Facções criminosas usam 31 influenciadores para lavar R$ 7 bi em 5 estados

Apostas I 22.08.26

Por: Elaine Silva

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PCC e CV recrutam perfis em redes sociais para apostas online ilegais e empresas de fachada, segundo levantamento da revista Veja

Facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) recrutam influenciadores digitais para lavar bilhões de reais por meio de redes sociais, apostas on-line ilegais e empresas de fachada. A investigação envolve 31 influenciadores em ao menos cinco estados brasileiros.

Um levantamento exclusivo produzido a pedido da revista Veja mapeou o esquema nos estados onde o crime organizado tem maior penetração: São Paulo, base do PCC, e Rio de Janeiro, reduto do CV, além de Ceará, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul. Os 31 influenciadores identificados somam 149 milhões de seguidores e são suspeitos de ter movimentado 7 bilhões de reais em transações destinadas a conferir aparência legal a dinheiro de origem criminosa, segundo dados levantados junto à Polícia Civil e aos Ministérios Públicos locais.

As apurações cobrem os últimos cinco anos e revelam que o esquema vai muito além de celebridades da internet. A maioria dos investigados atua em nichos como funk, moda e fitness, com perfis de até 100 mil seguidores, tornando a fiscalização mais difícil pela pulverização do fenômeno.

Apostas ilegais como eixo da lavagem

O mecanismo central do esquema envolve casas de apostas on-line operadas sem autorização do Ministério da Justiça, em geral com endereço registrado no exterior. Os influenciadores atuam como rostos dessas plataformas fictícias, atraindo apostadores ao exibir roupas de grife, joias, carros importados e viagens de luxo. O dinheiro arrecadado retorna às facções por meio de bancos, fintechs, laranjas, empresas frias e criptomoedas. Os ganhos das bets inexistentes costumam ser divididos meio a meio com os influenciadores.

“As casas de apostas ilegais são prioridade zero na caça às atividades desses influencers”, afirmou Ricardo Morishita Wada, secretário do Consumidor do Ministério da Justiça.

O caso de Vanessa Freires ilustra o padrão. Com 100 mil seguidores antes de ser banida das redes pela Justiça, ela ostentava maços de dinheiro apresentados como prêmios de apostas e teria movimentado 500 mil reais para o CV. O inquérito aponta ainda uma loja de roupas e acessórios registrada em seu nome como possível peça adicional da lavanderia. Apesar de exibir sinais de riqueza nas redes, a moradora de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, chegou a figurar como beneficiária do auxílio emergencial destinado a pessoas de baixa renda.

Os influenciadores raramente têm contato direto com líderes das facções. Uma cadeia de intermediários faz o recrutamento, buscando prioritariamente criadores de conteúdo que já promovem apostas on-line, seja em eventos presenciais, seja por abordagem digital.

Casos investigados

Micael dos Santos de Morais, dono da agência MS e um dos alvos da Operação Desfortuna, recrutava criadores de conteúdo voltados a apostas com frequência que chamou atenção dos investigadores. A soma das movimentações em sua conta própria, com 15 mil seguidores, e nas dos demais suspeitos a ele vinculados chegou a 7,8 milhões de reais, de acordo com o inquérito. Nos registros do Ministério do Trabalho, Micael consta como jovem aprendiz de uma rede de supermercados carioca, com remuneração mensal de 560 reais.

A influenciadora de moda Luíza Ferreira, carioca com 100 mil seguidores, também integra a Operação Desfortuna. As investigações apontam que ela teria lavado 700 mil reais em uma série de transações bancárias, valor muito superior ao declarado no Imposto de Renda. Luíza negou envolvimento em qualquer atividade ilegal e afirmou que seu patrimônio é fruto de “trabalho honesto” nas redes sociais.

A personal trainer Mayara Costa, presa em junho na cidade de Sobral, no Ceará, é apontada como peça de um dos maiores esquemas da lista. Com 16 mil seguidores, ela é suspeita de integrar uma rede que teria lavado 1 bilhão de reais do CV por meio de empresas, imóveis e carros de luxo, conforme as investigações.

Natacha Silva, ex-bailarina do programa Domingão do Faustão e ex-musa do Carnaval, pode tornar-se a conexão mais direta com o topo do PCC até agora identificada pelas investigações. Com 1 milhão de seguidores, ela manteve relacionamento com Valdeci Alves dos Santos, o Colorido, apontado como um dos chefes da facção no Rio Grande do Norte. O Ministério Público potiguar a acusa de ter lavado 15 milhões de reais da quadrilha; em troca, a facção teria financiado um intercâmbio nos Estados Unidos. A defesa nega qualquer ato ilícito e sustenta que Natacha foi incluída no inquérito exclusivamente em razão do relacionamento.

Dificuldades para desbaratar o esquema

Investigadores enfrentam ao menos três obstáculos estruturais. O primeiro é a volatilidade das operações; ao menor sinal de fiscalização, as bets ilegais são retiradas do ar e substituídas por novas plataformas. O segundo é a complexidade financeira; desmantelar as cadeias exige quebra de sigilos bancários e preservação de provas que podem ser apagadas de um celular em segundos. O terceiro é a resistência das plataformas digitais a adotar mecanismos de monitoramento de transações suspeitas, semelhantes aos exigidos dos bancos.

“As quadrilhas mantêm com os influenciadores um elo 100% mercadológico, algo complexo de destrinchar”, afirmou Renan Mello, delegado da delegacia especializada em lavagem de dinheiro da Polícia Civil do Rio de Janeiro.

“Não adianta apenas tirar o influenciador do circuito, porque certamente vão encontrar outro que faça a mesma coisa. É preciso alcançar o andar de cima”, declarou o promotor Flávio Duarte, do Ministério Público do Rio Grande do Sul.

Técnicos da Receita Federal também reconhecem a dificuldade de rastrear mecanismos como as contas-bolsão, que misturam recursos de múltiplos clientes, e os criptoativos, que operam à margem dos sistemas tradicionais de controle financeiro.

“Há inúmeras possibilidades de flutuação de dinheiro nesses perfis por sua natureza informal e desburocratizada”, avaliou o promotor Orlando Pugliese, do Ministério Público de São Paulo.

Ao longo deste ano, o Ministério da Fazenda removeu 243 aplicativos de bets ilegais e cerca de 1.000 páginas de influenciadores que promoviam sites clandestinos de apostas ou violavam determinações legais do setor.

 


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