Doações a partir de ‘lives’ arrecadam R$ 17,6 milhões

Destaque I 09.06.20

Por: Magno José

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Marcelo Farinha, presidente da Fenacap: R$ 443 milhões com venda de títulos de filantropia de janeiro a março

“Estou aqui por trás de todo o caos em que a vida se fez”, cantaram Sandy e Júnior, no dia 21 de abril, ecoando bem o momento atual, numa live transmitida pelo YouTube e assistida, no pico de sua audiência, por 2,5 milhões de pessoas simultaneamente. Durante quase três horas de uma apresentação informal feita na casa da cantora, em Campinas (SP), a dupla ajudou a arrecadar R$ 5 milhões em doações para famílias prejudicadas pela pandemia, estabelecendo o recorde até aqui. Metade desse valor, na verdade, foi doado pelas Casas Bahia, parceira dos artistas na campanha chamada Fome de Música, que já fez 74 shows e é ligada ao projeto Mesa Brasil, liderado pelo Sesc-DF e que distribui alimentos pelo país.

Fenômeno próprio do novo mundo que surgiu com a pandemia, as lives começaram a aparecer no final de março e ganharam força nos dois meses seguintes, atraindo milhões de espectadores e muitas doações. Segundo a Associação Brasileira de Captadores de Recursos, esses shows transmitidos pela internet já somaram 120 apresentações até domingo, e levantaram R$ 17,65 milhões.

O gráfico dessas contribuições – que em sua maioria são pequenos valores feitos por pessoas físicas, ao contrário das gordas doações corporativas – sobe desde o começo da medição, em 17 de maio. Ao mesmo tempo, a curva das grandes contribuições empresariais começa a se achatar, segundo Márcia Woods, presidente da ABCR. O total arrecadado foi de R$ 5,58 bilhões até domingo, um crescimento de 1,5% sobre a semana anterior. O crescimento das duas semanas anteriores à passada foram de 3,3% e 7,9%, respectivamente.

O dinheiro das lives é bem-vindo porque vai quase que em sua totalidade para o caixa das instituições, segundo João Paulo Vergueiro, diretor executivo da ABCR. “Muitos organizadores abrem mão de suas taxas e por serem valores pequenos, não vão pagar o Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD), que varia de 4% a 8%.”

A ABCR faz um acompanhamento diário e rigoroso de todas as doações e, com o aumento dos shows, chamou a atenção da entidade o surgimento de lives com pedidos de doações que na verdade são vendas de títulos de capitalização. “Percebemos que algumas instituições estavam pedindo doações em troca de sorteios, o que é diferente de uma doação tradicional. No caso, o valor que vai para a instituição é bem menor”, afirma. Ele menciona uma fundação para a qual foi oferecido o percentual de 8% sobre o total arrecadado na live.

A preocupação da ABCR é que a novidade dê margem a propaganda enganosa: “O doador tem que saber exatamente o que ele está comprando”, afirma Vergueiro.

Esses papéis que estão sendo ofertados são conhecidos como títulos de filantropia premiável, um produto regulamentado há um ano pela Superintendência de Seguros Privados (Susep) no novo marco legal do setor de capitalização. Segundo Marcelo Farinha, o presidente da Federação Nacional de Capitalização (Fenacap), trata-se de um papel fiscalizado e com segurança jurídica, uma vez que o setor é bastante regulamentado.

Segundo Farinha, de janeiro a março, os dados mais atuais, as 15 empresas filiadas à Fenacap faturaram um total de R$ 443 milhões com a venda desses títulos. Desse valor, ele estima que cerca de metade seja repassado para as instituições parceiras, como hospitais e associações filantrópicas. (Valor Econômico – Marília de Camargo Cesar — De São Paulo)

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