Era Trump em Atlantic City acaba com 3 mil bananas de dinamite

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Implosão do Trump Plaza Hotel and Casino – último vestígio da marca do ex-presidente em Atlantic City, que já dominou a cidade – ocorreu no dia 17

Não foi a maior nem a melhor implosão de todos os tempos. O leilão organizado para vender o direito de detonar a dinamite para iniciar a implosão do Trump Plaza Hotel and Casino, em Atlantic City, New Jersey, gorou.

Assentos de primeira fila para assistir ao espetáculo da manhã da quarta-feira, 17, foram vendidos a preços baixos. Curiosos que quiseram testemunhar de seus carros o simbólico fim do império de jogatina do ex-presidente no balneário marítimo tiveram de pagar US$ 10 e foram arrebanhados em um espaço usado recentemente como um centro de distribuição de comida da era da pandemia.

A implosão do edifício que já foi o principal destino de jogadores em Atlantic City ocorreu menos de um mês depois de seu mais conhecido ex-dono, Donald Trump, deixar a Casa Branca, após não conseguir se reeleger e se tornar o primeiro presidente da história a sofrer dois impeachments. Ele foi absolvido por incitar a mortífera insurreição de 6 de janeiro no Capitólio.

A torre ruiu pouco após as 9h, em meio a uma enorme nuvem de poeira e uma erupção de aplausos e vivas. “É o fim de uma era nada grandiosa”, afirmou Jennifer Owen, de 50 anos, que pagou US$ 575 por um assento de primeira fila em um café da manhã VIP organizado em um pavilhão à beira mar, com vista direta para a implosão.

Jennifer, que viveu em Atlantic City por décadas antes de se mudar, dois anos atrás, para Rochester, Nova York, afirmou que não é nada fã de Trump e estava ansiosa para dizer adeus ao arranha-céu que levava o nome dele. “Isso é simbólico, sem dúvida”, afirmou ela. “O fim dele e de tudo mais.”

Roy M. Foster, presidente do Conselho Central dos Trabalhadores dos condados de Atlantic e Cape May, afirmou que o evento lhe pareceu uma vitória amarga. “É um dia bom. É um dia ruim”, afirmou ele. “Muitos de nós trabalhamos naquele prédio.”

O Trump Plaza foi o primeiro de três cassinos que Trump teve antes de seu negócio de jogatina em Atlantic City ruir e falir definitivamente, deixando um rastro de dívidas em aberto com prestadores de serviço e fornecedores – e uma impressão ruim em relação à marca Trump nessa batalhadora cidade de 38 mil habitantes.

Para os críticos, incluindo Marty Small, o prefeito democrata de Atlantic City, a demolição representou a vívida materialização de um fim há muito aguardado.

Quando fazia campanha pela nomeação do Partido Republicano para candidato a presidente, Trump frequentemente se gabava a respeito de como foi mais esperto do que os credores de Wall Street e elevou o valor de seu nome às alturas em Atlantic City. “A quantidade de dinheiro que arranquei de lá foi incrível”, disse ele uma vez em entrevista.

Na verdade, uma investigação do New York Times descobriu que Trump usou pouco de seu próprio dinheiro e transferiu dívidas pessoais para os cassinos, deixando a herança de seus fracassos para investidores e outras pessoas que apostaram em seu sucesso. “Seu mandato por aqui terminou horrivelmente”, afirmou Small em uma entrevista no mês passado.

Quando foi inaugurado, em 1984, o Trump Plaza era o décimo cassino de Atlantic City, e seus primeiros dias ofereciam a promessa de grandes apostadores e o encanto de grandes eventos, incluindo lutas de campeões do boxe nas quais cadeiras próximas ao ringue eram vendidas por US$ 1,5 mil e atraíam a presença de celebridades.

Trump deu emprego a milhares de pessoas, e seus cassinos geraram dezenas de milhões de dólares em impostos.

Mas, depois de uma série de pedidos de falência, Trump cortou os laços com o cassino em 2009, mesmo que seu nome tenha continuado brevemente a adornar o edifício. O Trump Plaza fechou definitivamente em 2014, e o investidor bilionário Carl C. Icahn adquiriu a massa falida em 2016.

O suntuoso Trump Taj Mahal fechou em 2016 e se tornou o Hard Rock Hotel and Casino. O Trump Marina Hotel Casino fechou uma década atrás e virou o Golden Nugget.

O Trump Plaza permaneceu por anos uma das mais visíveis monstruosidades da cidade, ocupando um dos melhores terrenos do calçadão. Quedas de detritos e metais da estrutura colaboraram para sua designação como “perigo iminente”, abrindo caminho para a demolição.

Small afirmou esperar que Icahn transforme o imóvel em um destino voltado para famílias, para complementar um novo parque aquático indoor que está planejado para o calçadão. “Todos estavam na expectativa da implosão, e estamos na expectativa, definitivamente, de ver o início da limpeza e da nova construção”, afirmou Small.

A cidade agora conta com nove cassinos, todos fechados por meses em razão do lockdown motivado pelo coronavírus no Estado, que deixou 27 mil pessoas sem trabalho da noite para o dia. A maioria dos cassinos reabriu no feriado de 4 de Julho, mas o limite de lotação máxima nos salões de jogos, assim como dentro de restaurantes e bares, permaneceu em 35%, complicando a vida noturna em uma cidade que vive disso.

“Não podemos mais depender dos cassinos”, afirmou Small. “Temos de trazer novos negócios para cá.”

O edifício já estava praticamente demolido, com grande parte do concreto já retirado. Equipes de demolição passaram quase toda a semana passada no local instalando as cerca de 3 mil bananas de dinamite que, ajudadas pelo peso da estrutura de concreto reforçado, colocaram abaixo a torre de 34 andares.

A implosão durou poucos segundos. Já que o edifício não tinha porão nem nenhuma cavidade para absorver os escombros, a pilha de detritos pode chegar a 20 ou 25 metros de altura.

A demolição foi realizada por uma empresa de Maryland, a Controlled Demolition Inc., que implodiu 28 edifícios em Las Vegas e várias outras estruturas em Atlantic City.

Para alguns, o espetáculo foi uma oportunidade de criar negócios em uma cidade que ainda luta para recuperar o fôlego em meio à pandemia.

O prefeito, em uma tentativa de levantar US$ 175 mil para o Boys & Girls Club of Atlantic City, tentou leiloar o direito de apertar o botão detonador da implosão do edifício, mas Icahn, que apoiou Trump durante a presidência, afundou o plano, citando preocupações com segurança.

Um leilão alternativo, para 10 pacotes com hotel e acesso VIP à vista incluídos, gerou cerca de US$ 6 mil em lances, e o Hard Rock Hotel and Casino doou US$ 10 mil ao clube, que estendeu seu horário de funcionamento para garantir às crianças um lugar seguro para comparecer à escola virtualmente.

O Caesars, cassino próximo à torre do Trump Plaza, oferecia um pacote de US$ 299 por estadia na noite da terça-feira, véspera do evento, e vista para a implosão, complementadas com champanhe e checkout tardio. (O Estado de S.Paulo – Tracey Tully / The New York Times e Tradução de Augusto Calil)

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