FactCheck: relatório do Bradesco BBI superestima em 2,5x o GGR das bets no Brasil

Um relatório do Bradesco BBI sobre o mercado de apostas na América Latina, repercutido pelo Brazil Journal na reportagem “Bets vão continuar crescendo, diz o Bradesco BBI”, publicada em 8 de setembro, apresenta um erro relevante na estimativa da receita bruta de jogos (GGR, na sigla em inglês) do Brasil.
Segundo o banco, citado pela reportagem, o GGR do Brasil “saltou 33% no ano passado para US$ 17 bilhões”, depois da liberalização do mercado online de bets. Para 2026, a expectativa do banco é de crescimento mais moderado, de 11%, para cerca de US$ 20 bilhões.
O que os dados oficiais mostram
Segundo balanço divulgado pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA-MF), o GGR do mercado regulado de apostas de quota fixa em 2025 foi de R$ 36,9 bilhões — equivalente a aproximadamente US$ 6,7 bilhões pela cotação média do dólar no período (~R$ 5,5/US$).
O valor citado pelo Bradesco BBI é, portanto, cerca de 2,5 vezes maior que o dado oficial declarado por operadoras licenciadas e sujeitas à fiscalização da SPA-MF.
É digno de nota que outros números do relatório — 25,2 milhões de apostadores e ticket médio de R$ 122/mês — coincidem exatamente com os dados oficiais da SPA-MF. Isso indica que o erro está concentrado especificamente na conversão ou na definição da base de GGR, e não em uma estimativa própria e independente do banco para o tamanho do mercado.
A projeção para 2026 também destoa dos dados reais
Dados obtidos pelo BNLData via Lei de Acesso à Informação (LAI) junto à SPA-MF mostram que o mercado regulado encerrou o primeiro semestre de 2026 com GGR de R$ 20,07 bilhões, alta de 15,3% sobre igual período de 2025.
Projetando esse ritmo para o ano cheio — seja pela simples duplicação do semestre (R$ 40,1 bilhões), seja aplicando a mesma taxa de crescimento de 15,3% sobre a base oficial de 2025 (R$ 42,6 bilhões) —, o GGR de 2026 deve ficar entre R$ 40 bilhões e R$ 43 bilhões, o equivalente a aproximadamente US$ 7,6 bilhões a US$ 8 bilhões pela cotação média do dólar no ano.
O número está muito distante da projeção de US$ 20 bilhões feita pelo Bradesco BBI para 2026 — uma diferença de ordem de grandeza semelhante à observada nos dados de 2025, o que reforça a hipótese de erro sistemático de conversão ou de definição de base na metodologia do banco, e não uma discrepância pontual.
A pergunta que o Bradesco BBI precisa responder
A discrepância de US$ 10,3 bilhões entre o número do banco (US$ 17 bilhões) e o dado oficial (US$ 6,7 bilhões) — equivalente a cerca de R$ 56,7 bilhões pela cotação média de 2025 — é grande demais para ser explicada por uma simples diferença de arredondamento ou de data de corte. Isso coloca o Bradesco BBI diante de duas alternativas, e não há uma terceira via confortável:
⇒ O banco errou a conversão ou a base de cálculo do GGR, inflando artificialmente o tamanho do mercado brasileiro — o cenário mais provável, dado que os demais dados do relatório (base de usuários, ticket médio) batem com os números oficiais; ou
⇒ O banco está contabilizando, dentro do seu GGR de US$ 17 bilhões, alguma estimativa de mercado ilegal não declarada na metodologia do relatório — o que implicaria dizer que o mercado clandestino de apostas no Brasil movimentaria algo da ordem de R$ 56 bilhões em GGR, um valor muito acima de qualquer estimativa disponível até hoje (a própria consultoria H2, citada em reportagens do setor, calculou o mercado ilegal em cerca de R$ 16,3 bilhões em 2025 — menos de um terço do gap identificado aqui).
Qualquer uma das duas hipóteses é desconfortável para o banco. Se for a primeira, o relatório precisa de correção pública. Se for a segunda, o Bradesco BBI estaria endossando a tese de que o mercado ilegal é várias vezes maior do que qualquer estimativa hoje disponível — contrariando o discurso, comum entre parte do setor regulado, de que o ilegal é hoje um fenômeno marginal. Não é possível, ao mesmo tempo, sustentar que o Brasil tem um GGR de US$ 17 bilhões e que o ilegal é inexpressivo: as duas afirmações não fecham a conta juntas.
Por que isso importa
Relatórios de bancos de investimento como o Bradesco BBI são amplamente repercutidos pela imprensa e usados por investidores, gestores e formuladores de política para dimensionar o setor de apostas no Brasil. Um erro de ordem de grandeza nessa magnitude:
⇒ distorce a percepção do tamanho real do mercado brasileiro de bets frente a outros países da América Latina, no mesmo levantamento do banco;
⇒ pode inflar artificialmente a narrativa de “boom” do setor, usada tanto por defensores quanto por críticos da regulamentação;
⇒ ilustra a importância de cotejar estimativas de mercado com os dados administrativos oficiais da SPA-MF antes de repercuti-las.
Metodologia deste FactCheck
Os dados oficiais citados neste texto têm como fonte os balanços divulgados pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA-MF) e dados obtidos pelo BNLData via Lei de Acesso à Informação (LAI). A conversão cambial usa a cotação média aproximada do dólar em cada período de referência. A projeção de GGR para o ano cheio de 2026 é uma extrapolação simples a partir do resultado real do primeiro semestre e está sujeita à sazonalidade do calendário esportivo, que costuma concentrar maior volume de apostas no segundo semestre.
Apostas online no Brasil vão continuar crescendo segundo o Bradesco BBI


