporte Master, Edson Campelo, que pediu a inclusão do segmento em futuros levantamentos econômicos do setor.
De forma geral, a audiência mostrou convergência em torno de alguns pontos: o esporte já tem peso relevante na economia brasileira, ainda pode crescer muito e precisa de ambiente regulatório estável, dados confiáveis e investimento contínuo para ampliar seus resultados sociais e econômicos.


