Editorial Diário do Comércio: Muita coisa para fazer

Apostas, Opinião I 24.04.23

Por: Elaine Silva

Compartilhe:
Os valores que estão sendo mencionados chamam muita atenção para a questão especifica das apostas on-line, mas deveriam colocar diante de um cenário bem mais amplo, num país em que os chamados jogos de azar são proibidos

Chegar a valores exatos não é tarefa simples uma vez que estamos diante de um mercado que, quase na sua totalidade, opera na informalidade. Estamos falando de apostas on-line, que nos últimos anos tiveram crescimento exponencial, facilitado por novas tecnologias. De qualquer forma, e com base em estimativas, acredita-se que o faturamento anual, apurado a partir de plataformas que operam no exterior, varie entre R$ 120 e R$ 150 bilhões, valor que chama atenção das autoridades fiscais. Afinal foi lhes dada a incumbência de elevar a arrecadação em valores que ajudem a cobrir o déficit das contas públicas já no próximo exercício, tudo isso sem elevação da carga tributária.

Os valores que estão sendo mencionados chamam muita atenção para a questão especifica das apostas on-line, mas deveriam colocar diante de um cenário bem mais amplo, num país em que os chamados jogos de azar são proibidos, o que em nada inibe a atividade, bastando apenas para impedir que ela deixe a clandestinidade enquanto diversas outras modalidades de apostas, também movimentando bilhões de reais, são operadas à sombra da administração publica. Caso bem conhecido do vasto sistema de apostas que tem como operadora a Caixa Econômica Federal. E tudo isso sem que sejam mencionados caça-níqueis e o jogo do bicho, ambos operados pelo crime organizado, também suposto abrigo para cassinos onde a jogatina é aberta e não encontra qualquer tipo de barreira ofensiva.

Se apenas a receita estimada dos jogos on-line passa dos R$ 100 bilhões ao ano, qual seria afinal, digamos, o produto bruto de todas as modalidades de jogos, lícitos ou ilícitos? Fácil deduzir que o número bastaria, se capturado pelas malhas da legalidade, para ajudar o Ministério da Fazenda a cobrir rapidamente a receita necessária para reequilibrar suas contas. Raciocínio que da mesma forma deveria trazer à mesa de discussões a questão, antiga por sinal, da reabertura dos cassinos, reconhecidamente poderosa alavanca também para estimular o turismo e as atividades que orbitam em seu entorno.

Certo é que estamos falando de dinheiro e de muito dinheiro, portanto também daqueles que têm todo interesse que as coisas assim permaneçam, na ilusão de que as restrições existentes apenas protegeriam os ditos “bons costumes”. Como não é exatamente disso que se trata, as questões agora levantadas, independentemente do que venha a acontecer na sequência, serviram para levantar um véu que encobre muita hipocrisia que nunca foi contrariada, mesmo que às custas de prejuízos que de uma forma ou de outra o conjunto da população acaba bancando. (Editorial Diário do Comércio – BH)

Comentar com o Facebook