Estudo da Anbima contraria narrativa de “vício generalizado” e não pede proibição das bets

Apostas I 04.09.26

Por: Magno José

Compartilhe:
Estudo da Anbima contraria narrativa de "vício generalizado" e não pede proibição das bets 1
Levantamento qualitativo feito com a Kyvo mostra que a maioria dos apostadores não apresenta sinais de risco, que a dimensão recreativa da prática cresce e que a própria Anbima recomenda educação financeira — não banimento ou novas restrições — como resposta ao fenômeno

A Anbima lançou nesta semana o estudo “Aposta Online no Brasil: perfis de uso, jornadas e padrões de comportamento”, produzido em parceria com a consultoria Kyvo a partir de entrevistas em profundidade com 60 apostadores e ex-apostadores nas cinco regiões do país. O Valor já repercutiu trechos do material, com ênfase nos riscos identificados pela pesquisa. Uma leitura completa do relatório, no entanto, revela uma série de achados que relativizam a narrativa de que a expansão das bets equivale a uma epidemia de descontrole financeiro — e que podem interessar diretamente ao setor regulado. (baixe o relatório)

A pesquisa surgiu depois que um número crescente de brasileiros passou a declarar que “investe” em bets durante entrevistas realizadas pela Anbima sobre hábitos de investimento. Os quatro perfis receberam os nomes de “Adepto da Fortuna”, “Matador de Leões”, “Expert da Realidade” e “Caçador de Emoções”.

Os dois primeiros perfis são formados predominantemente por mulheres das classes C, D e E. O “Adepto da Fortuna” reúne apostadoras que esperam enriquecer rapidamente com as plataformas. Já o “Matador de Leões” concentra mulheres em maior dificuldade financeira, que recorrem às apostas para pagar contas essenciais como água, luz e aluguel.

Os perfis “Expert da Realidade” e “Caçador de Emoções” são compostos majoritariamente por homens jovens das classes A e B. No primeiro grupo estão aqueles que estudam os jogos, desenvolvem estratégias e enxergam as bets como uma alternativa ao mercado financeiro. No segundo estão os que chegaram às apostas por influência de pessoas próximas e tratam a atividade como um hobby para combater o tédio.

Estudo da Anbima contraria narrativa de "vício generalizado" e não pede proibição das bets

A maioria dos apostadores não mostra sinais de alerta

O próprio estudo, ao contextualizar seus achados com dados da 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro (2026), reconhece que a prática ainda é majoritariamente esporádica: 7% dos brasileiros apostam raramente e apenas 1% o faz diariamente. Do total de apostadores, o grupo classificado com alto nível de propensão ao vício soma 11% — o que, na leitura inversa, significa que quase 9 em cada 10 apostadores não se enquadram nesse critério de risco. O próprio relatório reconhece textualmente que, “embora a maior parte dos apostadores não apresente sinais alarmantes”, existe um contingente relevante em situação vulnerável — uma formulação que reconhece a normalidade do comportamento da maioria antes de apontar o problema de uma minoria concentrada em grupos específicos (homens, jovens, classe C).

Jornada do apostador

Entretenimento ganha espaço como motivação central

Um dos achados mais relevantes para o setor é o crescimento da dimensão recreativa da aposta. Segundo o Raio X citado no estudo, 32% dos apostadores já encaram a prática como forma de diversão — proporção que se aproxima dos 39% que apostam em busca de ganhos rápidos. A pesquisa qualitativa da Kyvo detalha esse comportamento no perfil batizado de “Caçador de emoções”: pessoas com maior estabilidade financeira, capacidade de planejamento e recursos disponíveis para lazer, que tratam a aposta como atividade recreativa associada a eventos esportivos, com valores separados do orçamento essencial e limites relativamente estáveis ao longo do tempo. É, na prática, a descrição de um consumo de entretenimento saudável — o inverso do estereótipo do apostador compulsivo.

Apostas esportivas e cassino online não são a mesma coisa

O relatório também faz uma distinção metodológica que reforça argumentos já defendidos pelo setor regulado: nem todas as modalidades de aposta funcionam da mesma forma. A Anbima diferencia as apostas esportivas — ligadas a eventos com começo e fim definidos, de uso mais pontual e associado a acompanhamento de jogos e análise — dos jogos contínuos, como cassino online e “tigrinho”, que têm fluxo imediato e repetitivo e tendem a favorecer maior permanência. Essa distinção técnica valida o discurso de que regulação, comunicação de risco e políticas de jogo responsável precisam ser diferenciadas por modalidade, e não tratadas como um bloco único e homogêneo chamado genericamente de “bets”.

A recomendação final não é restringir, é educar

Talvez o ponto mais significativo para o debate público seja o que a própria Anbima recomenda ao final do estudo. Depois de mapear riscos e vulnerabilidades, o documento não propõe proibição, banimento de publicidade adicional ou novas barreiras regulatórias às plataformas. A conclusão aponta para o fortalecimento de programas de educação financeira, capazes de ajudar a população a diferenciar risco, probabilidade, estratégia e a distinção entre aposta e investimento — reconhecendo que decisões financeiras “ocorrem sob pressão de tempo, incerteza e estímulos contínuos” em toda a vida cotidiana, não apenas nas apostas. É uma diferença editorial relevante frente a discursos que tratam o mercado regulado como origem do problema social do endividamento.

Autocontrole existe — e as pessoas o exercem

Outro achado pouco explorado na repercussão inicial é o capítulo sobre trajetórias de saída da prática. O estudo descreve que apostadores que reduzem ou interrompem o uso adotam estratégias concretas de autorregulação: definição de limites de gasto, retirada de ganhos, remoção de aplicativos, bloqueio de contas e restrição de meios de pagamento. Embora o relatório enquadre esse processo como não linear e sujeito a recaídas, ele também demonstra que os usuários têm agência sobre o próprio comportamento e utilizam — ainda que informalmente — os mesmos mecanismos de controle (limites de depósito, autoexclusão, bloqueio) que a regulamentação brasileira, sob a Lei 14.790/2023, já exige das plataformas licenciadas.

A ressalva que não pode ficar de fora

Vale registrar que o estudo trata-se de pesquisa qualitativa, baseada em 60 entrevistas em profundidade — e não em levantamento estatístico representativo da população. A Anbima é explícita quanto a isso na seção de metodologia: o objetivo foi compreender significados e lógicas de decisão, não medir frequência ou volume de apostas de forma generalizável. Isso não invalida os achados, mas recomenda cautela na hora de extrapolar qualquer um dos números — inclusive os favoráveis ao setor aqui destacados — como retrato estatístico do conjunto dos apostadores brasileiros.

O que fica

O estudo da Anbima, lido na íntegra, é mais equilibrado do que sua repercussão inicial sugere. Ele reconhece riscos concentrados em grupos específicos, mas também descreve uma maioria de apostadores que usa a prática de forma recreativa, dentro de limites financeiros estáveis, com mecanismos de autocontrole ativos — e termina recomendando educação financeira, não repressão ao mercado regulado. Para o debate legislativo trata-se de um contraponto de peso a discursos que atribuem às bets, de forma indiscriminada, a causa do endividamento das famílias brasileiras.

https://www.anbima.com.br/data/files/51/96/FB/EB/E1AAF910DF3079F9BA2BA2A8/banner-donwload-jornada-do-apostador.jpg

BRLot - Sorte Online - 728 x 90 1BRLot - Sorte Online - 728 x 90

Compartilhe: